Fernando de La Rocque Pinta Surubas e Baratas e Faz Stencils de Maconha

Fui até o "Apê-liê" do cara pra falarmos sobre baratas, desenhos de suruba, imagens impressas com maconha, sexo e arte.

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08 Agosto 2014, 8:30pm

“Legal” da série “Blow Job – Trabalho de Sopro”. Autorretrato impresso com fumaça de maconha.

Nos últimos anos do milênio passado tinha uma balada chamada Fun House em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Rolava numa casa com várias salas e ambientes. Num deles, perto do bar, sempre apareciam umas exposições e instalações. Quando eu fui, passava um vídeo no qual um sujeito parecido com o personagem “Louco” do Mauricio de Souza aparecia fumando vários baseados. A casa era barulhenta demais para que se conseguisse entender alguma coisa. Mas logo localizei um rapaz ali naquela sala que se chamava Fernando de La Rocque. Ele fazia um zine chamado Green Power. Na época eu tocava o Cucaracha Zine. O Fernando lembra que a quebra de gelo se deu justamente por conta de uma cena do vídeo em que aparecia um monte de baratas. Viramos amigos ali. Eu mal sabia que, na década seguinte, ele participaria de vários projetos bacanas como o “Zona Franca” e o “Edifício Galaxy”. Fernando foi desenvolvendo trabalhos únicos até se tornar um dos mais criativos, provocativos e sobretudo um dos mais queridos artistas da cena de arte contemporânea de sua geração.

Sempre versátil, soube desdobrar trabalhos puramente conceituais, como a Barata de Ouro - que consiste numa barata viva pintada de dourado -, em obras, digamos assim, “mais vendáveis”, como esculturas e pinturas. Em 2012, tive o imenso prazer de montar no meu espaço La Cucaracha, em parceria com a Artur Fidalgo Galeria, a sua exposição Blow Job – Trabalho de Sopro, uma série de gravuras impressas com fumaça de maconha que teve repercussão internacional e contou em sua vernissage com um inesquecível blow job coletivo, aproximando críticos e colecionadores de arte de fumantes e cultivadores de maconha.

Nesta sexta-feira, 8 de agosto, Fernando de La Rocque, hoje com 34 anos, abre sua nova exposição Tudo o que é mais sagrado, na Artur Fidalgo Galeria em Copacabana. Pode-se dizer que a exposição é um desdobramento da Série Colônias, onde pequenas surubas são impressas sobre cerâmicas em padrões que de longe parecem azulejos portugueses, mas que revelam muitas surpresas ao bom expectador. Dessa vez as surubas aparecem em forma de mandalas e espirais coloridas e em diferentes suportes como pintura, bordados e até cascas de ovos. Essa carreira marcada por caça a baratas na madrugada, desenhos de suruba e imagens impressas com maconha me fez concluir que o Fernando, além de uma ótima companhia, é um personagem perfeito para uma matéria da VICE. Fui entrevistá-lo em seu “Apê-liê”, que fica num pequeno quitinete num edifício atrás de um Batalhão da PM. Além de divertido ele é muito inteligente e fala pra caralho, mas quem tiver preguiça pode se divertir lendo apenas as legendas das fotos.

Fernando de La Rocque finalizando a obra “Supernova”, uma das 20 que ele criou só no último mês para a exposição “Tudo o que é mais sagrado”.

VICE: Me conta como surgiu o Green Power.
Fernando de La Rocque:
O primeiro trabalho foi o Green Power, uma revista na qual o personagem principal era um maconheiro, o Jimi, e todas as historinhas eram anedotas com maconha. Isso começa em 97. Eu vendia por R$ 1 pra pagar a xerox, na época um litro de gasolina era um R$ 1, uma cerveja custava R$ 1. Era o começo do Plano Real, quando dolarizou – R$ 1 era uma coisa poderosa, na verdade.  Aí, comecei a enxergar o que eu fazia como um possível objeto de arte. História em quadrinhos, eu sempre fiz desde criança, eu e meu primo Henrique: ele fazia umas histórias de surfe e eu meio que imitava essa onda, porque nas historinhas de surfe sempre tinham um personagem maconheiro. Eu peguei onda até os 15 anos, mas aí comecei a ficar com muita câimbra, parei e acabei ficando mais maconheiro que surfista.

