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Os garimpeiros da Serra Pelada esperam a volta dos tempos dourados

Carros, mulheres, bebidas e toneladas de ouro deram lugar a uma vida simples e com muitos problemas de saúde.

por Ivana Debértolis; fotos por Anderson Souza
11 Julho 2018, 3:55pm

O garimpeiro Luís Barbudo. Todas as fotos por Anderson Souza.

Serra Pelada ficou conhecida, nos anos 80, como o maior garimpo a céu aberto do mundo, tendo, em seu auge, 100 mil homens trabalhando. Pessoas vindas de todas as regiões do país se aventuravam na esperança de enriquecimento por meio da extração mineral, sendo esta a maior migração em massa ocorrida nos últimos anos na Amazônia brasileira. A corrida ao ouro, no sudeste do Pará, durou aproximadamente 11 anos. Inicialmente, Serra Pelada pertencia ao município de Marabá. O nome Curionópolis, cidade sede do município de Serra Pelada, que surgiu em função das atividades do garimpo, vem do coronel Sebastião Curió, que foi enviado pelo governo para organizar o caos na região. Uma das medidas tomadas pelo coronel foi proibir a entrada de mulheres, bebidas alcoólicas e armas no local.

Garimpeiro com sua Brasília, herança dos tempos áureos do garimpo.

O garimpo, que teve seu auge em 1983, foi fechado em 1992, quando o governo Collor devolveu à companhia Vale o direito de exploração da área. Com o término das atividades garimpeiras no início da década de 90, homens e mulheres que saíram de várias regiões do Brasil para viver a promessa da Serra Pelada retornaram às suas cidades de origem. Uma pequena parte resistiu e fez daquele pedaço de terra sua nova morada.

O fotógrafo paraense Anderson Souza documentou o cotidiano e a realidade dessas pessoas que ficaram por lá. Sua história com Serra Pelada teve início no final dos 80, quando ainda menino. Seu pai o levou à borda da Cava [nome dado à mina que os garimpeiros escavaram manualmente]. Lá o jovem Anderson se deparou com uma cena que ficaria marcada por toda a vida. "Milhares de homens disputando espaço em um imenso buraco, me remetendo à figura de um formigueiro humano. Era algo inacreditável. Aquela imagem não saiu da minha cabeça durante anos, não sabendo que, mais tarde, voltaria ali para contar a história daquelas pessoas”, relata o fotógrafo.

Ex-garimpeiros veem o tempo passar na calçada.


A situação de quem vive em Serra Pelada é precária. Falta saneamento básico, saúde e educação. O Estado está presente apenas por meio de um efetivo de quatro policiais militares que fazem a segurança de uma vila composta por cerca de cinco mil pessoas.

Durante suas andanças, Anderson fotografou diversas pessoas, entre elas, garimpeiros que alimentam a esperança de um dia voltar aos tempos áureos do garimpo, como, por exemplo, Luís Barbudo, 67 anos, que fez a promessa de só tirar a barba e cortar o cabelo depois de ver a mina voltar a funcionar, para que ele possa, então, ter de volta o investimento financeiro que fez ali um dia.

Trânsito na principal via da comunidade é composto em grande parte por motocicletas.

Os que ainda vivem em Serra Pelada veem o tempo passar em cima de uma riqueza incalculável. A vitalidade dos homens antes de corpos fortes, em função do grande esforço físico que faziam ao subir e descer escadas com sacos de terra nas costas, hoje dá lugar a rostos abatidos e castigados pelo sol e a muitos problemas de saúde.

Restam apenas as histórias, como a de José Sobrinho da Silva, que, no auge do garimpo, chegou a pegar, em seu barranco (terreno medindo 2x2), 400 toneladas de ouro. Sentado em uma cadeira no quintal de sua casa, ele exibe fotografias nas quais podem ser vistas bateias cheias de ouro e relata a Anderson extravagâncias da época do garimpo. “Cheguei ainda menino em Serra Pelada, entrei furando [furão era o nome dado à pessoa que não tinha autorização dos órgãos federais para entrar no garimpo], vim do Maranhão com o sonho de ficar rico e em pouco tempo realizei esse sonho. Gastava dinheiro à revelia, em bares e prostíbulos, investi tudo no banco rachado [expressão usada para dizer que gastou com prostitutas]. Comprei carros e dei dinheiro pra muita gente, consegui ajudar muitos companheiros que não pegaram ouro.’’

Garimpeiro em frente sua casa.

Serra Pelada está ligada à própria história de Anderson, em razão disso, surgiu a série documental Serra Pelada – Esperança Dourada. “A região envolve misticismos, lendas, histórias alegres e tristes, vividas por pessoas que, em pouco tempo, não estarão mais aqui para contá-las. Pessoas como meu pai e outros personagens que fotografei e que, posteriormente, morreram com o sonho dourado", finaliza.

Saque mais fotos do Anderson Souza abaixo e também no Instagram.

Ex-garimpeiro hoje trabalha com matadouro de gado clandestino para sustentar sua familia.
Construções em madeira cobertas por poeira fazem parte da arquitetura da cidade.
Camocim também teve que se reinventar e montou uma barbearia. Com essa profissão, mantém uma família composta pela mulher e dois filhos.
Adalto Gomes viu em outra profissão a possibilidade de sustentar sua familia e montou um estúdio fotográfico e durante anos fotografou os eventos sociais daquela localidade.
Sr. Lousinho, comerciante. Foto feita em 2014. Ele morreu em 2016 por problemas de saúde.
José Sobrinho exibe fotografias da época de funcionamento do garimpo que mostram grande quantidade de ouro que seu barranco produziu.
Garotos jogam futebol em um campo de terra batida na vila de Serra Pelada.
Garimpeiro exibe pepita de ouro em um dos poucos locais que ainda existe atividade garimpeira na vila.
Senhor Manoel Vilhena, vulgo Bigode, 72 anos, antes garimpeiro, hoje cuida de seu estabelecimento comercial.
Ceará, depois de muita luta e problemas de saúde, se aposentou e hoje percorre a vila em uma bicicleta proeseando aos fins de tarde com outros ex-garimpeiros em frente a cooperativa.

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