Noisey

O Hodari é inevitavelmente artista

O brasiliense, cujo hit "Teu Popô" ganhou um remix pela série Poesia Acústica, viu a música atravessar tudo o que ele achou que sua vida seria.

por Amanda Cavalcanti; fotos por Larissa Zaidan
29 Julho 2018, 6:04pm

Fotos: Larissa Zaidan/VICE

Em novembro de 2017, Hodari passaria um dia em São Paulo entre uma viagem de duas semanas para a Argentina e a gravação de um clipe para o seu na época ainda não lançado single “Netflix”, que seria em Salvador, na Bahia. O dia em questão era a exata data do Maze Fest, evento que rolou no Audio Club em que o grande headliner seria o rapper Pusha T, parte do catálogo da G.O.O.D Music, selo do Kanye West dentro da megagravadora Universal, e a abertura ficaria por conta dos coletivos Ceia Ent e Pirâmide Perdida. Por entre a galera assistindo aos shows, Hodari avistou o rapper Don L.

“Eu ouvi Don L em momentos muito fortes da minha vida. No meu estúdio de tatuagem em Brasília a galera adorava, minha ex-namorada sempre colocava pra gente ouvir”, me fala o cantor em entrevista meses depois. Deixando de lado o medo de ser tiete, ele chegou no rapper cearense e pediu pra tirar uma foto. “Falei que era fã pra caralho, ele topou na hora.”

O encontro oficial aconteceu só no ano seguinte. Em julho de 2018, Hodari foi convidado por Paulo Alvarez, da Pineapple Supply, a participar de uma nova edição de sua famigerada série Poesia Acústica junto a Don, Luccas Carlos, Kayuá, Chris MC, Ducon e Maria. Mas não seria uma singela participação: o novo vídeo, lançado no último sábado (28), é um remix do primeiro hit de Hodari, “Teu Popô”.

Poesia Acústica #5 -"Teu Popô Remix" - Hodari | Ducon | Chris | Kayuá | Don L | Luccas Carlos | Maria

Todos eram novidade pra Hodari na gravação do vídeo na casa da Pineapple no Recreio, zona oeste do Rio de Janeiro – onde também são gravados a série de perfis e o Poetas no Topo –, que dizia conhecer pessoalmente, até então, apenas o Luccas Carlos, de quem se declara “fã desde criança” e apresentou seu verso sem camisa, de chapéu e empunhando sua guitarra, no maior estilo Andre 3000.

Hodari tinha há pouco voltado do Rio quando me encontrou na Liberdade, no centro de São Paulo, para a nossa entrevista – seu ônibus havia estacionado no Terminal Tietê às 14 horas, ele passou por mim de bicicleta às 16h30. Marcamos a entrevista, por sorte, no mesmo bairro em que o brasiliense mora há pouco mais de um mês, num apartamento em que divide com uma amiga. Apesar de contar já ter achado quatro ou cinco brechós perto de sua casa andando, ele diz ainda não estar totalmente habituado à metrópole. “Ainda estou entendendo a cidade. A primeira semana foi bem bad. Comprei minha cama agora. Na primeira semana estava dormindo com dois casacos de moletom e duas calças, porque não tinha coberta.”

Foto: Larissa Zaidan/VICE

O nome do cantor começou a subir em popularidade por volta de fevereiro, quando “Teu Popô” e todo seu suingue ganharam força durante o Carnaval. O sucesso da faixa triste sobre um término de relacionamento, acontecer durante o período mais festivo do ano pode parecer esquisito, mas faz sentido após o primeiro play, “Teu Popô” é tão dramática quanto sincera e o clima construído pela linha de guitarra que Hodari pegou emprestada do funk norte-americano refletem perfeitamente aquele fim de noite em que você, já bêbado e suado, encara o objeto de sua afeição tomando que coragem de chamá-lo para aquele último drinque.

Hodari - "Teu popô"

O alcance do hit que fez o nome de Hodari de repente surgir em playlists Brasil afora – e figurar na nossa reportagem sobre nomes e sons do novo R&B brasileiro, o R&B chavoso – e que, hoje, conta com mais de um milhão de visualizações no YouTube e audições no Spotify, foi uma surpresa pra todos. Com exceção, talvez, dele mesmo. “Quando a gente tava gravando a música, eu sabia que ia dar certo. Achei que a galera já iria hypar. Mas foi um sucesso bem orgânico. A massa abraçou o som e foi compartilhando.”

A trajetória do brasiliense de 27 anos na música começou no primeiro ano do Ensino Médio, quando ele assistiu a uma banda da sua cidade tocando no pátio de sua escola no intervalo das aulas. Na época, Hodari andava com dois metaleiros virtuosos na guitarra e começou a ter aulas com a dupla. Naquele mesmo ano, formou sua primeira banda, a dupla de emocore Skarto, cujo nome Hodari tem tatuado na costela esquerda e primeiro single, “Teu Lindo Sol”, foi um pequeno hit em Brasília. Depois do fim da banda, que durou de 2007 a 2011, ele também tocou guitarra e acordeon na banda Conversa e guitarra, acordeon e sintetizador na banda Lusco-Fusca.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Mas, até então, viver de música não passava de uma ideia abstrata. Por volta de 2015, Hodari terminou um relacionamento duradouro e sua inspiração para compôr começou a florescer. “Até hoje ela é minha amiga, parceirassa da minha vida. E continua sendo minha musa inspiradora,” fala sobre sua ex-namorada, para quem “Teu Popô” e “Netflix” foram escritas.