E quais eram suas influências nos quadrinhos?
Eu lia muito revista MAD, gostava do Rampal, o Paranormal, do Glauco, ah, a Chiclete com Banana, né? Foram referências. Na revista MAD tem a semente de uma coisa que foi acontecer anos depois, a série Blow Job – Trabalho de Sopro. Na MAD tinha um passatempo: soprar a fumaça de um cigarro num quadradinho branco pra saber o quanto teu pulmão tava ruim. Aí eu fiquei com esse lance na cabeça, de imprimir com fumaça. Fiquei experimentando quando eu comecei a fumar baseado escondido na casa da minha mãe. Eu levava o beck escondido dentro de uma caixinha hermética que eu criei cortando latinha de alumínio. Aí dava aquele tapinha e, na hora de soltar a fumaça, eu fazia um bolinho com papel higiênico e soltava lá dentro, ficava uma marca, mais amarelada ou mais amarronzada dependendo da intensidade da tragada. Então eu comecei a testar isso em papeis diferentes, mas só em 2007 eu dei uma forma à fumaça soprada utilizando stencils. Stencil também é um lance que se origina na minha infância, pois eu ficava observando minha mãe pintando porcelanas, ela fazia um curso de porcelana e tinha algumas coisas que ela fazia com matriz vazada, o Stencil. Comecei a usá-los nas capas dos meus trabalhos de colégio. Da mistura dessa estética com o gosto pela maconha sai essa série que eu chamo de série fumaça, que vem desde o Green Power até o Blow Job, passando pelos vídeo-arte como o “Efêmero Sublime”.

Azulejo “Mulheres são flores, homens são borboletas” da série “Colônias”. Me diz quem não queria ter uma Jacuzzi forrada desses?

Assim como a fumaça, o erotismo também é um lance que se repete muito no seu trabalho...
O que também não é uma coisa intencional. Veio da infância, de ver as pornografias dos meus primos, achar revistas deles escondidas na casa da minha avó, que era onde eles moravam. Eu voltava pra casa e ficava lembrando daquilo na aula, desenhando. Não era muito parte do meu mundo ainda, eu não entendia muito bem o que tava rolando ali, mas sabia que tinha alguma coisa boa acontecendo entre aqueles casais, entendeu? Apesar de se excitarem sexualmente, as crianças têm uma forma diferente de se relacionar sexualmente, elas transam entre si, mas muitas vezes não é essa coisa de penetração. Você não entende o funcionamento dos órgãos, é uma coisa de se esfregar, ficar junto... Então nessa época eu já desenhava e fiquei com isso ... Às vezes, falando pelo telefone e rabiscando, tipo “doodling”, saíam esses corpinhos que iam se entrelaçando, criando orgiazinhas.

Detalhe do lambe-lambe “Lamer Lamer” com as famosas surubinhas.

E já faziam sucesso com a galera ou você não mostrava esses desenhos pra ninguém?
Então, os que eu fazia no caderninho do colégio, minha mãe viu... É engraçado que eu não percebia. Era tipo uma síndrome de Tourette, assim. Eu desenhava um obscenidade mas depois eu não revia aquele desenho. Fui perceber mais tarde, quando minha mãe veio conversar comigo, e eu ainda era criança, com 7, 8 anos,. Ela disse: “Que que é isso?”. E eu: “Não sei, são pessoas nuas.” “Mas por que você desenha isso?” “Não sei, não sei... Eu gosto!” Ela também me disse que eu tinha uma coleção de fotos de seios, que ela não sabia de onde vinham, colados na minha escrivaninha.

