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reportagem

Por que uma comunidade de punks escolheu se infectar com HIV na Cuba de Castro

Para escapar da perseguição do regime, Los Frikis escolheram pegar HIV para ter uma chance de viver num sanatório para portadores do vírus.

por Abdullah Saeed
06 Fevereiro 2017, 5:08pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Falando de modo geral, o punk rock é uma ferramenta usada por gente dos extratos mais baixos da sociedade para expressar dissidência — e nenhuma dissidência foi mais reacionária do que na Cuba de Fidel Castro.

O socialismo gera homogeneidade, e em nações socialistas, punks acabam sendo inconfundivelmente notáveis. Mais que conspícuos, Los Frikis — uma comunidade de punks cubanos que começou entre o final dos anos 80 e começo dos 90, lembrando os punks das nações livres em estilo e gostos — começaram a ser vistos como párias para todos exceto eles mesmos.

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Na época, o governo de Castro tentava manter a ordem pela força, e a polícia caía em cima de desocupados e isolados sociais. Los Frikis eram um desses alvos, porque pareciam diferentes, fugiam às normas da vida sob o socialismo de Castro, e passavam muito tempo nas ruas em áreas decadentes. Eles eram constantemente assediados, presos ou obrigados a fazer trabalho braçal. Como resultado, alguns Frikis partiram para uma forma de protesto que ainda consegue chocar: eles se infectaram com HIV, injetando sangue de seu amigo Friki soropositivo nas próprias veias.

Como resultado, alguns Frikis partiram para uma forma de protesto que ainda consegue chocar: eles se infectaram com HIV, injetando sangue de seu amigo Friki soropositivo nas próprias veias.

Vários fatores se alinharam para criar as condições sociais que levaram os Frikis a se infectarem. A União Soviética há tempos apoiava a economia cubana, mas enquanto a potência mundial começava a desmoronar no final dos anos 80, esse apoio secou, e o país teve que se virar sozinho. Castro chamou o que se seguiu de "Período Especial", um eufemismo irônico para uma grande escassez de alimentos e combustível, e racionamentos tão drásticos que alteraram fisicamente o povo cubano para sempre.

Por volta da mesma época, a crise de AIDS começou a piorar, e as nações do mundo passaram a investir pesado para controlar a propagação do vírus. A abordagem controversa de Cuba para a questão era obrigar sua população sexualmente ativa a fazer exames regulares e mandar os soropositivos para sanatórios em quarentena. Nessa política, alguns Frikis viram uma escapatória da sociedade que tentava varrer dissidentes como eles.

"Ele sabia que se fosse infectando, ele seria mandado para o sanatório", me disse Niurka Fuentes sobre seu falecido marido, um Friki chamado Papo La Bala. "Ele sabia que encontraria outras pessoas como ele lá, que a polícia ia deixá-lo em paz e ele poderia viver sua vida."

Em vez de continuar morando nas ruas e em áreas onde podiam ser perseguidos, os Frikis soropositivos encontraram um lugar onde recebiam alimentação, abrigo e remédios. E quando Frikis suficientes fossem internados no sanatório, eles sabiam que o lugar se tornaria um paraíso punk.

"Você ouvia rock 'n' roll e heavy metal vindo de todas as casas", disse Yoandra Cardoso, uma Friki de longa data que continua a morar no terreno de um antigo sanatório. "Quando o sanatório abriu, a população era 100% Frikis... estávamos todos aqui juntos."

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Em 1989, os militares entregaram o controle dos sanatórios ao Ministério da Saúde, e sob a metodologia progressista deles, os pacientes tiveram permissão para ouvir e tocar música, se vestir como quisessem e socializar com pessoas dentro e fora do sanatório. Eles estavam em acomodações melhores que as acessíveis na época para o cubano médio, quanto mais para um Friki. "Criamos nosso próprio mundo ali", me disse Fuentes.

O sanatório em Pinar del Rio, onde Fuentes e Cardoso estavam internadas desde o começo dos anos 90, fechou em 2006. Hoje, quase todos os sanatórios fecharam, afora um último, em Santiago de Las Vegas, operando agora como ambulatório. Apesar de muitos de seus pacientes terem sido perdidos para o vírus — Cardoso me disse que apenas três colegas do seu sanatório estão vivos —, os sobreviventes são mantidos vivos por drogas antirretrovirais produzidas domesticamente, distribuídas pelo programa de saúde pública cubano. Cuba ainda tem uma das menores taxas de HIV do mundo, e até pôde comemorar a eliminação da transmissão de mãe para filho ano passado (apesar das taxas de infecção no país estarem em ascensão na última década).

Os Frikis, basta dizer, se encontravam numa posição comprometedora para uma comunidade punk. Mesmo que a situação precária deles não pareça justificar o ato de se infectar, naquele momento em particular da história, onde a ideologia punk era motivo de perseguição, os Frikis ainda se viram escolhendo cometer um ato que seria indizível de outra maneira.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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