A oportunidade de gravar esses sons surgiu pelo fotógrafo Fernando Rodrigues, que é amigo de Josef, produtor das duas faixas, e coincidiu com uma época em que Hodari estava ouvindo The Weeknd e PARTYNEXTDOOR a rodo, daí a sonoridade R&B. Veio o sucesso de “Teu Popô” e, com ele, uma chance de Hodari repensar seu futuro.

Os planos de Hodari foram muitos antes da música se colocar à frente de tudo. Enquanto se envolvia com a cena hardcore e emocore de Brasília, ainda novo, ele descobriu a tatuagem como uma paixão – e isso se intensificou quando ele conheceu o trabalho do veterano Manuel Neto, tatuador e vocalista de uma banda da cidade. “Na minha cabeça rolou uma conexão muito grande entre tatuagem e música. Todos os manos mais velhos que tocavam na minha cidade já eram fechadões de tattoo, e quando conheci o Manuel foi quando eu conheci a ‘fonte’, de onde vinham todas essas tattoos”, fala.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

A primeira tatuagem do garoto foi com ele: nos pés, os nomes da irmã e da mãe, e a frase “correr atrás, chegar na frente.” Hoje, ele conta que já perdeu a conta de quantas tem. Começou a tatuar ainda no Ensino Médio e, quando se formou, entrou numa faculdade de design para aprimorar o trampo e abriu um estúdio com seu irmão, Diogo Coutinho, em Brasília. Hoje, tatua em São Paulo sozinho pelo nome de Canceriano Ink.

Ser modelo também foi uma opção. Sempre o mais alto da turma, Hodari começou a ser notado pelas ruas aos 14 anos e fez muitos trabalhos fotográficos de lá pra cá – só não mais, segundo ele, porque Brasília é uma cidade pequena em espírito. “O meu sonho era conseguir fechar uns trampos internacionais como modelo e viajar o mundo tatuando meus amigos modelos que já estão na gringa e modelando. Mas a música meio que atravessou tudo o que eu achei que ia ser minha vida. E eu vim pra São Paulo pra sair dessa zona de conforto e crescer, viver a vida adulta.”

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Conversando com Hodari, me bateu a impressão de que era impossível que ele não se tornasse artista. Neto de avós maternos militantes negros – o que lhe rendeu o nome Hodari, “dignidade” no dialeto sul-africano zulu. O restante da família também ganhou nomes africanos – avô paterno artista plástico e avó paterna estilista de alta costura, toda a sua família tem contato com a arte, inclusive com o rap.

Hodari é primo do rapper Aori, um dos fundadores da Batalha do Real no Rio de Janeiro, tem BK' como um “primo de consideração” com quem cresceu junto e também primo da cantora Ainá, que se casou com o rapper Akira Presidente. Durante a infância e adolescência, Hodari se lembra de ter sua casa frequentada por caras como MC Marechal e De Leve.

O menino cresceu rodeado pelos mais diferentes sons possíveis: ainda que o hip hop cercasse sua família, ele também ouviu muito do blues, jazz, MPB e samba que os avós tanto gostavam. Essa influência se mesclou aos cantos e à percussão do candomblé, religião de parte da sua família – as outras partes se dividem entre o budismo e a igreja evangélica. Quando o pergunto se ele tem uma religião em particular, ele pensa um pouco antes de responder mas, por fim, chega a uma conclusão: “Minha religião é o universo”.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Hodari confia muito em sua intuição e energias – ele conta que esse foi um dos principais motivos para que ele, enfim, se mudasse para São Paulo. “É legal trombar as pessoas pela internet. Mas muita coisa é resolvida olho no olho. A energia é totalmente diferente quando você conhece uma pessoa pessoalmente. Eu sou muito ligado a isso”, fala. “Eu sou muito cigano. Não tenho muito plano, vou vivendo. Decidi que vinha pra São Paulo um mês antes de me mudar. Se eu sinto que vai ser bom pra mim eu vou, sou muito na energia. Podia estar o Tchaikovsky aqui, se a energia não bater eu preferiria tocar com o cara que tá tocando pandeiro ali na esquina.”

Enquanto se deixa guiar pelas energias, Hodari assiste à sua carreira como músico decolar. O músico fez seu primeiro grande show, no CCBB, ainda em julho e o Poesia Acústica baseado em sua canção entrou na segundo posição dos vídeos em alta do YouTube brasileiro . Apesar de ainda não ter certeza se a música é realmente a onda que surfará pelo resto da vida, ele diz não fazer muita questão de saber por agora.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

“Eu só vou vivendo. Sou como uma pessoa que só enxerga por foto de Polaroid: vou tirando foto da vida e ela vai se revelando e mostrando o que ela é. Me chamam de sem foco.” E você é? “Não sei. Eu sei que sou feliz pra caralho e faço o que eu quero.”

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter, Instagram e YouTube.