Ah! Isso eu também fazia, com uns 5 anos eu recortava qualquer anúncio de lingerie que fosse, revista de moda da minha mãe, e guardava...
Podes crer! (risos) Eu achava bonito! Simplesmente! É isso!!! Então, minha mãe desenhava em cima das surubas pra professora não perceber. Ela rasurava e escrevia “você é imoral”, coisas assim... Na verdade isso aí eu já enxerguei como uma forma de sucesso, ver que meu desenho mexia com as pessoas. Passar de forma indiferente é o pior pesadelo do artista. Então mais tarde no colégio eu desenhava e mostrava pra um monte de pessoas... No segundo grau, eu fazia as meninas peladinhas, mas desenhava bermudinhas nos caras, acho que eu ficava com vergonha de alguém ver e ficar enchendo o saco: “Pô! Tu tá desenhando piru?”. Na faculdade (de Escultura) eu também mostrei pra algumas pessoas. A maioria achava de mau gosto, mas eu tinha um amigo que gostava, o Bruno Vidal. Ele me disse: “Investe nisso. Esse trabalho é bom!”. Fiz algumas coisas mas nada muito bom. Aí, em 2007, eu estava trabalhando com uma turma de uma agência de comunicação. Eles me davam umas bonecas de revista, saca? Em branco. Eu peguei uma e desenhei nela um monte de surubinha, de cabo a rabo. No ano seguinte, apresentei o primeiro trabalho que realmente teve sucesso, receptividade positiva e tornou-se um objeto de desejo, que foi o azulejo da série “Colônias”. Desde a primeira vez que mostrei, as pessoas quiseram ter aquilo. E é legal que reserva um truque, um golpe de vista: de longe você acha que é um azulejo português mas de perto você vê que é uma suruba.

Azulejos da série “Colônias” em exposição no Paço Imperial como parte do acervo do IPHAN.

Eu sempre achei que era “Colônias” por ser um azulejo português, mas depois eu li uma entrevista na qual você fala que tem a ver com reprodução e colônias de bactérias...
É, tem essas duas conotações. A primeira vez em que eu apliquei foi na Parede Gentil, lá no Centro do Rio, na Praça Tiradentes. E lá é cheio de casas coloniais, muitas delas têm azulejos. Então ficou meio camuflado, fazia parte, foi um trabalho pensado para aquela área, pois apesar de ser uma paredão enorme de 40 m2, com 600 peças, ficava disfarçado, dava pra passar sem perceber, ficava camuflado.

Mas deu merda lá, né?
Deu uma merdinha de leve porque teve um cara, um babaca, né? Ele foi dar queixa na delegacia porque alguém tinha colocado aquela pornografia toda exposta na rua, apesar de lá ser uma zona de meretrício e tráfico de drogas a céu aberto, com meninas e senhoras oferecendo seus serviços.

Alguns rapazes também...
É, aquilo lá, todo o dia. As bancas e telefones públicos lotados de fotos pornográficas e o cara foi implicar logo com aquilo. Ou seja, o cara penetrou fundo na história, se envolveu mesmo, percebeu que tinha algo potente ali, diferente do resto que tava em volta daquilo. Na delegacia fomos atuados por Ultraje Público ao Pudor e o delegado mandou quebrar a parede. Mas ela já tinha que ser quebrada mesmo, pois é um projeto que só fica cinco meses, depois muda o artista. Nem deu uma merda muito grande, ninguém foi preso, nem teve de pagar nada, mas o idiota falou que o que o levou a dar queixa foi que ele se sentiu muito constrangido de ter que explicar para a filha dele, pequena, a cena que ele estava vendo no azulejo. Só que o azulejo começava a 1,5 metro do chão. Ele teve de colocar a filha no ombro pra mostrar o azulejo. Logo presume-se que o cara é um tarado de querer explicar uma cena orgiástica para uma criança. Ele é um idiota.

