Semana do Sexo

Para educadoras, os jovens do Brasil não têm educação sexual

Escola e família ainda não conseguem sanar dúvidas básicas de gravidez e contágio de ISTs.

por Bruno Costa
04 Setembro 2018, 10:00am

Foto: Romi Yusardi / Unsplash

Educação sexual no Brasil é altamente lembrada ou classificada como "aquela aula especial de reprodução" que rola no Ensino Médio. Mesmo que o acesso à informação esteja nas palmas das mãos, ainda nos indagamos: como é que os jovens brasileiros têm sanado suas dúvidas quando o assunto é sexo?

Na última Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, feita em 2015 e publicada em 2016, o governo federal apontou apenas três questionamentos para os estudantes do fundamental e médio quando o assunto é saúde sexual: se recebem orientação de prevenção da gravidez, sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e AIDS e se conseguem preservativos gratuitamente.

"A pesquisa é um documento do governo, onde ele mesmo aponta que todas as dúvidas que os jovens têm, como beijar, como namorar, como ficar, como é o prazer, não são respondidas, de maneira geral", explica Graça Tessarioli, mestre em educação e diretora da Associação Brasileira dos Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual (ABRASEX).

Contudo, mesmo os alunos não tendo aula de educação sexual na grade curricular, a quem fica o encargo de falar sobre prevenção, como os questionamentos levantados acima? Segundo Graça, geralmente é o professor de biologia quem fala de gravidez e de ISTs em suas aulas.

Para a professora, falar de prevenção é abordar o viés do medo, em que o jovem pode acabar não querendo fazer sexo por se sentir amedrontado. "Os jovens têm dúvida, sim, e querem saber. Precisam de um olhar acolhedor, de um olhar com afeto. E não de um olhar que fale só da prevenção", afirma.

Graça relembra que no histórico curricular nacional, havia um livro para abordar orientação sexual na escola, em termos de Brasil, mas que de certa maneira, acabou não funcionando. "Hoje, temos o que chamamos de Orientações Técnicas de Sexualidade para o Cenário Brasileiro que é da UNESCO, um documento que fala para trabalhar a sexualidade desde os cinco anos."

Essas orientações abordam temas como relacionamentos, tipos de família, valores, atitude, comportamento humano, comportamento sexual desde a educação infantil e que cabe às instituições de ensino ou professores tratarem o assunto em aula.

Educação sexual entre pais e filhos

E como fica a situação do jovem em tratar os assuntos sobre sexo dentro de casa? Para Joana Moraes, educadora e especialista em sexualidade humana, as famílias têm grande dificuldade em ouvir o jovem que quer falar de afetividade e suas relações. "Eles estão só experimentando outras possibilidades e não necessariamente isso vai interferir na orientação sexual de cada um. E os pais têm muito medo disso", explica.

Majoritariamente, as conversas de sexualidade abordadas na escola ou em casa são voltadas às meninas, como menstruação, métodos contraceptivos e gravidez. "Acho fundamental que deva ser ensinado para o menino que também, a partir do momento que ele tem a primeira ejaculação ele pode se tornar pai. Faz uma falta tremenda no papel da masculinidade, a questão do pai, o papel do homem", pontua Graça Margareth.

A educadora acredita que sexualidade não começa só na adolescência. "A sexualidade começa desde o momento do nascimento", reforça.

"Por que a gente não ensina a 'parte de baixo', como dizem? É algo natural, normal, e faz parte de uma fase, que vai passar. É conhecer o corpo", explica Graça, que entende como necessário a questão da conversa sobre desenvolvimento da sexualidade com a criança até a fase em que os hormônios começam a dar seus primeiros sinais. "É preciso conversar com a criança para ela entender o que está acontecendo", aconselha.

Meios de acesso à informação e consequências

E qual seria o papel de quem fornece informação? Graça acredita que a mídia tem diminuído a produção de conteúdos e programas sobre educação sexual voltado ao jovem. "Hoje você vê no Altas Horas [os jovens] só fazendo algumas perguntas. Não tem nada que trabalha essas questões", destaca.

A internet é uma fonte infinita de informação. Mas é nela também em que podem aparecer as armadilhas. "A internet ainda vaza foto nu de colega fazendo sexo e manda pro outro. Existe um monte de jovens tomando o 'azulzinho' para não brochar. Há um desserviço que vem por conta da falta de educação sexual", completa a diretora da ABRASEX.

Já a educadora Joana recorda que cada vez mais os jovens têm assistido pornô e levado as cenas para a realidade. "Precisamos educar para isso, porque o filme pornô tem o seu papel, que é importante. Mas o jovem tem que ter um preparo para ver o filme pornô e não achar que aquilo vai ser real, porque ali são atores que estão encenando", enfatiza.

Por fim, Graça questiona: "Quem é responsável pela sexualidade?", e prontamente afirma que cabe a família, a escola e a mídia. "Se a família e a escola soubessem olhar para mídia com olhar crítico e levar para a sala de aula, com uma reflexão e discussão, nós minimizaríamos muitos problemas", finaliza.

Num país onde políticas conservadoras reduziram os programas de prevenção nos últimos anos, teve como consequência o aumento de jovens infectados por HIV/AIDS e surto de epidemia de sífilis. Ao que tudo indica, decorrente também da ausência do debate sobre educação e saúde sexual.

Siga o Bruno Costa no Twitter.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.