Lucas Apa. Crédito: Miguel Escalante Jr.

​Como a crise política na Argentina deu origem a uma poderosa subcultura hacker

Junte um cenário de caos, a rebeldia dos jovens e um espírito de improviso latino-americano.

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16 Dezembro 2016, 1:05pm

Lucas Apa. Crédito: Miguel Escalante Jr.

Em dezembro de 2001, a Argentina mergulhou no caos. Após a renúncia do presidente Fernando de la Rúa, o país viveu sua pior onda de violência desde a década de 80: 39 pessoas foram mortas, a economia entrou em colapso e a polícia saiu em confronto direto com manifestantes.

Mas, enquanto protestos e revoltas se alastravam pelo país e a presidência passava por três mãos no curto período de 10 dias, uma geração de argentinos fanáticos por computadores aprendia a programar, publicava zines digitais e criava um novo grupo de hackers de elite.

Embora a Argentina sofresse com a violência do estado e a desvalorização de sua moeda, a cultura hacker florescia. No mesmo ano em que la Rúa abandonara seu cargo, a Ekoparty, uma renomada conferência anual de segurança digital, acontecia pela primeira vez na Argentina.

A Ekoparty é uma manifestação do crescimento da cultura hacker. O evento é realizado anualmente em Buenos Aires pelas mãos e mentes de Juan Pablo Daniel Borgna, Leonardo Pigner, Federico Kirschbaum, Jerónimo Basaldúa e Francisco Amato. Durante o evento, especialistas em segurança digital apresentam pesquisas, participam de competições de hacking, competem para ver quem abre mais fechaduras e reúnem-se com as maiores empresas de segurança do mundo.

O evento é descrito como "um ambiente de intercâmbio de conhecimentos" que "oferece uma série de atividades dinâmicas e descontraídas, com uma abordagem lúdica da segurança digital". Apesar da seriedade com que os hackers encaram seu trabalho, não há dúvida de que eles também se divertem muito, algo que é bastante encorajado e defendido dentro da conferência.

A cultura hacker argentina também firmou sua presença na cultura pop. Uma minissérie policial chamada El Hacker estreou em 2001, evidenciando o crescimento do interesse nacional pelo assunto e destacando a importância do mundo hacker como tema no entretenimento (Matrix, um sucesso de bilheteria mundial, havia sido lançado dois anos antes).

O valor do peso despencou após a crise de 2001, aumentado o valor dos computadores e outros dispositivos cobiçados pelos hackers em formação. Mas esse novo empecilho não impediu que adolescentes e adultos alterassem programas, criassem game cheats e aprendessem a identificar vulnerabilidades inerentes a qualquer tecnologia.

Lucas Apa, um hacker e especialista em segurança digital da empresa de segurança IOActive, havia acabado de passar uma tarde discursando no Senado argentino e discutindo a questão do voto eletrônico quando conversamos pelo telefone.

Lucas Apa. Crédito: Miguel Escalante Jr.

Apa conta que se interessou por hacking jogando videogames durante a infância. "Quando os videogames mudaram o formato para CD, eles ficaram muito mais caros", lembra. "Por isso era muito comum comprar jogos crackeados [ou pirateados]. Às vezes eles funcionavam, mas outras vezes eu chegava em casa e descobria que havia algum problema no crack."

Esse foi o primeiro contato de Apa com um software manipulado — e o interesse foi imediato. "Depois dos jogos comecei a estudar outros tipos de software, e fiquei doido para entender como esses cracks funcionavam. O ano era 2001, e a única mailing list sobre cracks em língua espanhola se chamava Cracks Latinos. Muitos argentinos aprenderam a crackear com essas mailing lists."

Esse aprendizado, diz Apa, lhe deu a base necessária para aprender a programar exploits (dados ou partes de softwares que tiram proveito das vulnerabilidades de determinado programa), uma das formas de hacking mais lucrativas e talvez a grande especialidade dos hackers argentinos.

Em 2013, Apa e Carlos Mario Penagos, outro consultor da IOActive, apresentaram, na Black Hat, a descoberta de que era possível hackear plantas industriais via sensores wireless. Com esses exploits, Apa e Penagos descobriram que era possível manipular sensores localizados a até 65 quilômetros de distância, uma falha de segurança que poderia ter consequências catastróficas.

