Saúde

O que suplementos de óleo de peixe realmente fazem

Óleo de peixe é só óleo de cobra?

por Mark Hay; Traduzido por Marina Schnoor
22 Maio 2019, 10:00am

Shana Novak / Getty

Há séculos, humanos usam óleos de peixe, oral e topicamente, para tratar uma variedade de males, de dores e raquitismo até gota. A popularidade desse suplemento mudou com os anos, assim como seus principais usos. Mas nas últimas décadas, o hype cercando óleo de peixe atingiu o maior pico de todos os tempos. Segundo estatísticas do National Institutes of Health, em 2012, pelo menos 18,8 milhões de norte-americanos usaram cerca de US$ 1,3 bilhões em óleo de peixe, fazendo dele o terceiro suplemento mais usado nos EUA. (As vendas supostamente estacionaram nesse nível por volta de 2013.)

Hoje, muita gente usa óleo de peixe porque acredita que ele ajuda na saúde cardíaca, mas outros acham que o produto pode ajudar com saúde renal, dos ossos, problemas nas juntas, funções cognitivas e bem-estar mental, entre várias outras condições. Mas o óleo de peixe é tão bom quanto milhões de pessoas acreditam? Quem deveria estar tomando esses suplementos e quando? Mergulhamos em pesquisas e consultamos especialistas para tentar descobrir.

O que exatamente é óleo de peixe?

Óleo de peixe é derivado de peixes processados, especialmente espécies como arenque, cavala, salmão, anchova e sardinha. Esses óleos são ricos em ácidos graxos Ômega 3, especialmente ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosaexaenoico (DHA). Nossos corpos conseguem transformar ácido alfalinolênico – outro tipo de ácido graxo Ômega 3 encontrado em coisas como óleo de canola, semente de abóbora e nozes – em EPA e DHA, mas óleo de peixe é uma fonte mais eficiente de Ômega 3 para nós.

Ácidos graxos Ômega 3 “fazem muitas coisas no nosso corpo”, explicou Stephen Kepecky, cardiologista da Mayo Clinic. É difícil resumir exatamente o que eles fazem, mas é seguro dizer que manter um nível suficiente desses ácidos é vital para nosso funcionamento geral.

Óleo de peixe é bom pro coração?

As crenças modernas sobre os benefícios dos óleos de peixe para saúde cardíaca vêm de estudos observacionais dos inuítes da Groenlândia nos anos 1970, que descobriram que a dieta deles tinha um consumo extremamente alto de peixes oleosos e que eles tinham uma taxa muito baixa de doenças cardíacas. Desde então, a Associação Americana do Coração recomenda consumir peixe pelo menos duas vezes por semana para, entre outras coisas, diminuir a taxa de crescimento de placas nas artérias, baixar um pouco a pressão e manter um coração sadio no geral. A Administração Federal de Drogas (FDA) também aprovou alguns medicamentos com base de óleo de peixe para uso no controle de triglicérides alto (um tipo de gordura que você pode controlar) em pacientes.

Óleo de peixe, disse Kopecky, “é nosso tratamento padrão para a maioria das pessoas com triglicérides alto”, além de aumentar a atividade física e diminuir o consumo de carboidratos. Vários estudos também sugerem que doses confiáveis de óleo de peixe de qualidade podem baixar o risco de precisar colocar marcapasso, dor no coração, ataque cardíaco, derrame e parada cardíaca repentina em pessoas que já têm problemas cardíacos. Por outro lado, consumo excessivo de óleo de peixe – mais de 47,3 ml por dia – foi ligado a um maior risco de derrame em pelo menos um estudo.

Enquanto alguns estudos sugerem que suplementos de óleo de peixe podem ajudar pessoas saudáveis a proteger seus tecidos cardíacos um pouco, as evidências parecem relativamente fracas e inconsistentes, então a maioria dos médicos não recomenda o produto como uma ferramenta preventiva.

Óleo de peixe é bom para a saúde mental e neural?

