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O Museu Mais Deprimente do Mundo Fica no Iraque

Um prédio que confinava estudantes, dissidentes e nacionalistas curdos, assim como qualquer pessoa que por acaso atraísse a atenção das autoridades baathistas do norte do Iraque, virou ponto turístico.

por Orlando Crowcroft
05 Novembro 2013, 11:00am


Um manequim representando uma vítima de tortura, pendurado no teto acima da escrivaninha de Chemical Ali.

“Eles usaram madeira para que ninguém pudesse ouvir os gritos”, explicou Bawer, um curdo-iraquiano bem-vestido. Ele está perto da escrivaninha que pertenceu a Ali Hassan Al Majid — o braço-direito de Saddam Hussein, mais conhecido como Chemical Ali — e passa a mão na parede de painéis de madeira da sala.

Do outro lado do recinto, um manequim de gesso fica pendurado de um gancho no teto, com suas mãos amarradas atrás das costas e eletrodos saindo de sua cabeça até uma caixa de metal na escrivaninha. “E aqui”, diz Bawer, andando até o modelo e apontando diretamente para a virilha, “é onde eles amarravam os pesos, geralmente de 20 a 30 quilos. Às vezes mais”.

Muitas cidades têm monumentos ao passado, então, parece apropriado, considerando a história sangrenta do Curdistão Iraquiano, que a principal atração turística de As-Sulaymaniyah seja um museu de tortura. Escondido num subúrbio relativamente tranquilo e arborizado, o Amna Suraka é o antigo quartel-general da Mukhabarat, a agência de inteligência de Saddam Hussein, um prédio conhecido por todos os curdo-iraquianos. Até que combatentes curdos (conhecidos como Peshmerga) invadissem a prisão no começo dos anos 1990, o prédio confinava estudantes, dissidentes e nacionalistas curdos, assim como qualquer pessoa que por acaso atraísse a atenção das autoridades baathistas do norte do Iraque.


O exterior do museu, coberto de marcas de bala.

Quando o exército curdo tomou Sulaymaniyah no começo dos anos 1990 — Saddam estava um pouco mais preocupado com a Guerra do Golfo — e os últimos 800 soldados iraquianos da cidade se entrincheiraram na prisão. Depois de uma semana de bombardeios, os curdos conseguiram entrar no prédio e matar todos eles. Os tanques e artilharia deixados pelo exército iraquiano continuam enferrujando no pátio e o prédio coberto de marcas de balas agora serve como um monumento àqueles que perderam a vida no interior dessas paredes.

Aberto seis dias por semana e com entrada gratuita, a prisão foi deixada quase exatamente como era duas décadas atrás. O complexo é feito de três prédios principais: o primeiro é usado como administração (agora um museu da cultura curda), o segundo, uma antiga prisão bombardeada e o terceiro, dedicado a relembrar a tortura que teve lugar aqui.


Um tanque deixado para trás pelas forças iraquianas no pátio do museu.

“Esse cara ficou nesta cela por um ano”, explica Bawer, apontando um manequim de bigode posicionado na pequena sala de concreto. “Ele escreveu sua história nas paredes.”

Na superfície caiada estão linhas e linhas de inscrições curdas, assim como desenhos de borboletas em azul e verde. “Os lápis eram contrabandeados para cá e se tornaram um item de troca na prisão”, disse Bawer.

A história não acabou bem para o prisioneiro, ele explicou — mais tarde, ele foi levado para Bagdá e executado.


Manequins retratando soldados espancando as solas dos pés de um prisioneiro.

É impossível ficar insensível durante o passeio com Bawer, cada história é mais horrível que a outra. Cobertores velhos estão espalhados pelo chão das celas, os banheiros ainda têm cheiro de esgoto, ganchos e espinhos se projetam das paredes e teto e, dobrando um corredor, um homem aparece algemado a um cano, incapaz de se sentar. Vimos a sala onde os prisioneiros apanhavam nas solas dos pés e a sala onde as mulheres eram levadas para serem estupradas.

“Os soldados costumavam fazer rondas por Sulaymaniyah e quando viam uma garota de que gostavam, eles a traziam para cá”, disse Bawer.

Saindo das salas de tortura, cruzamos com várias estátuas brancas torcidas no meio do pátio de terra. Isso, disse Bawer, é um monumento aos estudantes executados naquele muro entre 1979, quando Amna Suraka abriu, e 1991, quando a prisão foi invadida e os prisioneiros libertados.


A sala dos espelhos.

A última parada do passeio é o memorial Al-Anfal, uma exposição dedicada aos milhares que morreram durante a guerra de Saddam contra os curdos, batizada com o nome de um capítulo do Corão que comemora uma batalha de seis séculos de muçulmanos contra curdos. Um corredor em forma de L foi coberto de cacos de vidro, cada um representando os estimados 180 mil curdos mortos por Saddam durante sua campanha.

O arquiteto dessa campanha, Chemical Ali, cuja escrivaninha me foi mostrada mais cedo, foi julgado por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, antes de ser executado em 2010.

Dentro da sala dos espelhos, a luz é uma mudança bem-vinda depois da escuridão das celas e das salas de tortura; os espelhos são um forte contraste com os sombrios manequins brancos de rostos contorcidos pela dor. Enquanto o resto de Amna Suraka é deixado no passado, a sala dos espelhos parece voltada para frente.

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