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Estudo com secreção de sapo ajuda a entender efeitos positivos de alucinógenos no cérebro

Pesquisadores brasileiros descobrem por que tantas pesquisas apontam psicodélicos como bons aliados em terapias.

por Brunno Marchetti
30 Outubro 2017, 2:13pm

Crédito: Lake Li Sun/flickr

Se você nos lê, deve saber que, de uns anos para cá, cada vez mais estudos mostram que substâncias psicodélicas podem esconder efeitos terapêuticos. O LSD, se aplicado em situações específicas, é capaz de reduzir medo e ansiedade. O ecstasy tem potencial no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático. E a ayahuasca está sendo usada como arma contra transtornos alimentares e também contra alcoolismo e depressão. A lista é longa.

Com as descobertas, a principal pergunta dos cientistas — e de muitos de nós — se tornou por que os psicodélicos apresentam esses efeitos positivos. A mais recente descoberta, e que ajuda a responder essa questão, são quais são as alterações que causam nas proteínas do cérebro humano.

Para a realização do estudo, publicado no último dia 9 de outubro no periódico Scientific Reports, da Nature, foram utilizados organoides cerebrais humanos, também conhecidos como mínicérebros. Segundo explicou um dos autores do estudo, Stevens Rehen — diretor de pesquisa do Instituto D'Or e professor do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, no Rio — os organoides foram utilizados como modelo vivo do cérebro e as análises desses combinados foram combinadas com outros métodos como a cromatografia líquida — que consiste em separar as substâncias em solução —, espectrometria de massa — análise da massa das moléculas —, além de simulações computacionais. Com esses métodos foi possível "destrinchar, pela primeira vez, quais proteínas estão envolvidas nos efeitos de um enteógeno sobre células do cérebro humano".

Os organoides analisados foram expostos ao 5-metoxi-N,N-dimetiltriptamina (5-MeO-DMT). Trata-se de substância enteógena análoga ao DMT, utilizado no Ayahuasca. Ela é secretada pelo sapo Incilius alvarius encontrado na região fronteiriça entre EUA e México e utilizado em cerimônias da população indígena local.

A pesquisa revelou que das 6.728 proteínas identificadas no cérebro humano, ao todo 934 expressaram algum tipo de reação. Segundo Rehen, várias dessas proteínas estão associadas a alterações de neuroplasticidade — capacidade do cérebro reorganizar suas conexões frente a estímulos — e consolidação de memória.

Uma vez identificadas as proteínas, "foram mapeadas as vias metabólicas sensíveis à substância, por exemplo associadas a efeitos anti-inflamatórios e potencial de longa duração, ou seja, o fortalecimento de sinapses (comunicação entre neurônios), um fenômeno associado à formação de memórias", explicou o pesquisador.

Os resultados analisados ajudam a compreender melhor o funcionamento dos enteógenos, abrindo as portas para desenvolvimento de medicamentos contra problemas psiquiátricos como depressão, estresse pós-traumático e dependência química. Segundo apontou o autor do estudo, já existem movimentos para a realização de testes clínicos em laboratórios nos EUA e Europa.

A publicação ajuda a compor um quadro que, segundo apontou Rehen, os psicodélicos voltaram a ser estudado mais a fundo. Dentre algumas das descobertas mais recentes tivemos as primeiras imagens do cérebro sob efeito de LSD. "No ano passado, mostramos efeitos neurogênicos da harmina, o que indica as bases celulares para o efeito anti-depressivo da Ayahuasca descrito originalmente em pacientes pelo time do Instituto do Cérebro da UFRN", comentou.

Alguns pesquisadores e o próprio MAPS — Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos, sigla em inglês — estão chamando o período de "Renascimento Psicodélico". E com esse novo florescimento científico, algumas descobertas e possibilidades de novas terapias começam a se delinear em um horizonte não muito distante.

Para os próximos passos da pesquisa, Rehen afirma que serão analisados os efeitos de outros enteógenos — entre esses o DMT —, apontando quais proteínas são alteradas em cada caso. "Vamos estudar, com as mesmas técnicas que usamos neste trabalho científico, as alterações neurobiológicas associadas a outros psicodélicos", concluiu.

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