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Do Bonde do Putão à Câmara dos Deputados: tá tudo dominado

Integrando o repertório de herdeiros políticos ou batendo forte até hoje entre estudantes, os funks do Bonde do Tigrão são grandes clássicos da música brasileira.

por Matias Maxx; ilustrado por Vinicius Trigo
04 Abril 2019, 8:46pm

Montagem: Vinícius Trigo. Foto Bonde do Tigrão: Facebook/Divulgação. Foto Paulo Guedes: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

"Tchu tchuca, vem aqui com seu tigrão, vou te jogar na cama e te dar muita pressão." A estrofe da canção "Tchu tchuca" que foi hit no ano 2000, virou um trend depois de ser citada ontem pelo deputado federal Zeca Dirceu na Câmara durante um debate sobre a Reforma da Previdência. A canção de Leandro Dionísio, o Leandrinho do Bonde do Tigrão, foi originalmente destinada a alguém bem mais inocente que Paulo Guedes. "Escrevi essa música para minha sobrinha quando ela era pequena, hoje ela tem 24 anos, na época eu chamava ela de tchu tchuquinha. A música sempre foi feita para homenagear e exaltar as mulheres." Segundo o MC, Tigrão na gíria do funk, "é aquele cara pegador, da balada, que não namora ninguém né? O cara que representa."

O grupo causou furor nos bailes dos anos 90 quando se chamava Bonde dos Putões

O grupo, originário da Cidade de Deus, causou furor entre a mulherada dos bailes funks nos anos 90 com as danças sensuais performadas por Leandro e os outros colegas de banda, na época que ainda se chamava Bonde dos Putões. Em 1999, para ganhar a rádio, a TV e o Brasil todo por sugestão do DJ Marlboro a banda resolveu mudar de nome. "Ficou Bonde do Tigrão porque tinha um componente que ganhou de uma ex-namorada uma sunga de sex shop. A frente era um desenho de tigre, e na frente não tinha forro, ai ele foi botou forro e foi pra praia com essa sunga e começou a ficar conhecido como Tigrão.” Para completar, o nome podia substituir todas as vezes que a palavra putão era citada no repertório do grupo, sem afetar as rimas. "Era Gustavo o nome dele, mas ele saiu da banda e hoje em dia ele é pastor pra você ter noção."

A banda lançou ano passado no seu canal de youtube o DVD "O Baile todo", um showzaço com grande participação do público gravado em São Carlos, para um público de 17 mil pessoas numa festa universitária chamada Tusca. Segundo o escritório da banda, 80% da agenda deles é hoje voltada para o público universitário. O próximo lançamento será o clipe de "Pique Baile de Favela", com uma sonoridade mais atual de 150 BPM.


Assista ao nosso documentário sobre o 150 BPM:



Integrando o repertório de herdeiros políticos ou batendo forte entre estudantes do interior paulistano, o Bonde do Tigrão é um clássico. Apesar de um tanto fora dos holofotes - até o evento político, ao menos, Leandro fica feliz do momento em que o funk está vivendo. "O funk tem participado de vários eventos legais, é hit. O Dennis DJ é um cara do funk que toca nos grandes festivais, depois de Alok é a segunda referência top de DJ. Entre outros, Ludmilla é funkeira, ela canta funk. E é um marco." Ele lamenta, no entanto, que ainda assim o gênero siga sofrendo: "Preconceito sempre vai existir. Ainda mais quando é uma galera que sai da comunidade, muitas vezes não sabe se expressar direito, usa muita gíria. E as pessoas ainda associam muito o funk ao sexo ou ao crime. E o funk tem muitos lados. Tem uma galera que toca proibidão, tem galera que canta funk romântico, outra galera um funk mais pornográfico".

Ficou Bonde do Tigrão porque tinha um componente que ganhou de uma ex-namorada uma sunga de tigre de sex shop. Hoje ele é pastor.

Questionado a respeito da condenação do DJ Rennan da Penha, Leandro diz que não o conhece pessoalmente, mas acompanha e admira seu trabalho. "Pelo que eu sei é um moleque do bem, é trabalhador. Mas é um cara da comunidade, que toca na comunidade, e quando você mora na comunidade não tem como não ficar perto de bandidos ou traficantes, isso faz parte do dia a dia das pessoas. Eu fui nascido e criado na Cidade de Deus e a todo momento eu via, sempre convivi com esse pessoal. E esse pessoal curte baile e a sociedade sabe disso, não é segredo pra ninguém. Ele tá sendo injustiçado por tocar em comunidade, Rennan da Penha não é bandido, ele é DJ."

Sobre a polêmica envolvendo Zeca Dirceu e Paulo Guedes, o grupo publicou uma nota oficial no Instagram afirmando que a figura da tchutchuca foi tirada de contexto pelo deputado e que "a música foi criada como uma brincadeira elogiando as mulheres". A nota ainda dá um tapinha na mão de Dirceu, dizendo que o político deveria respeitar Guedes que "além de ser uma autoridade é um senhor de idade e merece respeito".

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