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Com muita cerveja quente e som alto, o Rio ficou bem de rua para curtir as Olimpíadas

Aproveitei o clima de carnaval fora de época para me jogar nas festinhas corporativas, no Boulevard Olímpico e nos points de rua tradicionais para sentir o verdadeiro espírito brasileiro (festas em geral).

por Matias Maxx
26 Agosto 2016, 4:00pm

Eu sempre fui uma negação nos esportes, salvo bicicleta (que eu sempre encarei como meio de transporte e não exercício) e artes marciais (fundamentais pra quem curtia quadrinhos, RPG e computadores nos anos 90), eu nunca curti praticar ou mesmo assistir a esporte nenhum salvo em duas ocasiões, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Certamente o fato de eu ter três nacionalidades contribuiu muito para esse hábito, então enquanto moleque eu sempre tive álbuns de figurinhas, souvenirs e colecionáveis desses dois eventos. Foi necessário eles chegarem aqui no país para, observando o impacto social no país/cidade sede, brochar de vez para os esportes. A gente pode resumir a experiência de sediar um evento desses como aquela festinha que você deu em casa quando era adolescente, seus pais estavam viajando, você convidou a galera mais legal da escola. Eles secaram sua despensa, beberam todo seu álcool, quebraram uns enfeites caros, entupiram todas as privadas, treparam na sua cama e na dos seus pais. Você até deu um beijinho ou outro, mas não comeu ninguém, e no final ficou sozinho pra arrumar a bagunça, assumir o preju e... explicar a porra toda pros seus pais.

A nossa delegação olímpica foi a maior da história, inflada pelas vagas destinadas ao país sede, mesmo com o maior saldo de medalhas da nossa história, ver o Brasil ser desclassificado de vários esportes serviu bem para mostrar como a gente é fraco e carece de investimentos na maioria dos esportes. Tretas políticas e resultados desastrosos a parte, como eu já disse antes, rolou muita festa. Sendo assim, o jeito foi entrar naquele espírito do "pisou na merda? Então abre os dedos". Uma coisa que o carioca sabe fazer bem é festa, sobretudo na rua, então aproveitei o clima de carnaval fora de época para me jogar nas festinhas corporativas, no recém inaugurado Boulevard Olímpico e nos points de rua tradicionais do Rio para ver o que que estava pegando.

Assim como qualquer morador do Rio de Janeiro, eu tinha que ver como ficou o tal do Boulevard Olímpico, área aberta após a remoção da Via Perimetral, uma obra bilionária que causou polêmica graças ao desaparecimento de 110 toneladas de vigas de aço. O crime nunca foi solucionado. A área antigamente sob o viaduto foi transformada numa enorme via de pedestres com os trilhos do VLT passando no meio. De um lado, os galpões do porto foram tomados por casas temáticas de corpoações e do outro, imensos painéis de grafite ilustram o caminho.

Um transatlântico bolado parava por lá também. O circuito todo é extenso, dá pra chocar ovo de pokémon tranquilamente. Dá pra ir caminhando da Praça XV, onde tinha um palco, até o outro palco na Praça Maua, por um caminho novo contornando uma área militar a beira da baía de Guanabara. A vista estonteante, que antigamente era restrita àquela olhadinha pela janela de um carro de alta velocidade, estava lá, pela primeira vez para todo o mundo ver. E quem lotou o Boulevard Olímpico foi o carioca. Tinha muito turista brasileiro e um ou outro gringo, mas o forte mesmo eram os cariocas, que, após anos de transtorno e engarrafamentos causados pelas obras no centro finalmente teve a chance de colar pra ver como que ficou essa porra. Ficou bonito claro — é o mínimo — mas a dúvida que fica é como ficará agora, quando passar a paraolimpíada e o último investimento corporativo pular fora. Não tem nenhum comércio naquela região, tudo que foi montado para as olimpíadas foi temporário. O perímetro do Boulevard Olímpico era altamente vigiado por policiais, forças armadas, Força Nacional, bombeiros, guardas municipais... a coleção de bonequinhos de chumbo completa. Salvo um ou outro aventureiro vendendo cerva sorrateiramente, não havia ambulantes dentro desse perímetro, apenas estandes da Skol, vendendo latão a R$ 8. Como opção de larica, inúmeros food trucks se espalhavam pela área.

Teve alguns bons shows no palco "Encontros" da Praça Mauá, como o da Elba Ramalho com Moraes Moreira, e o Paralamas do Sucesso com a Nação Zumbi. Fui neste último e vi muitos cartazes "Fora Temer", frase repetida pelo Herbert Vianna desde o palco. No último sábado, após a final do futebol masculino, militantes dos direitos humanos de diversas favelas fizeram no local um protesto lembrando as pessoas mortas pela polícia durante as Olimpíadas. Segundo nota publicada pela Anistia Internacional, tem-se notícia de que pelo menos oito pessoas foram mortas durante as Olimpíadas em operações policiais (três em Del Castilho, quatro na Maré e uma no Cantagalo); nas favelas do Acari e Manguinhos, também há informações sobre mortos durante operações.

