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Tony Bizarro fala sobre 'Nesse Inverno', disco clássico de 1977

Trocamos uma ideia sobre os bastidores do 'Nesse Inverno', as parcerias, o rolê doidão dos anos 1970 e até sobre o efeito transante da capa do disco.

por Peu Araújo; fotos por Felipe Larozza
10 Março 2015, 2:21pm

Sabe aquele disco foda que pouca gente conhece? O Noisey decidiu fazer um garimpo e mostrar todo mês a história de uma dessas raridades. Nesta edição destrinchamos o clássico Nesse Inverno , do paulistano Tony Bizarro. Lançado em 1977, é o primeiro disco solo do cantor, músico e compositor.

Quando Tony Bizarro abre a garganta em "Vai com Deus", você de cara se liga na potência vocal e na capacidade do cantor de fazer grandes sonzeras soul. Bizarro nasceu na Mooca, de família italiana. E sim, Bizarro é seu sobrenome. "Nós éramos Bizarre quando minha família chegou ao Brasil. Na imigração, arredondaram pra O. Aí virou Bizarro", explica. Aos 62 anos, mora numa casa simples no bairro do Limão, Zona Norte de São Paulo, tem quatro filhos, foi dono de quatro pizzarias e tem três discos solo. O segundo é Nesse Inverno, um dos álbuns essenciais para você entender um pouco esse negócio de soul music brasileira.

O disco está escondido por aí e é vendido por algumas centenas de reais. Mas a dica é: se encontrar, compre logo. Por causa do incêndio na CBS, sua gravadora, os originais torraram e não há, pelo menos num futuro próximo, a menor chance de uma remasterização decente. "É preciso respeitar o cara que compra o disco. Não ia ficar bom".

Atualmente ele anda meio paradão: fez uma cirurgia delicada no coração e não sobe ao palco desde o ano passado. "Meu coração tá pendurado. Na verdade eu tenho medo de acontecer o que aconteceu com o Tim", diz, com pesar, referindo-se a Tim Maia, que morreu após passar mal durante uma apresentação. "Por mais que você fale, pinta uma emoção na hora e eu não sei se hoje eu conseguiria fazer um show inteiro. Começar você começa, mas do meio pro final..."

Trocamos uma ideia bem massa com Tony sobre os bastidores do álbum, as parcerias, o rolê doidão dos anos 1970 e até sobre vaselina na lente da câmera para dar um efeito transante no retrato.

Vai ouvindo o disco aí enquanto lê a entrevista:

Noisey: A Mooca é um bairro tradicionalmente italiano. Suas primeiras lembranças musicais trazem um pouco disso?
Tony Bizarro: Comecei cantando música italiana. Quando eu era pequenininho cantava "La Strada Del Bosco", um clássico do cancioneiro italiano. Aí depois eu cresci e fui fazer parte daquele programa Reino da Juventude, do Antonio Aguillar, e aí tinha o Sérgio Reis e eu cantando música italiana.


Então o italiano foi uma língua natural pra você.
Sim, em casa se falava meio italiano e meio português. Meus avós [eram] italianos e não falavam português. Tudo mezzo mezzo. O que eles falavam em italiano eu já ouvia traduzindo. Era normal. Foi legal que ganhei uma segunda língua de grátis.

Você teve outras profissões antes da música?
Meu pai teve casa de frios. Então é aquele negócio cortando mortadela, cortando presunto, cortando queijo e servindo o balcão. E saindo pra noite.

Onde você ia?
Ia para a Cave Club. Era uma boate de clássicos já na época. A gente curtia Supremes, Marvin Gaye, que já eram os grandes nomes da música negra. Uma vez por mês tinha um show nosso lá e a gente sempre levava um convidado. Depois abriu a boate Playboy, que tinha a mesma conotação, na Rua Augusta.

Por que você ficou tanto tempo sem gravar? Foram seis anos desde o seu disco Tony & Frankye para o Nesse Inverno , o que rolou nesse tempo?
Eu era produtor musical da Polydor. Produzi Odair José, Diana, Balthazar, César Sampaio, Banda do Canecão, Banda do Povo.

