Conhecendo os filhos fugitivos de traficantes de drogas internacionais

A autora – que foi obrigada a se mudar pelo globo quando criança por causa de seu pai traficante de maconha – falou com outras pessoas que tiveram vidas parecidas.

por Tyler Wetherall ; Traduzido por Marina Schnoor
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23 Abril 2018, 11:00am

A autora (o nenê de moicano) na lua de mel dos pais em Maui, quando a família começou a ser vigiada. O homem de branco no fundo era um agente do FBI.

 

Matéria originalmente publicada pela VICE Reino Unido.

Eu tinha nove anos quando descobri que meu pai era um fugitivo. Em vez de nos levar para a escola uma manhã, minha mãe chamou minha irmã e eu para o quarto dela, nos juntando na enorme cama king size dela enquanto tomávamos xícaras de chá. Ela me disse que nosso sobrenome não era real, mas um pseudônimo, e que nossa família vinha fugindo do FBI nos últimos sete anos. Toda a vida que eu conseguia me lembrar.

Só muitos anos depois descobri o que ele tinha feito. A organização do meu pai tinha contrabandeado quase meio bilhão de dólares em maconha para os EUA no final dos anos 70 e começo dos 80. Quando nasci, em 1983, os federais já vigiavam nossa casa. Dois anos depois, a investigação fechou o cerco contra ele, e meus pais decidiram que, em vez de separar a família com a prisão dele, tínhamos que sair do país. Eles esperavam que tudo isso fosse passar.

Pensando agora, foi uma má ideia. Mas na época, não éramos a única família fazendo isso, e por uma boa razão: na ofensiva às drogas dos anos 1980 de Ronald Reagan, algumas sentenças mais que dobraram, com uma pena mínima obrigatória e sem direito a condicional. A abordagem liberal do ex-presidente Jimmy Carter considerava a comunidade de contrabando de maconha relativamente benigna – hippies com negócios pequenos e conexões para lucrar na época. Mas com a poderosa recém-formada Força Tarefa de Drogas de Reagan mobilizada contra eles, muitos passaram a fugir – e levaram suas famílias junto.

Quando chegamos a Europa da Califórnia em 1985, nos tornamos parte de uma rede de fugitivos que se estendia por todo o continente. Esses fugitivos trocavam informações e contatos entre si: como colocar os filhos na escola com nomes falsos; quem tinha sido preso e quanto tempo pegou; e onde esconder dinheiro ilegal.

E aí você tinha as crianças, que cresceram colecionando endereços e nomes como outras crianças colecionam Barbies. Filhos que cresceram guardando segredos que podiam colocar seus pais na cadeia.

Claudia* tinha dez anos quando seus pais disseram que ela precisava trocar de nome. Seu pai, Aaron, tinha feito contrabando com meu pai na Califórnia, e os dois mais tarde foram acusados de comandar um Empreendimento Criminoso Contínuo, conhecido como o Estatuto Chefão, que sob as novas leis rendia uma sentença mínima de 20 anos. Aaron era um homem gentil e sossegado, que fugiu com a esposa e duas filhas um pouco antes de nós. Claudia lembra de estar sentada num restaurante na França esperando um sorvete, quando seu pai disse que dali em diante ela deveria usar o sobrenome Sewell. Pelos primeiros seis meses, Claudia soletrou seu novo sobrenome errado. Seu pai não pensou em mostrar a ela como se escrevia. O pai disse que estava com problemas por evasão fiscal. Foi isso que nos disseram também, contando com a ignorância das crianças sobre impostos.

A irmã de Claudia, Anna, tinha 18 meses quando deixou os EUA. Ela cresceu acreditando que todo mundo recebia um nome diferente quando ia morar na Europa, uma explicação de criança para o inexplicável. Nunca questionamos o que nos diziam, pelo menos não no começo. Era tudo que a gente conhecia. Em vez disso, preenchíamos as lacunas sem nem perceber.