Crenças sobre os benefícios mentais e neurológicos do óleo de peixe provavelmente vêm do fato que “cerca de 40% da gordura poliinsaturada do nosso cérebro”, ou de cinco a dez por cento da massa total do nosso cérebro, é “Ômega 3 DHA”, disse R. Preston Mason, professor do departamento de medicina, divisão de cardiologia, de Harvard. Esse composto parece estar envolvido em enviar sinais entre as células cerebrais. E as diretrizes nutricionais do governo americano dizem que consumir frutos do mar é importante para crescimento e desenvolvimento cerebral. Mas não sabemos realmente o que tomar suplementos de óleo de peixe faz, se é que faz alguma coisa, para crianças ou adultos para melhorar a saúde neurológica e mental.

Algumas pesquisas sugeriram que óleo de peixe podia ajudar a melhorar a atenção para crianças com déficit de atenção com hiperatividade (DDA), ou na função mental e comportamento de crianças no geral. Uma pequena pesquisa também sugeria que óleo de peixe podia ajudar a reduzir o risco, ou controlar, certos problemas mentais em crianças e jovens adultos que apresentavam sintomas leves. Pelo menos um estudo colocou a ideia de que óleo de peixe pode ajudar a reduzir convulsões em pacientes com epilepsia resistente a drogas. Mas essas descobertas são bastante fracas e provisórias.

Óleo de peixe é bom para a visão?

Apesar de alguns estudos terem sugerido que comer peixe regularmente pode resultar em menos perda de visão relacionada com a idade, e que o consumo regular de óleo de peixe reduz o risco de catarata, esses estudos não foram conclusivos e têm sido debatidos. Óleo de peixe era receitado para tratar olho seco com base em alguns estudos, disse Kopecky, “até três a cinco anos atrás, quando metanálise mostrou que ele não tinha muito benefício. Oftalmologistas não recomendam mais óleo de peixe”.

Óleo de peixe é bom pra pele?

Kopecky hesita em apoiar qualquer estudo dermatológico que sugere que óleo de peixe pode ajudar a combater ou prevenir rugas. Outros estudos também sugerem que óleo de peixe pode ajudar com acne, eczema e psoríase, mas são relativamente limitados e dificilmente conclusivos. Mas vale notar que essas descobertas são menos contestadas que as de outros benefícios do óleo de peixe.

Óleo de peixe ajuda a prevenir câncer?

Enquanto alguns pesquisadores já sugeriram que óleo de peixe podia ajudar a diminuir o risco de desenvolver todos os tipos de câncer – como câncer de mama, colorretal, esofágico, oral, de ovário, faringe e próstata – estudos examinando essas afirmações são limitados e seus resultados variam muito. Pelo menos um estudo na verdade sugeriu que uso de óleo de peixe pode aumentar o risco de câncer de próstata, quando consumido por certos subgrupos e em certas quantidades com o tempo.

Óleo de peixe ajuda a perder peso?

Revistas de estilo de vida hyparam brevemente um estudo japonês argumentando que óleo de peixe estimulava o trato digestivo de ratos para reduzir ganho de peso e ajudava a emagrecer. Outro estudo sugeriu que humanos com sobrepeso e pressão alta podiam tirar benefícios de perda de peso de óleo de peixe. Mas essas descobertas são excepcionalmente limitadas e não há evidência substancial de que o produto pode ajudar humanos a cuidar de seu peso.

Se há tantas incertezas cercando os benefícios do óleo de peixe, por que tanta gente ainda usa?

A maioria das pesquisas sobre os supostos benefícios do óleo de peixe – incluindo algumas bastante específicas (por exemplo: para gengivite, pneumonia e alergias alimentares variadas) – se mostraram inconclusivas. Isso provavelmente em parte porque estudos sobre os efeitos de suplementos muitas vezes são mal estruturados, sem controle de placebo, ou tentativas de levar em conta fatores adicionais, como dieta e estilo de vida, o que também pode influenciar os resultados. Muitos estudos também são pontuais, sem um acompanhamento substancial para detalhar ou refutar suas afirmações, deixando os consumidores de óleo de peixe com um monte de informações fracas.