E quando você decidiu que era a hora de lançar um disco solo?
Então, mesmo fazendo produção eu participava dos vocais. Aí um dia eu tava precisando de ajuda e chamei o Jairo [Pires], que era meu gerente. Ele fez a direção pra mim, porque eu ia participar nos vocais. Ele dirigiu e depois me falou: "Pô, bicho. Tu tá cantando pra caramba". E ele saiu da Polydor e foi pra CBS. Aí um dia eu tô em casa e recebo um telefonema já do Raul. Raulzito me ligando dizendo que tinha conversado com o Jairo e que eu cantava muito, e se eu não queria fazer um disco.


Era uma demanda do mercado?
Também. A Polydor tinha o Tim, a RCA tinha o Cassiano, e eles estavam querendo alguém. Aí fui lá conversar e a proposta era muito boa. Fizeram o compacto rápido pra botar na rua, e na sequência o LP.

E quais eram suas referências na época?
Four Tops, Marvin Gaye, Supremes, tudo que era a black music pura mesmo. O que a gente comprava de disco mesmo era isso.

Esse é um dos discos mais importantes da soul music brasileira...
É um deles. Tem o do Cassiano também, tem mais um monte.

Mas para você entender um pouco a soul music brasileira é fundamental conhecer esse álbum. Como você conseguiu juntar no álbum Lincoln Olivetti, Waltel Blanco, Robson Jorge, Mamão, Rosa Maria, Paulo Moura, o Alma Brasileira?
Tudo amigo. Aquele negócio, você fazendo um tipo de música séria, você consegue um certo respeito e com esse respeito você consegue se juntar a pessoas respeitadas. É uma coisa muito louca. Uma coisa leva outra. O fulano leva ao sicrano. O Paulo Moura me levou a conhecer o Wagner Tiso, o Wagner Tiso me levou a conhecer o Robertinho Batera. Um vai apresentando para o outro. "Pô, vamo tocar um violão." E a gente toca de um jeito diferente. O pessoal tocava de palheta e a gente tocava já puxando, sempre com os bordões fazendo a linha de baixo forte.

E como era isso?
Hoje é meio que normal, mas na época era meio diferente. Era tudo muito novo, não existia uma escola. Surgiu assim, aqui em São Paulo na boate Cave a gente conheceu o Tim [Maia], e o Tim chegou tocando assim, a gente aprendeu a tocar assim. E aquele negócio, a linha de baixo já vinha construída com a harmonia. Então era uma coisa muito louca, para o arranjador era uma baba. Você já passava a linha de baixo que você queria todinha pro cara. E para a gente era muito bom, porque da maneira que você fazia, o que você tocava era o que você ouvia no playback. Era cômodo para quem fazia e para a gente, porque já sabíamos o que ia acontecer.

Você já tinha as dez músicas do disco separadas? Já sabia o que você iria gravar?
Não tinha nada, a gente era doidão. Fazia música à noite, botava a letra de madrugada e ia gravar de manhã. Foi tudo feito na perna. Muita música terminou no estúdio em cima da perna. Foi um disco de doidão feito por doidão.



E você estava no Rio há quanto tempo?
Eu já estava desde os 14 anos. Trabalhei com o Oscarito muito tempo. Eu era mais bonitinho então era galã da companhia dos Oscarito. Era o galã mais novo do Brasil. Eu era grandão, tinha 1,80 de altura, mas era garoto. Tive que pedir autorização para os meus pais para poder viajar. O Oscarito era meu tutor, ele e a Dona Margot. Aí saí viajando pelo Brasil afora.

E como você foi parar na companhia dele?
Eu era figurante da TV Excelsior. E aí pintou um papo de que ele tava fazendo um teste. Ia precisar de dois atores na companhia dele. Ele tava em São Paulo e eu fui lá. Fiz o teste, passei e quando ele foi embora pro Rio já me carregou pra morar na casa dele. Fiquei morando lá uns dois anos. A gente viajou pelo interior de São Paulo, fizemos uma temporada passando por várias cidades. Jundiaí, Piracicaba, Campinas. Aí voltamos pro Rio de novo, voltei pra casa dele. Daí surgiu o convite da TV Excelsior para fazer tele-teatro. A companhia ia parar mesmo, porque o Oscarito tava doente.