Fernando de La Rocque e suas surubas interativas no estande da Artur Fidalgo Galeria na feira Ch.ACO em Santiago do Chile.

Mas já tiveram reações positivas, como na “Amistad Colorida”, no estande da Artur Fidalgo na feira Ch.ACO, no Chile.
Foi agora, em 2012. Eu cobri o estande inteiro todo com o “Lamer Lamer” que é um lambe-lambe das surubas em preto e branco. Levei canetinhas, giz de cera, lápis de cor e disponibilizei no estande. Era o estande mais cheio da feira. Tinha crianças de 2, 3 anos rabiscando, colorindo, sem se ligar no que era aquilo. Criança de 10, 12 anos já dando uma zoada “Ah! Olha o piru dele!”, mas numa forma tranquila e saudável. No máximo o que acontecia era uma mãe mandar um “shhh... fica quieto!”, mas nenhum ataque, nenhuma coisa negativa de alguém se constranger. Criou-se um ambiente de diálogos e picardias gostosas, são reações que provêm dessa aproximação com o trabalho. Eu acho que a arte contemporânea tem algo de conceitual e textual, te envolve com o trabalho mesmo à distância, mas nada substitui o contato direto com a obra em si. É isso que leva a gente a viajar para ver museus. Você absorve aquilo e tem um pedaço do que é o sentimento do artista também.

Pintura “Ninho do Pavão”, que integra a nova exposição “Tudo o que é mais sagrado”. Foto de Rafael Leal.

Em muitas das suas novas pinturas aparece o dourado, que você já explorou muito com a Barata de Ouro. Você ainda caça barata por aí?
Eu vou sempre caçar barata. Sempre volto a essas ideias e séries. A cada ano eu sempre tento voltar e aprimorar alguma coisa desses trabalhos. A “Barata de Ouro” começou com a simples ideia de pintar uma barata de dourado com o jet, colocar numa caixinha transparente e enviar por Sedex para alguém que sabia que ia receber essa barata viva – ela sempre chega viva. E aí a pessoa faz o que quiser com ela. Algumas me respondiam com arte, algum texto, foto, vídeo. Aí eu fiz, em 2010, a exposição “Barata de Ouro Expressionante”, que reunia esses trabalhos e alguns e-mails que eu troquei sobre a obra.

Algumas “Balatas” ganhando vida no “Apê-liê” de Fernando. Foto de Matias Maxx.

Você chegou a mandar pra fora do país?
Teve uma menina que levou à França mas não foi por Sedex não, ela levou com ela (risos). Mas pode ser o próximo aprimoramento... Enfim, depois eu fiz alguns produtinhos, barata de plástico, umas serigrafias, e aí eu fiz a “Balata”. Você vê como as ideias vão se misturando... Eu peguei aquela mesma técnica de latinha que eu fazia para guardar o beck, as pontas, etc. e criei o design de uma barata, um baratóide, feito com essas latinhas cortadas e dobradas. Fiz algumas composições da vida social dos cidadãos de Baratéia, que era um lance que eu tinha feito em carimbo em 1998. Inclusive até que num dos vídeos daquela época tinha uma infestação de baratinhas, e foi daí que surgiu o nosso diálogo, porque você já fazia o Cucaracha Zine na época e nem fazia idéia de que ia ter a La Cucaracha um dia. Pra você ver como as ideias se aprimoram.

Para “pintar” uma gravura, Fernando se submete a um exaustivo processo em que consome cerca de 25 gramas de maconha. Fotos de Patricía Kalil.

