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A estranheza de Urias

Um papo reto sobre moda, desejo e Lady Gaga com a cantora mineira Urias, que estreou seu primeiro EP na reta final de 2019.

por Marie Declercq; fotos por Ênio Cesar
24 Outubro 2019, 6:01pm

Fotos por Ênio Cesar/VICE.

“Muito prazer, eu sou o oitavo pecado capital” - como um dos anúncios do apocalipse, vestida com uma roupa de correntes e caminhando com um dobermann na coleira, a cantora Urias se apresenta ao mundo nos primeiros segundos de “Diaba”, clipe do seu EP de estreia. Ao vivo, sentada para nossa primeira entrevista, Urias mantém o estilo e pose poderosa, adornada com garras afiadas, correntes de ouro e uma lente de contato diferente em cada olho, inventando uma heterocromia mas, contrastando com sua imagem, deixa escapar uma voz doce e quase calma. Quando perguntei se é tímida, Urias de imediato avisou que não. “Falo baixo porque tenho medo de ser inconveniente. Quando vejo já tô militando,” disse rindo.

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Fotos por Ênio Cesar/VICE.

Nascida e criada em Uberlândia (MG), Urias tem 25 anos e uma grande experiência com moda, arte e o backstage. Mais nova, arriscou por uma época ser uma drag queen alienígena, com uma cabeça gigante que tinha com a ajuda de uma estrutura e uma boa peruca em cima. No entanto, não era bem isso que queria. “Não me procurem nessa fase,” afirma durante uma entrevista para um canal de Youtube.

A fase drag, como a própria deixa bem claro, ela largou “faz um bom tempo” e mantém essa distância apostando em maquiagens mais neutras e naturais, evidenciando seu rosto angelical. Durante esse período, foi se descobrindo como mulher trans. “Passei pelos problemas que todas as pessoas LGBTQ passaram ao crescer,” conta. “Hoje em dia, olho pra trás e vejo que não cresci como uma gay afeminada, mas sim como uma mulher trans que ainda não tinha se descoberto. E é meio que colocado como natural você ser LGBTQ e sofrer. Por isso, me anestesiava das coisas ruins para não ficar muito triste, mas sempre tive amigos que deram força.”

Foto por Ênio Cesar/VICE.

Fotos por Ênio Cesar/VICE.

Dona de traços delicados, corpo esguio e lábios carnudos, Urias também trabalhou como modelo de passarela, participando de diversos SPFW e desfiles da Casa dos Criadores. Além disso, passou um bom tempo na estrada trabalhando para sua amiga de longa data Pabllo Vittar como assistente pessoal. No meio tempo, viu que a carreira de modelo talvez não fosse um investimento muito grande e começou a gravar covers despretensiosamente.

"O primeiro cover foi da música ‘Meu mundo é o barro’ do grupo O Rappa, foi uma coisa feita sem compromisso e deu certo. Não tinha como produzir uma música minha, não conhecia ninguém nesse meio e não botava muita fé em mim enquanto compositora, além do medo que tinha de passar vergonha,” conta.

Os covers deram certo e Urias começou a atrair muita atenção e curiosidade, até chegar em um ponto em os produtores musicais Rodrigo Gorky e Arthur Gomes, conhecido como Maffalda (que estão por trás de diversos hits pops nacionais, inclusive de Vittar) perguntaram se Urias gostaria de ser abraçada por eles. Foi assim que começou o processo de criação da sua carreira, e uma nova fase para a sua vida.

Foi um longo período para Urias conseguir ter confiança em si mesma e acreditar na sua capacidade como compositora e na sua voz. Um dos maiores desejos da artista mineira era lançar algo estranho, fugindo um pouco do que está sendo feito atualmente no mercado musical. “E muita gente me ajudou, inclusive no próprio clipe de “Diaba”. O Hodari me ajudou muito na letra, foi por causa dele que passei a entender e verdade como é escrever uma composição.”