Minha família se mudou da Itália para Portugal e depois para o sul da França, para se juntar a outros fugitivos que eles conheciam e que tinham se assentado lá com sucesso. Em Mougins, Baby Doc – o ditador haitiano – era nosso vizinho, e o traficante de armas saudita Adnan Khashoggi morava na casa do outro lado. Era um lugar onde os duvidosamente ricos podiam morar sem levantar muitas suspeitas. Mesmo quando mudamos para o Reino Unido e meus pais se separaram, passávamos o verão na França com outras famílias fugitivas. As crianças nunca falavam entre si sobre nossa situação. Fomos criados com uma regra: não diga nada! Claudia só contou sua história para duas ou três pessoas na vida.

Alexander passou seus primeiros nove anos em movimento; ele perdeu a conta de por quantas casas e escolas passou. Ele mudou de nome três vezes, e, toda vez, seu pai fazia ele escrever várias vezes seu nome até decorar. Alexander lembra que, quando tinha oito anos, ele participou de uma festa do pijama na casa de uma amiga e disse para ela que ele tinha dois nomes diferentes. A amiga disse que isso era estranho, então, no carro no caminho para casa, Alexander perguntou ao pai por que aquilo era estranho. Foi a primeira vez que ele ouviu seu sobrenome real. Ele sentiu como se estivesse numa aventura e que aquele era seu segredo agora. “Éramos um time mesmo”, ele disse, falando sobre sua família muito unida. Quando o mundo ao seu redor é um fluxo, você se agarra aos mais próximos. Nós versus eles.

Nos tornamos mestres da mentira, e mestres em guardar segredos. Se alguém me questionava sobre aspectos da minha infância que não faziam sentido – as mudanças frequentes e a natureza estranha do trabalho do meu pai – eu inventava alguma coisa. Eu dizia que nos mudamos dos EUA porque minha mãe queria ficar mais próxima da família inglesa dela, e que meu pai era um investidor de capital. O que era verdade. Alexander descreve isso como pensamento duplo: acreditar tanto na sua história de cobertura quanto na verdade.

A prisão de outro grupo de fugitivos comprometeu a segurança da nossa casa no sul da França, e muitos do nosso grupo de foras da lei se mudaram. Alexander lembra do medo que sentiu quando seu pai fugiu para um esconderijo em Paris, dizendo para ele: “Se alguma coisa acontecer comigo, cuide da sua mãe e do seu irmão”. Quando Claudia voltou da escola no último dia de aula do verão, seus pais disseram que ela nunca mais poderia voltar. Sua família estava se mudando para Florença, e ela não podia avisar os amigos ou dizer para ninguém onde eles estavam indo. “Foi quando eu soube que era algo mais sério que evasão fiscal”, ela disse. Logo depois, ela estava assistindo um noticiário com a mãe quando começou um seguimento sobre traficantes, e Claudia perguntou “Esses caras são como o pai?”

Falando de Nova York – agora com 42 anos, mãe e dona de bar – ela não tem certeza se realmente sabia a verdade. “Ele nunca teve um trabalho, mas eu não questionava isso”, ela disse. “Nós chamávamos o telefone público da rua de escritório dele.” Seu pai sempre foi aberto sobre fumar maconha. “Até hoje, maconha é o cheiro de casa”, ela disse. “Sabe como outras pessoas dizem isso sobre torta de maçã? Tipo assim.” Mais tarde, quando se mudaram para Paris, Claudia, então com 16 anos, vendia maconha para ele. “Eu tinha mais negócios que ele. E ele ficou com medo de que fôssemos pegos.”

O momento de epifania de Anna veio quando ela estava assistindo o filme de River Phoenix O Peso de um Passado – sobre uma família da contracultura fugindo do FBI – e reconheceu sua própria vida na história.

Todos nós temos essas anedotas – confrontados com filmes de Hollywood enquanto tentávamos levar uma vida em família normal. Nossos pais tinham identidades falsas, escapavam de agentes federais por pouco, e tinham dinheiro secreto escondido em cofres de banco. Mas ficávamos confusos com isso, tipo como navegar pela adolescência, que para ajudar veio ao mesmo tempo.

