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Saúde

'Atenção plena' não é a resposta pro seu ambiente de trabalho infernal

Prefiro me demitir que tentar ser “calma, agradável e útil”.

por Katie Way; Traduzido por Marina Schnoor
14 Outubro 2019, 10:00am

Foto por fizkes via Shutterstock.

Praticar atenção plena regularmente é bom pra você, e se você nunca tentou vale a pena experimentar. Essa opinião não é controversa; quase nem é uma opinião, considerando a abundância de evidências estabelecidas que apoiam os benefícios de introduzir algum tipo da prática – seja ioga, tai chi ou só meditação – na sua vida. Diminuição do stress, melhoras na memória e capacidade de foco, e redução da reatividade emocional são apenas alguns dos jeitos como atenção plena pode fazer seu cérebro funcionar melhor. Mas uma série de outros estudos apontam uma nova coisa legal que atenção plena pode fazer: melhorar seu comportamento como trabalhador!

O artigo em questão, publicado em setembro no jornal Organizational Behavior and Human Decision Processes, inclui três estudos conduzidos por professores de administração. Pesquisadores observaram trabalhadores numa seguradora americana e num centro de consultoria de TI indiano, e concluíram que mesmo sete a oito minutos de meditação por dia podem “tornar as pessoas mais úteis” em seu ambiente de trabalho. “Mesmo com uma intervenção única, você consegue trabalhadores mais calmos, agradáveis e úteis”, disse Lindsey Cameron, uma das coautoras do estudo e professora da Universidade da Pensilvânia, numa entrevista com Knowledge@Wharton. OK, “calmo, agradável e útil” é um bom jeito de descrever golfinhos que resgatam pessoas de acidentes marítimos. Mas como descrição para seres humanos de verdade, a coisa parece mais vazia.

Atenção plena no local de trabalho está se tornando cada vez mais comum em grandes corporações, onde escritórios funcionam como playgrounds de adultos (ou mais tipo masmorras de ostentação). O argumento de Cameron, e o argumento em geral, para casar atenção plena com produtividade no trabalho é que como o trabalho tem tanto espaço nas nossas vidas, é razoável dedicar o máximo de energia física e mental possível a ele. “Passamos mais tempo no trabalho que com nossas famílias, e às vezes há rusgas. As pessoas estão trabalhando em equipes, então a atenção plena pode agir como um amortecedor para melhorar a coordenação de relacionamento e funcionamento”, Cameron disse na entrevista. Sem querer ser aquela pessoa “Isso é muito Black Mirror!”, mas a ideia de praticar atenção plena especificamente para me tornar uma funcionária mais agradável é bem distópica e sombria pra mim.

Olha, se minha família budista, o vestido de exercício da Outdoor Voices, e aquela foto da Lindsay Lohan toda plena na frente de um templo na Tailândia não me convenceram a meditar por 15 minutos todo dia, a perspectiva de ser uma funcionária mais agradável é que não vai, colega!

É muito rico ver a atenção plena ser aliciada como ferramenta para melhorar a performance no trabalho quando o stress nos escritórios vem crescendo literalmente há décadas. Programas como o Search Inside Youself do Google, “uma iniciativa de liderança de atenção plena” que agora expandiu para um programa de treinamento independente, é um contraste gritante de como a empresa trata sua legião de funcionários terceirizados, alguns deles que se sindicalizaram mês passado num primeiro caso histórico para trabalhadores da área de tecnologia. Funcionários não precisam respirar fundo e fazer ioga de cubículo – precisamos de salários decentes, ser pago em dia, benefícios, licença maternidade e uma boa separação de trabalho e vida. Se as pessoas que conheço indicam alguma coisa, é que estresse que atrapalha o sono e prejudica relacionamentos provavelmente é a única tendência de trabalho bombando mais agora que atenção plena.

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