Algumas das inconsistências também se devem ao fato de que nem todas as centenas de produtos de óleo de peixe do mercado são feitos do mesmo jeito. Estudos com suplementos de óleo de peixe vendidos em farmácias sem receita descobriram que muitos dele não apresentam corretamente a quantidade de EPA e DHA que contêm, especialmente em relação um ao outro, ou emitem detalhes sobre ingredientes adicionais utilizados. (A indústria de suplementos dos EUA é notoriamente sub-regulada.) Na maioria dos suplementos “só um terço do produto são ácidos graxos Ômega 3”, disse Mason, baseado em sua própria pesquisa e pesquisas de outros observadores da indústria. “Por isso eles custam tão barato.” A pesquisa de Mason também mostrou que produção, transporte e armazenagem desleixados muitas vezes fazem os ácidos graxos Ômega 3 nos suplementos se tornarem rançosos, o que acaba com qualquer benefício que eles podiam ter. Um cheiro de peixe azedo no pote pode indicar que as cápsulas estragaram.

Se eu quiser experimentar, de quanto Ômega 3 preciso?

Sabemos que ácidos graxos Ômega 3 têm um papel vital no desenvolvimento humano, especialmente desenvolvimento neurológico. Também sabemos que nosso corpo não consegue produzi-los sozinho. Mas ninguém ainda definiu quanto exatamente ou se realmente precisamos dele quando adultos para se manter saudável, disse Kopecky. Muito disso provavelmente depende do corpo de cada indivíduo, acrescentou Mason, apesar de apontar que o corpo humano é bastante eficiente, no geral, em absorvê-los, então “não é como se você precisasse disso todo dia para manter” suas estruturas físicas.

E mesmo que a maioria das pessoas consuma menos peixe que duas vezes por semana como recomendado, elas ainda conseguem ácidos graxos Ômega 3 na dieta cotidiana, talvez através de alimentos como óleo de canola ou nozes, para evitar deficiência de Ômega 3.

E os médicos não sabem muito sobre o que acontece quando alguém tem deficiência de Ômega 3, disse Kopecky, porque é difícil que isso realmente se torne uma deficiência. Estudos de casos sugerem que isso pode levar a riscos de doença cardíaca, transtornos de humor, inflamação ou até câncer, mas é difícil listar seus efeitos. Uma pessoa precisaria ter uma dieta incrivelmente ruim e não-variada para ter essa deficiência, disse Mason.

Há riscos em tomar suplementos de óleo de peixe?

Enquanto Mason apontou que pode haver riscos associados com o consumo de alguns adulterantes que os fabricantes de suplementos acrescentam ao óleo de peixe, nosso corpo parece tolerar bem uma grande variedade de doses de Ômega 3. Mas consumir mais que 3 gramas por dia pode levar a complicações na coagulação do sangue ou reduzir funções do sistema imunológico – especialmente para quem já usa anticoagulantes. Algumas pessoas também podem experimentar náusea, azia, diarreia ou erupções cutâneas. E quem é alérgico a qualquer tipo de fruto do mar precisa consultar um médico antes de tomar esses suplementos, mesmo que eles possam não causar qualquer tipo de reação.

Além dos riscos de saúde, a demanda por óleo de peixe abastece a pesca excessiva que está devastando cardumes de anchovas, krill, sardinhas e outras espécies marinhas ambientalmente importantes. A pesca para produção de óleo em vez da carne de peixe para consumo humano também tende a pagar salários menores para os trabalhadores.

OK, preciso tomar suplementos de óleo de peixe?

A menos que você tenha um problema cardíaco e seu médico receite um produto aprovado, disse Mason, provavelmente não. Se a dieta de uma pessoa é, por alguma razão, completamente desprovida de ácidos graxos Ômega 3 e ela não tem como consertar isso, Kopecky acredita que pesquisar bons produtos de óleo de peixe pode ser útil. Mas nesse caso, você deve ter cuidado para garantir que está realmente tomando apenas óleo de peixe – e que o produto não está estragado e cheio de contaminantes ambientais, como Mason e outros pesquisadores mostraram que é bem comum na paisagem atual de suplementos dos EUA.

Sabemos que dietas ricas em peixe são boas no geral. Mas no final das contas, a maioria se beneficiaria mais tendo uma dieta balanceada, contendo peixe e outros produtos com ácidos graxos Ômega 3 que nosso corpo pode converter em EPA e DHA.

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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