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Identidade

Homens héteros relembram a primeira vez que se sentiram atraídos por uma mulher trans

Muitos homens curtem garotas trans, só não admitem.

por Diana Tourjée ; ilustrado por Jacqueline Lin; Traduzido por Marina Schnoor
26 Julho 2019, 10:00am

Ilustração por Jacqueline Lin.

Meu primeiro namorado era um garoto hétero do Bronx. Alex – não seu nome verdadeiro – era inteligente e bonito, mas tinha ansiedade social. Ele tinha medo de sair comigo em público, então nosso relacionamento de seis meses aconteceu inteiramente no meu apartamento no Brooklyn. Quando o pai de Alex descobriu sobre mim, ele ficou puto, e disse que eu o estava enganando. Mais tarde, Alex me disse que seu pai admitiu que, quando jovem, bateu numa garota trans por “enganá-lo”.

Tentei consolar o Alex, mas não tenho certeza se fizemos muito progresso. Pensando agora, acho que ele precisava que outro homem hétero dissesse que era OK ser do jeito que ele era – que a atração dele por mim não era perigosa. Mas, para homens héteros que namoram e transam com mulheres trans, esse tipo de comunidade é impossível de encontrar. Dezenas de homens entram em contato comigo toda semana em aplicativos de encontro. Muitos deles não estão dispostos a se encontrar em público. Eles se descrevem especificamente como “discretos” ou “privados”.

Esse segredo significa que muitos homens que sentem atração por mulheres trans acabam vivendo uma mentira. E nos piores casos, essa mentira acaba virando raiva e violência contra mulheres trans por colocar a masculinidade deles em jogo. Mas há homens héteros cis que estão trabalhando para quebrar esse silêncio. Falei com quatro deles – de várias gerações – sobre como eles lidam com o tabu de amar mulheres trans.

Chris, 57 anos, é um empresário branco e acompanhante nas horas vagas; Troy, 55, é um pai, avô e profissional de serviços financeiros negro; Joel, 37, é um analista de informação negro; e Jeremy, 20, é um universitário negro de Nova York.

As entrevistas foram editadas e condensadas para melhor entedimento.

VICE: Quando vocês perceberam que sentiam atração por mulheres trans?

Chris: Na faculdade, amigos passaram uma foto de uma mulher trans com um pênis enorme pela sala. Eles estavam tirando sarro dela, mas me senti muito atraído pela foto.

Troy: Conheci uma mulher trans pela primeira vez em 1983. Eu tinha 19 anos e ela 17. Ela estava com problemas, então interferi e a levei pra casa. Só descobri que ela era uma mulher trans seis semanas depois. Eu não sabia o que isso realmente queria dizer na época. Só sabia que me sentia atraído por ela.

Jeremy: Percebi que estava interessado em mulheres trans quando assisti um pornô trans na adolescência. Mulheres trans tinham sido normalizadas pra mim com o Robin Byrd Show quando eu tinha uns oito anos, então eu não via como elas eram diferentes de qualquer outra garota.

Joel: Minha atração começou com pornografia e envolveu ser cliente de trabalhadoras sexuais nas ruas.

O que aconteceu depois?

Troy: Construí duas vidas separadas, literalmente. Uma de um homem de família heteronormativo casado. Outra como um cara que saía com mulheres trans.

Joel: Voltei a namorar mulheres cis e não consegui realmente me envolver com mulheres trans por causa da vergonha que homens, especialmente homens negros, sentem – a ameaça de ser “exposto” por namorar mulheres trans. Mas eu sabia que não estava feliz namorando mulheres cis. Em 2017, decidi que não ligava mais para o que as pessoas pensavam, e sucumbi ao meu desejo de conhecer e me envolver com mulheres trans seriamente. Em 2018, finalmente conheci uma mulher e tivemos um encontro real. Durante esse tempo, Pose ajudou a catapultar minha atração por mulheres trans.

Chris: Em certo ponto, comecei a me encontrar com prostitutas trans. Não muitas, porque eu não tinha dinheiro, mas “experimentei”. Aí conheci algumas garotas por chats na internet, Facebook, etc. Cheguei a ser um sugar daddy para algumas mulheres, e me encontrava com elas sempre que podia.

