Os Torcedores Socialistas que Salvaram a Liga Americana de Futebol dos Neonazis
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Os Torcedores Socialistas que Salvaram a Liga Americana de Futebol dos Neonazis

Nos anos 90, a maior preocupação dos torcedores esquerdistas de Nova York era evitar que as arquibancadas se tornassem um covil de fascistas e fãs da extrema-direita.
04 Dezembro 2015, 8:11pm

Foto: Roger Gaess/Courtesy Holly Duthrie

Não haverá nenhum arrombado, digo, não haverá neonazista entre os torcedores do New York Red Bulls e o Columbus Crew, no próximo domingo, durante a final da Conferência Leste, um dos campeonatos da Major League Soccer, a liga de futebol dos Estados Unidos e do Canadá.

Também é bem provável que não haja nenhum anarquista, skinhead ou socialista na arquibancada. E isso quer dizer que muita coisa mudou desde o nascimento do New York Red Bulls, criado como New York/New Jersey MetroStars, em 1996.

A Torcida Organizada Empire (ESC, na sigla original) acompanhou toda a história do time — nomes novos, donos novos, estádio novo e os mesmos fiascos nas eliminatórias, anos após ano. Mas os caras mudaram bastante desde sua criação. No começo, muitos dos membros eram socialistas e anarquistas. A maior preocupação deles era evitar que as arquibancadas se tornassem um covil de fascistas e fãs da extrema-direita.

Kevin McAllister, que fundou o ESC em 1995, acredita que, graças à forte presença do futebol na esquerda europeia, os grupos esquerdistas de Nova Iorque foram logo atraídos pelos times profissionais que surgiam na área. "Torcer para um time era muito importante para algumas pessoas", afirma.

Antes da criação do MetroStars, Nova Iorque não possuía uma cultura futebolística. O Cosmos, time de futebol nascido na década de 70, estava morto há uma década. Quando o futebol profissional renasceu das cinzas, o interesse foi imediato. Tudo começou com a criação do New York Centaurs, que jogou alguns jogos do falecido campeonato A-League na Ilha Randall em 1995. Sua torcida fervorosa, a New York City Firm, foi fundada por um anarquista chamado Tommy Miles. Ele atraiu, por tabela, vários membros do RASH, um grupo skinhead anti-racista e anti-fascista que havia nascido da cena punk alguns anos antes.

"Muitos deles eram anglófilos familiarizados com a cultura do futebol da Inglaterra e da Escócia", diz McAllister sobre a Firm. "Era um misto de interesse pela Grã-Bretanha e pelos movimentos políticos de esquerda que os atraía para os jogos dos Centaurs. Eles renovaram o interesse local por futebol. E essa é a origem da ESC."

Membros da ESC carregando uma bandeira da NYC Firm em uma viagem até a Nova Inglaterra, em 2000. Foto: Roger Gaess, cortesia de Holly Duthrie

McAllister fundou a ESC com o intuito de criar uma organização que unisse todas as torcidas do MetroStars. Ele absorveu a Firm após a fusão da Centaurs com outro time. Isso acabou dando o tom dos primeiros anos do grupo, quando os membros do RASH queriam estabelecer o MetroStar como um time de esquerda dentro da comunidade de torcedores socialistas.

Nem todo mundo estava interessado por política, mas a ideologia socialista prevalecia entre muitos dos fãs. "Nós éramos um grupo heterogêneo", diz Holly Duthie, membro da ESC que participou de sua criação. "Tínhamos skinheads, fuzileiros navais, latinos, poloneses, famílias com filhos, gente lá de Jersey e a galera do ska, do northern soul e do punk."

Os membros mais politizados da ESC sabiam que o futebol havia sido utilizado por grupos da extrema direita como plataforma de comunicação e de recrutamento em grande parte da Europa e da América do Sul durante os anos 90 – e até mesmo mais perto de casa, na cena punk local. Eles temiam que o mesmo acontecesse com a jovem MLS.

"O que unia toda essa galera era a missão de afastar racistas e fascistas da torcida do MetroStars", diz Miles, membro da ESC. "Numa reunião, ficou decidido que não permitiríamos nenhum neo-nazista em nossos eventos."

"A gente queria garantir que, se o futebol de fato chegasse à Nova Iorque e à Nova Jersey, as torcidas não seriam desvirtuadas por elementos racistas e de extrema-direita", lembra Greg Pason, membro da ESC na época.

Membros da ESC num arquibancada. Foto: Roger Gaess, cortesia de Holly Duthrie

Esse medo havia nascido após o segundo jogo do MetroStars, invadido por um grupo de neo-nazistas do sul de Jersey. "Todos sabiam que aquilo só podia acabar mal", diz Miles. A ESC não fugiu à luta, e, segundo várias testemunhas presentes na ocasião, o grupo de extrema direita foi expulso após um confronto violento.

Os neo-nazistas nunca mais deram trabalho. "Eles continuaram a frequentar os jogos", diz Pason, "mas nunca de forma organizada". Houve "casos isolados", afirma McAllister. Ele recorda de quando grupos de fanáticos de extrema-direita tumultuaram alguns jogos ao fazer saudações nazistas e cantar hinos racistas. Pason diz que eles eram, em sua maioria, imigrantes russos ou poloneses. "Eles frequentavam os jogos e não entendiam por que não era permitido usar suásticas ou por que esses hinos supremacistas não eram aceitos", diz. "Fomos obrigados a ser mais firmes com alguns desses caras."