Voltando pro Blow Job, você chegou a fazer uma demonstração do processo lá em Inhotim. Relate essa experiência.
Teve esse encontro “Artsci”, promovido pela Cecilia Hedin-Pereira e a Maira Fróes, que são neurocientistas, professoras, doutoras. Isso acontecia dentro das instalações de Inhotim. Sempre um artista e um cientista falavam ou mostravam alguma coisa perto de alguma obra. Eu participei com o João Menezes, neurocientista e pesquisador da canabis medicinal, e foi uma experiência de troca e identificação entre artistas e cientistas, na qual eu pude falar da série “Blow Job” e mostrei o processo, a coisa do empirismo, de como eu cheguei, experimentando, soprando maconha até chegar naquela forma. Então eu fumei lá na instalação da Adriana Varejão. Algumas pessoas foram contra, mas algumas foram a favor e eu não pude evitar. Acendemos um baseado, fumei, fizemos a técnica ali, algumas pessoas sopraram também, imprimimos e todo mundo viu. Foi interessante, uma experiência muito enriquecedora, me interessa essa parte biomorfológica que aparece também na série Colônias. A pintura da sequência Fibonacci, por exemplo, são cinco pinturas que começam com duas pinturinhas 25x25cm, uma 50x50cm, outra 75x75cm e finalmente 125x125cm, e os nomes são respectivamente, um “1 diferente de 1”, “1 diferente de 1” novamente e as duas telas de 25x25cm, que são diferentes mas têm o mesmo nome só pra dizer que um é diferente de um, que nada na natureza repete igual, nem um gêmeo idêntico, univitelino, cada um anda pra um lado, fala uma coisa diferente, nada é igual. As outras são “Infestação”, “Circulação” e “Mistura”. Então pega coisa de Química, de Alquimia também, tem uma pegada assim de fractal.

Sequência Fibonacci (1≠1, 1≠1, infestação, circulação, mistura).

Você acha que existe um limite que separa o erotismo da pornografia? E se ele existe, em que parte você acha que o seu trabalho se encaixa?
Existe uma ideia geral do que é erotismo e o que é pornografia, mas não necessariamente quer dizer que seja a melhor forma de perceber. Eu acho primeiramente que todo amor sob vontade, todo sexo sob vontade é lindo, não existe sujeira e subversão, nada de horrível numa pessoa se masturbando ou num casal transando qualquer que seja o sexo, a forma ou a cor. É sempre lindo. Mas a gente é educado há gerações, séculos, a pensar que não. Mas isso é alguma conveniência de uma tentativa de manter o controle, por parte de religião, de governos que querem fazer a gente pensar que é culpado pela super população... Eu não sei exatamente no que se origina isso, seria uma analise muito profunda. Mas pra mim meu trabalho pode ser considerado erótico ou pornográfico, eu vejo simplesmente como uma coisa de bom gosto, não vejo mau gosto nessas imagens que eu produzo. Eu tento convencer na minha forma, formalmente, que é bom, que as imagens são belas, não acho que deva existir uma distinção disso para outras formas. Uma criança que veja pornografia, qual seria o problema? Eu acho que uma criança submetida a uma pressão sexual de um adulto é um absurdo, seria uma vergonha para esse adulto abusar de sua capacidade e seu conhecimento sexual para destruir a infância de uma criança, porque a criança não tá ligada nisso, a criança tá ligada em se relacionar como criança, correr, brincar, estudar, e mesmo que ela acesse alguma coisa, vai ter o caminho natural dela de descoberta. Ela vai perguntar pro pai, pra mãe ou pros amiguinhos... O que seria o limite que deve ser pensado ao se falar de sexo é o limite entre o abuso e a educação, é necessário ter acesso à informação para você poder falar sobre ela. É importante um pai, uma mãe conversarem sobre vida sexual, conversar sobre sexualidade, com os filhos e orientar não proibindo, mas mostrando o que é bom e o que não é bom. Acho que uma pornografia pode ser muito construtiva para uma educação uma vez que você possa explicar alguma coisa construtiva, não sei dizer de que forma. Talvez para um filho meu eu poderia dizer melhor, mais à vontade.