Você viveu uma fase bem lisérgica e isso está bem presente na sua música. Você vivia doidão?
24 horas por dia doidão. Mas quando você é doidão assim é diferente. Eu vivia uma vida normal. Almoçava, jantava, tocava. Tudo normal, só que sempre fzzzzzzzzz, tssssssssssss. De vez em quando via umas coisas. Opa, que que é isso aqui? Mas era uma coisa super controlada. é diferente de um cara que toma um lisérgico na cidade com toda aquela paranoia de polícia, aí o cara entra numa profunda. Lá não, você ficava só na boa mesmo. Pô, cê dava um acorde cheio no violão, era uma sonoridade absurda. Tudo fica mais aguçado, esse que é o perigo do tal do lisérgico. A pessoa que precisa apurar o sentido ele apura mesmo. E aí cê quer mais. E aí chega o Sebastião, o Tim.

Quando você conheceu ele?
1900 e bolinha. Logo que ele voltou dos Estados Unidos e a gente se cruzou no Cave. Acabamos tocando juntos, a gente percebeu que cantava meio que a mesma coisa e a gente colou. Sempre nos frequentamos, ele ia almoçar na casa da minha mãe aqui na Mooca, a gente passava a tarde junto tocando. Eu aprendi muito de música americana, ele aprendeu muito de música italiana e houve uma troca de ensinamentos; foi legal.

Como era uma balada com o Tim Maia?
O Tim era uma pessoa muito instável. Do mesmo jeito que ele te tratava maravilhosamente bem hoje, amanhã perigava dele te dar um pé na bunda. Era uma pessoa difícil, mas a maior parte do tempo ele tava na boa. A gente morava na Djalma Ulrich e ele na Sá Ferreira [em Copacabana]. Ele vivia mais na minha casa do que na dele. A gente tocava muito junto, cantava muito junto. Era todo mundo amarradão em vocal. Era aquele negócio, com isso aí veio o Cassiano, o Amaro e o Camarão. Aí juntou aquele negócio de de repente seis ou sete vozes. Era de chorar.

E você lembra da primeira experiência que teve com LSD?
Ixi, foram tantas. A gente morava num sítio em Imbariê (Duque de Caxias), e quem frequentava esse sítio? Cassiano, Amaro e Camarão dos Diagonais, o Tim, Paulinho Motoca, o China que é um cara que hoje vive na França. E tinha um casal. Anita e… o João. Eles tinham uma loja de roupa no Catete, mas eram doidão. Eles que apareceram com os pinos lá. A gente não tinha aquele "será?". Será nada. Dá aqui. Quando começou a bater era uma maravilha. A gente tava no meio do mato, não tinha repressão nenhuma. Aquilo lá é complicado quando você tem repressão, agora quando tá no meio do mato, entre amigos, não tem o menor perigo de nada. Você se solta e é maravilhoso. A gente fez cada viagem. Aí começou a pintar um atrás do outro. Você ser meio famoso na época é um negócio muito louco. Aparece tudo, você não sabe de onde, mas aparece. Alguém leva pra você. Aí pintou os Golden Sunshine, os pontinhos e a gente ia experimentando.

Você tem uma das vozes mais reconhecíveis da soul music brasileira.
É mesmo? É porque é solista, você acaba marcando.

Pra mim marca muito.
É bom saber.

Tem duas personagens que são muito presentes no "Nesse Inverno", a Tulia e a Yara. Metade das músicas são delas. Quem são elas?
Isso é armação. Yara é minha irmã e a Tulia é a irmã do Carlos Lemos. Era só pra não ficar tudo igual. Tony Bizarro e Carlos Lemos, Tony Bizarro e Carlos Lemos. Então pra não ficar uma coisa piegas colocamos outros nomes.

E como que surgiu a ideia do " Não Pode "?
Ah, porque nada podia, né? Você queria fazer uma coisa e não pode. Queria fazer não sei o quê lá e não pode. Queria um empréstimo na gravadora, não pode. Aí a gente acabou fazendo a música.

E a história por trás de " Não Vai Mudar ", qual é?
É pela maneira que a gente era. Não adianta que eu não vou mudar, mas a gente não podia falar isso escrachado. Então a gente fez uma corcova. Falamos como se fosse uma história de amor, mas na verdade a gente queria dizer outra coisa.

"Adeus Amigo Vagabundo " foi feita pro Brian Jones. Por quê?
Porque ele era doidão, morreu doidão. Essa é de 1900 e bolinha.