Ao contrário do que se imagina, o MetroStars e a MLS nunca agradeceram a torcida por manter suas arquibancadas livres de neo-nazistas. Jeff Bradley, assessor de imprensa do time na época, disse não saber que a ESC havia sido tão forte politicamente ou que as arquibancadas dos estádios haviam se tornado um campo de batalha ideológico. (O New York City FC passou pelo mesmo problema em sua temporada inaugural, em 2015, quando alguns neo-nazistas supostamente se infiltraram em sua torcida e atacaram os Garden State Ultras, outra torcida organizada do Red Bulls.)

"Os dirigentes do MetroStars não sabiam nada sobre nós", diz McAllister. "Eles nem ligavam para a gente. Acho que eles nos consideravam um grupo curioso e muitas vezes irritante."

O MetroStars não estava preparado, segundo a ESC, para lidar com uma torcida organizada — um conceito surreal para muitos dos diretores do clube, de acordo com os fãs. Os torcedores viviam se desentendendo com os seguranças do estádio e faziam coisas como gritar "fodam-se os pênaltis!" quando algum jogo empatado era decidido nos pênaltis, na esperança de que sua frustração com a regra fosse ouvida na transmissão ao vivo. De início, os membros da ESC assistiam aos jogos junto dos fãs normais, que não conseguiam ver o jogo por causa dos torcedores mais fanáticos. A diretoria do MetroStars demorou alguns jogos para entender que a torcida precisava de sua própria arquibancada.

"Não era como hoje que as torcidas organizadas são valorizadas", diz Miles. "Os jogos daquela época eram um lugar para levar seus filhos, uma coisa muito tranquila. Eles não sabiam muito bem o que fazer com a nossa torcida." O fato é que a relação entre a torcida e o clube melhorou drasticamente desde que a Red Bull comprou e renomeou o time em 2006, embora muitos membros da ESC tenham deixado a torcida por causa das mudanças.

A arquibancada da ESC atualmente. Foto: Jim O'Connor-USA TODAY Sports

O tamanho da torcida em relação aos demais espectadores também não ajudava. No primeiro ano do campeonato, o MetroStars recebia mais de 24.000 torcedores por jogo. Foi só no ano seguinte, quando a MLS deixou de ser uma novidade e o MetroStars passou a atrair menos de 17.000 torcedores por jogo, que a ESC se tornou mais visível.

Embora o MetroStars fosse um time medíocre no meio de uma série de bons times que surgiam, seus fãs chamavam muita atenção. Nesse momento, a ESC foi mais uma vez influenciada pela Europa e ajudou a criar a base das futuras torcidas organizadas da MLS. "Usávamos músicas que nossos membros aprendiam em viagens para o Reino Unido, para a Itália, para a Argentina ou paraa Espanha", diz Ben Poremski, outro membro da torcida que não se interessava por política mas que se considerava um "viajante inveterado".

"A gente era a maior torcida da liga", diz Duthie. "Éramos mais organizados que a maioria dos outros grupos. A gente pintava cartazes — não conhecíamos o termo 'mosaico' na época — e fazíamos muito barulho. Zoávamos os outros times por não terem torcidas ou fãs em geral. Tenho quase certeza que o grito 'You Suck, Asshole' (algo como "você é um merda, seu cuzão!", grito comumente utilizado pelos torcedores durante a MLS) começou por aí. Na época aquilo era muito engraçado! Nós nos orgulhávamos em ouvir aquilo ecoando pelo estádio, ou na transmissão televisiva. Agora já não tem mais tanta graça, mas na época era muito divertido."

"Quase todo mundo ficava bêbado; a gente queria criar um espaço divertido", diz Pason. "Talvez vandalismo seja a palavra correta, não tenho certeza. De qualquer forma, não havia nada de simpático no que a gente fazia. Nossa torcida era muito barulhenta e desagradável. Queríamos intimidar outras torcidas e times e, para fazer isso, a gente era muito grosseiro."

"Havia uma sensação de que ninguém, nem a MLS, podia nos controlar", diz Poremski. "Tudo era liberado. Estávamos lá para criar uma forma própria de torcer. A ideia de que o Estádio Giants, o MetroStars ou a MLS pudessem ter autoridade suficiente para nos controlar era ridícula. A força da anarquia dominou a torcida desde seu nascimento."

Fãs dos Red Bulls comemoram durante a final da temporada 2015 da MLS. Foto: Noah K. Murray-USA TODAY Sports

Hoje esse tom político desapareceu. A maioria dos líderes e membros originais do ESC saiu da torcida. Nenhuma das pessoas citada nesse artigo continua na ESC: Miles trabalha na área de computação e Pason é o secretário nacional do Partido Socialista dos EUA — ele já se candidatou quatro vezes ao Senado e duas vezes a governador de Nova Jersey. Mesmo assim, a atmosfera de inclusão pela qual lutaram por duas décadas segue viva. "A coisa da qual mais me orgulho é ter dado à ESC um espírito de aceitação", diz McAllister. "Acredito que esse espírito continua a ser um dos princípios mais fortes da ESC."

Pason, que concedeu entrevista dentro da sede nacional do Partido Socialista dos EUA, lembra-se da época com carinho. "A gente queria ter um bom time, mas a gente também se preocupava com o ativismo", diz. "O time era uma merda, mas a atmosfera era sensacional."

Tradução: Ananda Pieratti