Jeremy: Depois que comecei a me masturbar com pornografia trans, procurei mulheres trans online. Depois disso, quando tinha 18 anos, baixei o Grindr. Me encontrei com minha primeira garota trans. Foi uma boa experiência, e já saí com oito ou dez outras mulheres trans.

É importante para vocês que uma mulher trans “passe” por uma mulher cisgênero? Além disso, vocês avaliam sua atração por mulheres trans com base em se elas são pré, não, ou pós-operadas?

Troy: “Passar” é muito subjetivo. Algumas das mulheres mais bonitas do mundo são trans e consigo ver que elas são. É mais uma questão da energia feminina que elas passam. Prefiro mulheres antes da operação ou que não operaram.

Joel: Por enquanto, só saí com duas mulheres de experiência trans, as duas ainda não tinham operado, mas estou aberto a me envolver com uma mulher que já passou pela operação também.

Jeremy: A pergunta me parece estranha porque a ideia de “passar” depende da situação e muda de pessoa para pessoas, então me sinto atraído por qualquer pessoa trans que acho sexy. Ter operado ou não não importa. Já estive com pessoas dos dois lados e não tenho preferência.

Como vocês rotularam sua sexualidade quando perceberam que se sentiam atraídos por mulheres trans, e como vocês se identificam hoje?

Troy: Eu era um “homem hétero” e lutei para manter esse rótulo. Isso não significa nada pra mim agora. A sexualidade é mais fluída do que as pessoas admitem.

Chris: Sempre me identifiquei como hétero. As pessoas me veem com hétero. Mas isso não importa pra mim hoje. Talvez 20 anos atrás.

Joel: Me identifico como homem hétero, antes e depois de ficar com mulheres trans.

Jeremy: Quando eu tinha idade para aprender os rútulos que definem sexualidade, eu simplesmente dizia que gostava do que gostava. O termo “hétero” não tem significado pra mim.

Quando perceberam que gostavam de mulheres trans, você tiveram dificuldade para aceitar?

Troy: Percebi o medo imediatamente. Havia só três tipos de sexualidade na minha cabeça. Hétero, bissexual ou gay. Eu não gostava de homens, então não era gay. Isso também significava que eu não era bissexual. Levei tempo para entender que gênero é uma construção social. Eu tinha medo, andei com uma nuvem de medo ao meu redor por mais de uma década. Eu tinha medo de ser chamado de gay. Eu me preocupava com o que meus amigos iam pensar. Eu tinha medo que minha família e meus filhos pensassem menos de mim. Mas isso nunca me impediu de procurar mulheres trans.

Joel: Inicialmente, fiquei preocupado com o que os outros poderiam dizer, e estava ansioso no meu primeiro encontro, então escondi e não contei pra ninguém da minha família, amigos próximos ou colegas de trabalho.

Jeremy: Experimentei um pouco de ansiedade, mas nunca realmente questionei minha sexualidade porque as via como mulheres. Eu era atraído por feminilidade e não masculinidade. Então me considerava, tipo, hétero com algo extra.

Que tipo de mudanças vocês acham que seria útil agora, para homens como vocês, para experimentar essa atração e ser capaz de aceitá-la de um jeito saudável?

Jeremy: Acho que a melhor coisa que podemos fazer para homens normalizarem relacionamentos com mulheres trans é vê-las em contextos não-sexuais. Acho que uma grande mudança na sociedade que me ajudou, mas não ajudou homens mais velhos, foi ver mulheres trans representadas não de um jeito sexual. Como no filme I Am Jazz. No colégio, ouvi falar sobre o grande debate entre Ben Shapiro e Zoe Tur – as pessoas estavam discutindo se devíamos chamar mulheres trans de mulher ou homem, as pessoas estavam falando sobre mulheres trans nos esportes. Foi uma conversa cultural.

Troy: Os homens precisam sair das sombras. Convivemos com atletas profissionais, atores e rappers. Já dei rolês com garotos da vizinhança e celebridades. Vi homens de todo tipo de vida envolvidos com mulheres trans em segredo. Sei de parentes, amigos e colegas que transaram, namoraram ou sentem atração por mulheres trans. Os homens precisam parar de mentir. Homens vivem com medo.

Homens cis não estão em perigo porque se sentem atraídos ou namoram mulheres trans. Nosso medo é matar mulheres trans.

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