A história por trás de “Diaba” foi criação de Urias, trabalhada em conjunto com Gorky e Maffalda nos arranjos instrumentais. Segundo Urias, ela imaginou a vinda do Diabo para a Terra, assumindo o corpo de uma mulher trans. No clipe, Urias tem apenas a companhia de suas companheiras de calçada até chegar em um boteco onde sua presença física causa uma comoção interminável. Os homens do bar querem tocá-la, seja para destruir sua figura mignon ou a possuir. “Queria ser a pessoa que causa um pouco de medo nas pessoas, pelo menos uma vez na vida,” explica Urias sobre a história contada no clipe. “O que eu quis dizer é que o corpo trans mexe com o sentimento de desejo, mas também toca num lugar de muita raiva nas pessoas que ainda não entendi.”

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Fotos por Ênio Cesar/VICE.

Há muitos paralelos possíveis de encontrar neste lugar de confusão e raiva que Urias menciona sobre o corpo trans. Um deles aconteceu três anos atrás e a quilômetros de distância de Uberlândia, quando Rosa Luz, artista, rapper e youtuber, documentou a reação de transeuntes quando ousou em exibir seu corpo em público na performance "Barraco da Rosa". Nua da cintura pra cima, Rosa parou em uma escadaria de grande circulação na Rodoviária de Brasília, exposta para mais diversas reações. Há desde o homem que apalpou seus seios e depois a repreendeu, a mulher que passou longos minutos pregando sobre o perigo de ser LGBT perante Deus enquanto outro homem falava que ela é linda até as pessoas que prestavam apoio e a abraçavam. Assim como Urias, Luz expõe o que é existir em um corpo trans na sociedade brasileira.

Após Urias se apresentar como oitavo pecado capital, ela continua no primeiro verso: ''Não consegue ver que da sua família eu sou pilar principal?". Segundo ela, a frase veio após uma conversa com a rapper Linn da Quebrada sobre os pilares escondidos da família brasileira serem o álcool e a travesti.

“Diaba” abre o EP e dá a letra para o ouvinte que Urias gosta de explorar bastante a música eletrônica. Por mais que a club music, especialmente as mais temporais dos anos 90 e 00, sejam ritmos bastante comuns usados por artistas LGBTQ, a voz grossa e agressiva de Urias ao cantar traz uma boa bizarrice para sua estreia. Nas faixas “Rasga” e “Frita”, a cantora lembra uma Mykki Blanco no pico da fritação bate cabelo ou uma Big Freedia (um pouco) mais contida.

A moda segue sendo um elemento forte na sua vida para buscar referências não convencionais. Muito disso veio de Lady Gaga. “Sou uma Little Monster. (risos) Era mais antes, mas depois que a Gaga começou a passar por vários problemas como a fibromialgia, decidi que não cobraria ela tanto assim. Porque o fã espera muito que o artista entregue as coisas, que seja o melhor, que a música tem que ser perfeita, o clipe tem que ter conceito. Isso é uma das coisas que tô passando agora com minha carreira. Acho que não podemos invalidar o artista e temos deixar ele trabalhar,” diz.

Urias pretende agora se dedicar para lançar seu primeiro álbum e fazer shows pelo país. A cantora lança sua carreira numa época importante em que artistas antes ignorados estão remodelando a Música Popular Brasileira e influenciando no que toca nas rádios e nas ruas. Ao longo do nosso papo, Urias citou com carinho artistas como Linn da Quebrada, Liniker, sua amiga Pabllo Vittar e a Mulher Pepita, funkeira carioca. “Nós temos que agradecer por viver na mesma época que a Pepita,” exalta.

“Acho que estamos recebendo um outro tipo de respeito por nosso trabalho. Quanto mais reprimido é essa comunidade artisticamente, tudo fica mais intenso. Sempre foi assim. Quanto mais reprimido, mas forte seremos artisticamente. E nós temos muito o que aprender ainda,” conta.

O EP de estreia da Urias está disponível em todas as plataformas.

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