O desenvolvimento de exploits tem sido uma benção para muitos hackers argentinos, incluindo Juliano Rizzo. Ele me contou por email que, após anos trabalhando com exploits "antes de ficar entediado", ele decidiu mudar de campo de pesquisa, focando-se em criptografia, criptomoedas e ataques criptográficos.

Eles descobriram que era possível manipular sensores localizados a até 65 quilômetros de distância, uma falha de segurança que poderia ter consequências catastróficas.

Muito antes de elaborar um dos exploits mais importantes dos últimos anos, Rizzo teve uma formação hacker à moda antiga: ele aprendeu a programar à mão na mesma época em que aprendia a ler e escrever e participou de encontros hackers onde se discutia segurança digital e "H/P/C/V/A: hacking, phreaking, cracking, vírus, anarquia". Ele também criava desafios de segurança para jogos com seu irmão mais velho, lendo revistas de segurança escritas por outros argentinos em seu tempo livre.

Uma das revistas de segurança em língua espanhola vendidas na época, conta Rizzo, era escrita por hackers argentinos. Seu nome era Minotauro Magazine. Outra revista importante lida por Juliano era a Virus Report, editada pelo falecido hacker argentino Fernando Bonsembiante.

Em 2001, aos 18 anos, Juliano cursava o ensino médio e frequentava conferências como a Def Con e a Black Hat, dois importantes eventos internacionais. Em 2008 Juliano participou da Ekoparty pela primeira vez. Três anos depois, ele viria a apresentar o exploit que lhe trouxe fama internacional ao lado de Thai Duong, hacker vietnamita e seu parceiro de trabalho.

Esse exploit (um dos vários projetos desenvolvidos por Rizzo e Duong), intitulado BEAST (Browser Exploit Against SSL/TLS, no original), revelou grandes vulnerabilidades em protocolos de segurança utilizados por sites para criptografar dados disponíveis na internet. Com esse exploit, hackers seriam capazes de descriptografar transações do PayPal e roubar senhas do Gmail. O exploit BEAST, nas palavras de Thai, "é o primeiro ataque capaz de descriptografar solicitações HTTPS".

Mesmo sem saber que seu país é o lar de alguns dos melhores hackers do mundo, os argentinos costumam se descrever como "life hackers". A ideia é que sabem improvisar como ninguém. Muitos dos argentinos com quem conversei se denominam "MacGyvers". Seja reutilizando tudo, de canetas velhas a potes de geléia, ou aprendendo a turbinar um computador velho em vez de comprar um novo, os hermanos têm a habilidade enxergar novas possibilidades em objetos cotidianos.

Esse traço cultural é uma parte essencial do espírito dessa nova geração de hackers nascidos na Argentina. A crise de 2001 aconteceu em um momento crítico, mergulhando o país no caos e fomentando, em alguns, o desejo de "lutar contra o sistema", algo comum entre hackers.

Os argentinos costumam se descrever como "life hackers"

"O país estava cheio de problemas e tristeza", conta Apa. "O interesse pela tecnologia virou um tipo de escapismo. Para muitos, aprender a hackear parecia uma forma de combater o 'sistema' ou as grandes empresas das quais eles não gostavam."

Esse sentimento está ligado a um dos temas discutido pelos hackers com quem Rizzo se relacionava durante a adolescência: anarquia. O hacking é uma atividade fundamentalmente subversiva, e quem tem mais talento para subversão do que hackers acostumados a viver em meio ao caos?

O grande objetivo dos hackers é resolver problemas de forma criativa e, na época, a Argentina enfrentava um vasto número de problemas em quase todos suas esferas —política, social, financeira — ao mesmo tempo em que a internet se popularizava, o que incentivou muitos jovens a enfrentarem as adversidades para se tornarem hackers profissionais.

Devido à instabilidade econômica e à restrição às importações, os argentinos sempre tiveram que se virar com menos. Essas dificuldades têm seu lado positivo. Segundo Apa, elas ensinaram sua geração a "usar o que temos em mãos de forma criativa para construir coisas novas".

Essa capacidade faz deles não apenas profundamente argentinos, mas também hackers excepcionais.

Tradução: Ananda Pieratti