Enquanto outros adolescentes compartilhavam segredos brincando de verdade ou desafio, ficávamos em silêncio. A primeira vez que Alexander contou a um amigo foi quando tinha 14 anos. “Me senti péssimo depois, como se estivesse indo contra tudo que tinha aprendido”, ele disse, sua intonação agora mais distintamente francesa. “Quando notei que meu amigo não acreditou, segui a deixa e disse que era brincadeira. Não tentei contar de novo para ninguém até os 21 anos.”

Para mim, era fácil manter o segredo até ficar chapada, aí eu queria conversar. Eu sempre me arrependia, acordando no dia seguinte num poço de ressaca, morrendo de medo do que podia acontecer por causa do que eu tinha contado.

Mas todos nós ficamos de saco cheio no final. Alexander chegou a usar essa carta contra os pais – numa coisa típica de angústia adolescente: “Vocês foderam minha vida” – mesmo estando mais puto com o sistema de justiça americano. Para Anna, foi quando ela tinha 12 anos; sua irmã Claudia já tinha saído de casa quando seus pais disseram que eles iam se mudar de Paris para Amsterdã. “Eu tinha amigos, tinha uma vida”, disse Anna. “Era toda uma outra língua para aprender. Fiquei muito puta.”

Os pais de Anna se sentaram com ela e explicaram que seu pai era um contrabandista de maconha. Ele disse que todo mundo fazia isso nos anos 80, e que não era nada demais na época, mas ela não via dessa maneira. “Senti que tinha sido algo muito irresponsável”, ela disse, agora uma mãe solteira morando em Nova York. “Caramba, ele já tinha dinheiro, dois filhos, não era hora de vender drogas.”

Eu costumava imaginar como seria minha vida se meu pai nunca tivesse se metido em problemas. Se eu teria crescido na casa na Califórnia onde nasci, com um lago particular, pavões, quadros do Warhol na parede e dois Corvettes na garagem. Eu provavelmente teria me tornado uma metida escrota. Mas sim, seria legal descobrir.

Nossos pais foram caindo um depois do outro. Em 1996, meu pai pegou dez anos e serviu seis na Califórnia, onde ele mora agora. Tivemos altos e baixos durante aqueles tempos, mas continuamos próximos. O pai de Claudia e Anna se entregou depois que as garotas saíram de casa em 2004. Eles se encontraram por uma semana em Vancouver e choraram quando disseram adeus. Ele fumou um cigarro, queimou suas identidades falsas, entrou no escritório de imigração na fronteira canadense e disse “Você vai querer chamar seu chefe para mim”. O FBI finalmente localizou o pai de Alexander em 2016. Alexander, agora um videoartista de 33 anos que mora nos arredores de Paris, descreveu o momento como se sua vida estivesse desmoronando. Seu pai era um cidadão cumpridor da lei e pagador de impostos na França há 30 anos, e agora era um septuagenário. As queixas acabaram retiradas.

E nós, os filhos – bom, o dinheiro tinha acabado há tempos, mas temos nossas histórias.

“Lembro de uma vez em que fiquei puto ouvindo meu pai contar de novo a história sobre fumar becks com o Bob Marley ou algo assim. Eu disse 'É por causa de tudo isso que temos essa vida'”, diz Alexander, rindo. “Mas eu também sentia admiração. Ele fez tudo que pôde para me dar uma vida normal. Como vejo o que aconteceu? Acho que isso me tornou mais forte.”

Eu não sabia das experiências dos outros até tudo ter terminado e nos reencontrarmos como adultos, nos unindo em torno desses contos como piadas internas, rindo do absurdo da coisa toda. Eu não mudaria nada agora se pudesse. Talvez um pouco menos de sofrimento, e ter escondido pelo menos um quadro do Warhol.

*Alguns nomes e características foram mudados.

Tyler Wetherall é autora de No Way Home: A Memoir of Life on the Run (St. Martin's Press, 2018).

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