Detalhe da tela “De Stella Nova”, baseada num estudo do astrônomo alemão Johannes Kepler.

Tem uma pintura em progresso no atelier à mão livre que mostra uns fetos evoluindo pra bebês e então pra surubas, tem algo disso na exposição?
Não, isso é uma coisa que vai rolar ainda... Mas tem uma pintura chamada Supernova e uma que se chama De Stella Nova, que são dois conceitos associados ao Johannes Kepler, que flagra numa das suas observações do espaço o nascimento de uma estrela. Ela surge do enfraquecimento da luz gerada por uma explosão que gera milhões de astros. Então nessa imagem você vê como se fosse um óvulo no meio, e você vê como se ele tivesse sendo espetado por espermatozoides. Esses espermatozoides saem da cabeça de uma mulher, que é a primeira figura que aparece. Deitada, você vê o nariz, os seios, a barriga e as pernas abertas e uma figura masculina de frente. Essa posição que ela tá é uma posição tanto de ida quanto de volta, porque o único portal energético em que a gente pode adentrar o planeta é via buceta. É via um órgão genital feminino, não existe uma outra via que não seja a flor de carne da mulher. Para a gente compreender o planeta só pode ser por esse portal energético, então essa forma que ela tá deitada é tanto a forma de coito quanto a forma de parto, e os espermatozoides estão saindo da cabeça dela porque é essa forma que a gente assume em via terrestre. Olha só que interessante, são tantas, mas primeiro a gente é simplesmente uma ideia. Porque se você for transar com uma pessoa, principalmente sem camisinha, você sabe que você pode ter um filho, então a ideia de um filho já existe, ela está presente na cabeça dos dois. Então, antes, você é uma ideia na cabeça dos dois. Aliás, primeiro você é uma ideia no cosmos, aí você é uma ideia na cabeça de duas pessoas, aí elas se unem e você é dois, um espermatozoide dentre milhões e um óvulo. Aí eles se unem, o espermatozoide rompe a membrana do óvulo, entra e ali se desenvolve um ovo. E essa coisa de as partículas se reproduzirem – e vão se reproduzindo rápido –, e onde existe vida existe essa reprodução, todos os nossos órgãos, cada célula de cada órgão está se reproduzindo, senão a gente não duraria mais de um dia. Aí depois de você ser um ovo você é um embrião, um embriãozinho conectado numa placenta vivendo ali aquela vida intrauterina, sabe-se lá como é a percepção do tempo, sabe-se lá que tipo de endo-drogas ele produz no cérebro dele pra viver um estado de nirvana constante também. Aí você cresce mais e vira um feto, e este feto também tem a forma de vida dele, a forma de enxergar os eventos que acontecem lá dentro. Você é praticamente um peixe, você tá dentro d’água. Aí você rompe a membrana de novo, mas pro lado de fora, em direção à luz. Aí você ganha a luz, é um bebê e não vai lembrar da sua vida intrauterina. Aí você cresce um pouco mais, vira uma criança e nem lembra de quando era bebê. Depois você é um jovem e mal dá bola pra sua fase de criança, e quando adulto você lembra de alguns fatos dessa sua memória, dessas fases, de criança, jovem, bebê, mas quando fica velho você começa a perder ainda mais a memória. Então olha só quantas formas você já assumiu desde dois, ovo, embrião, feto, neném, criança, jovem, adulto, velho... Aí você morre e não tem mais a forma ou o corpo para interagir, mas você volta a ser uma ideia, por tudo aquilo que você produziu e quanto mais você produzir, quanto melhor você produzir, mais abrangente você vai ser. Entende essa ideia de o espírito abraçar o mundo ser mais uma forma que você assume, e você vai se manifestar dentro das pessoas.

Este bordado sobre tela “Todo homem é linha, todo encontro é nó” é uma aventura de de La Rocque em novos suportes.