Embora a marcação seja dura dentro do Boulevard Olimpico, era só sair dessa área que você encontrava um monte de ambulantes vendendo cerveja, churrasquinho e o escambau. Bem ao estilo tradicional carioca.

Ali no Arco do Teles, uma multidão ocupava as ruas em torno de umas caixas que bombavam um raggeanejo universitário ou um pagofunk de quebrada enquanto um mar de gente de boardshort, aba reta, piercing no septo e cabelos de todas as cores e texturas desciam até o chão como num fim de semana qualquer.

Os bares do centro estavam todos lotados e com as TVs sempre ligadas nos jogos. Numa véspera de feriado, a galera do La Cumbia, uma das várias festas itinerantes do Rio que reveza edições ao ar livre com edições em clubes, montou suas caixas no final da Rua do Ouvidor.

Estava bonito de ver o centro do Rio lotado assim. Tinha um clima de verão sem o calor infernal, um clima de carnaval fora de época mas sem os blocos, pura boemia e gente ocupando as ruas. Um rolé noturno pelo centro do Rio é sempre maneiro, com a maioria das lojas fechadas e os vendedores ambulantes de quinquilharia chinesa dando espaço pros vendedores ambulantes de suco de milho transgênico fermentado. Fica aquela sensação de nostalgia de um Rio antigo, que a gente não viveu, mas leu nos romances e ouviu nos sambas.

Muitas pessoas atribuíram ao fato da cidade estar lotada a sensação de segurança transmitida pelo patrulhamento ostensivo. Havia soldados, policiais, helicópteros e motos patrulhando praticamente cada esquina da cidade. Mas, a verdade é que, se existe alguma sensação de segurança, ela é falsa, como comprovam os incidentes já relatados ocorridos em favelas e muitos casos de assalto. Fiquei sabendo de duas gringas que foram assaltadas no mesmo local em Santa Tereza em dias diferentes. Uma delas descreveu que os assaltantes executaram o assalto tão bem que parecia que eles tinham um "preparo olímpico" para tal. A explicação mais plausível pra essa falsa sensação de segurança é que com tanta gente rua, talvez não haja ladrão para todo mundo.

Copacabana ainda continua sendo a maior concentração de gringos bêbados.

Colei por lá após um jogo do vôlei de praia vencido pelo Brasil. O Mab's é um restaurante que fica exatamente ali em frente à quadra montada nas areias de Copacabana e estava lotado com os frequentadores de sempre: gringos e garotas de programa. Por algum motivo, as garotas sempre me abordam achando que eu sou gringo, italiano ou argentino geralmente, o que gera tratamentos bem diferentes, inclusive. Rolam alguns minutos de conversa até elas perderem interesse ao perceber que eu sou brasileiro, e pior, jornalista, provavelmente um dos piores tipos de cliente. Descubro que o movimento tá fraco. Sim, tem muito gringo na pista, mas também tem muita garota que veio de tudo que é lugar do Brasil atrás desses gringos. Todas as pessoas que eu conheço ligadas ao mercado de prostituição, seja na Vila Mimosa ou em termas de luxo, confirmaram que o movimento estava fraco. Segundo o observatório da prostituição, um projeto de extensão do Instituto de Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, "os clichês relativos aos mega-eventos que a grande imprensa noticia e grupos abolicionistas alardeiam (aumento do tráfico de pessoas, exploração de crianças e adolescentes) não tem se configurado na prática. Em termos do movimento de clientes na pré-olimpíada, verificamos que as trabalhadoras sexuais estavam preocupadas com o baixo movimento e, novamente, ao contrário do senso comum, que os mega-eventos não rendam tantos ganhos a esse mercado."

Nos rolés corporativos tinham várias sacanagens. Na NBA House por exemplo tinham essas "pegadas" de alguns dos atletas da casa. Inevitável colocar o pé lá e não pensar num monte de besteira sobre as relações anatômicas entre tamanhos de pés e outras partes do corpo masculino.

Também colei num evento patrocinado destinado a celebridades e VIPs não tão VIPs que não conseguiram ingressos pro estádio. Tinha todo tipo de cerveja da mesma marca disponível, e parecia haver uma preocupação especial da produção para que todas elas estivessem constantemente quentes. Foi a maior deprê!

A Olimpíada passou e a ressaca ficou junto com aquele sentimento pós festinha de adolescente na casa dos pais, muita vergonha mas também um bando de história engraçada, e quando a conta chegar, a gente já vai estar afundado num novo problema.

Mais imagens da real curtição carioca:

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