Os Incríveis gravaram antes ou depois de vocês?
Foi depois.

E na sequência tem " Vai Com Deus ", que também fala de despedida. Que brisa era essa que vocês estavam?
Tem um negócio muito louco que é você encaixar a palavra dentro de uma fonética. Então tem muita coisa aí que surgiu mais pela fonética do que pelo tema exatamente. Era uma coisa que surtia efeito quando você ia emitir. O negócio da gente era que o som ficasse legal.

E foi coincidência as duas estarem na sequência?
Foi. Quando você monta um LP tem que ter uma música lenta, uma música média e uma música rápida ou uma média e uma rápida. Você nunca coloca duas rápidas ou duas lentas coladas, porque fica chato o disco. Na hora de montar o disco foi só uma questão de "deu certo".

E você sofreu com a repressão?
Não. Eu servi Exército, fui polícia do Exército. Eu tinha uma carteira boa. Nenhum de nós teve problema, quer dizer, o Tim teve problema. Mas não era repressão por causa de pensamento político, porque a gente não tratava disso. Nenhum de nós tratava de qualquer assunto que se relacionava à política e sim à vida e ao comportamento.

E o disco saiu do jeito que você esperava?
Foi. Acho que até melhor.

E como você definiria ele?
Um sonho alcançado.

E como foi o trampo do Lincoln Olivetti e do Waltel Blanco ?
O Waltel Blanco captou. Ele não gastou ideia nenhuma dele. Ele captava a nossa ideia e botava no papel, porque a gente não sabia escrever. Foi captando e colocando no papel.

E o Lincoln?
Trabalhou muito, né? Ele era muito bom. Ele fazia o trabalho dele muito bem. Além do talento dele, ele tinha muito estudo, ele estudou em Berkeley. Ele tinha muita capacidade fora o talento indiscutível. A gente é parceiro em uma pá de música. Compor com ele é uma facilidade. Ele botava aqueles dez dedos [no piano] e já te dava o caminho pra você fazer a melodia.

E teve no disco também o Robson Jorge, que era um dos caras mais picas da época.
É o cara mais criativo que eu conheci na minha vida. O cara tocava um violão, tocava um piano. Nunca aprendeu nada, meu. Nunca esteve num conservatório. Ele tocava o piano tão bem que o Lincoln deixava ele tocar. E as composições dele eram super harmoniosas. Um gênio.

E essa capa. Como rolou?
Na época foi punk pra caramba. Era contra todos os princípios daquela época. Tava num navio, um calor do caramba. Na verdade é um cemitério de navio e esse era um esqueleto todo de ferro. Um sol pra cada um e eu não aguentava ficar com a blusa fechada. Eu abri e o fotógrafo falou: "Fique aí", e pá pá pá pá.

E esse efeito, como era?
Ele passava vaselina na lente.

E depois do disco. Qual foi o papo?
A partir daí eu fiquei produzindo. É o seguinte, bicho. Esse negócio de vida de cantor… eu não nasci pra ser artista. Eu nasci pra ficar por trás. Meu negócio é criar, é pegar a música pura e sentar com o arranjador, trocar ideia e vestir aquela coisa. Eu cantei porque sei lá. Se você perguntar: "Você quis ser cantor?" Não. "Batalhou pra ser cantor?" Não. Perseguir o sucesso é complicado. Quando ele ter que vir é uma coisa divina.

E das pessoas que você produziu, que histórias você tem pra contar?
Produzir o Cassiano é uma epopeia. Ele dá três passos e já mudou de ideia. O coitado do Miguel Cidras fez os arranjos. Tanto que ele não pegou o Waltel nem o Lincoln. Ninguém ia aturar ele. Ele passava uma ideia aqui agora, dava três passos e não, não, não. Não é bem assim. E o maestro pira, né? Miguel foi o único que se prontificou a ter paciência, mas antes disso rolou feijoada na minha casa, altos almoços em churrascaria. Você tinha que ir adoçando a boca do cara para conseguir chegar no final do disco. E a gente chegou dentro do estúdio faltando duas músicas pra terminar. Aí o Miguel falou: "Deixa comigo que é comigo mesmo". Tacou tinta, o Cassiano aprovou e foi.

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