Então eu ainda viajei, refletindo nas pinturas, que a gente pode se transformar numa cor. Isso apareceu numa viagem de Sálvia Divinorum há uns anos , eu tava na Bahia, fumei uma sálvia e me vi como se fosse uma cor, não tinha corpo era só um tom de laranja. A física se altera muito com a sálvia, a gente percebe as coisas com uma outra forma de percepção, é bem interessante. Então imagina essas cores transando, não tinha uma forma melhor de mostrar as cores transando do que com formas humanoides, então imagina se quando a gente morre a gente se transforma numa cor e essas cores vão transar com todas as pessoas que já morreram, todas as pessoas que já passaram pelo mundo: Bob Marley, Nabucodonosor, Leonardo da Vinci, sei lá...

A Cleópatra, eu queria transar com a Cleópatra...
Ah!! Sei lá! Ia transar com todas! Todas as figuras ao mesmo tempo como um ducto de energia que tem muitos fios interconectados, mas cada um de cada cor, intensidade de raio e vibração diferente. A gente é isso, a gente tem só um veiculo de fibras que gera som, se movimenta e interage e consome, porque a gente é eletricidade, a gente produz eletricidade, a energia do alimento transforma-se na eletricidade que permite que agora a gente esteja elétrico.

Às vezes as surubas evoluem para formas flutuantes, como nesta tela “Contagiante”.

A gente tem um monte de amigo que é artista de rua, você já colocou algum trabalho na rua?
Fiz essa história da Parede Gentil... A Barata de Ouro é um trabalho de arte urbana também, né? Ele é feito na rua, é completamente público, popular, acessível. Eu acho que o lugar da arte pública, da arte pop, é a boca do povo, o povo é que vai legitimar. As pessoas que vão falar disso, se identificar e passar adiante verbalmente ou, às vezes, até imitando, o plágio. Mas existe espaço para muitas ideias e acontecimentos na rua que não são meramente o grafite – não que seja mero, mas é o mais comum: fala “arte urbana” e você pensa no grafite –, mas eu fiz a “Barata”, o azulejo na Praça Tiradentes, teve o “Lamer lamer” em 2011, onde cobri a fachada externa inteira da Sala Siqueiros de Arte Pública na Cidade do México. Fiz várias coisas e vou fazer várias coisas ainda. Mas aconteceu um lance comigo quando era garoto, comigo e meu primo, o mesmo cara que fazia as revistas em quadrinhos comigo. Ele tinha 18 e eu 13, e ele saía pra pixar em tudo que era lugar aonde ia. Meu pai morava em Nogueira, que é uma cidadezinha de interior, distrito de Petrópolis, a gente ia até lá, e uma vez saímos na madruga de bicicleta e pixamos várias casas. No dia seguinte a gente tava na piscina, e aí, de repente, começaram a atirar flechas de fogo no caramanchão com telhado de palha que tinha na casa do meu pai. Aí eu fui lá e eram dois garotos que eu conhecia. “Porra! Qual é? Tá atirando flechas de fogo?”. “Pô! Tu pixou minha casa!”, e aí rolou esse trauma, aí eu meio que perdi a vontade de pixar... Meu primo continuou por um tempo, hoje ele faz mais grafite... Mas eu não sei, fiquei com um receio, uma coisa de não querer desagradar a ninguém, e eu não sou muito bom de dar presente, então eu tento não dar uma coisa que eu tenha certeza que a pessoa queira. Essa é minha forma de ver, mas eu respeito, admiro e tenho vários amigos artistas de rua. O grafite é o caminho da pintura também, hoje é legitimado e aceito em tudo que é instituição artistística tradicional, tá ai o Gêmeos no MOMA.

Escultura “Cocada” da série “Petshop”, feita com canudinhos de termoplástico.

Escultura da série ”Petshop” em frente à lambe-lambes da série “Colônias”.

Eu também tive a honra de ser imortalizado em fumaça na gravura “Capitão Maximiliano – O presença” da série Blow Job.

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