Dan Bilzerian, o playboy do Instagram, só começou graças ao dinheiro sujo do pai?

Parece que o mito dessa celebridade, o de ser um playboy independente que conseguiu sua fortuna sozinho e que vive a vida do jeito que quer, é apenas isso: um mito.

por Drew Millard; Traduzido por Marina Schnoor
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02 setembro 2015, 9:30pm

Dan Bilzerian é uma dessas celebridades cuja fama é difícil de entender. A melhor maneira de "sacar" o cara é se juntar aos seus quase 12 milhões de seguidores no Instagram e mergulhar nas fotos do barbudo desembarcando de um jatinho com mulheres de topless, sentando num trono ao lado de um leão, mergulhando no mar cristalino com um iate ao fundo e andando pensativo pela floresta com um fuzil. Tudo isso numa página só.

O feed dele é basicamente um pornô de estilo de vida para caras que medem o sucesso em termos de mulheres, armas e dinheiro – homens que fantasiam poder dirigir carrões, jogar pôquer profissionalmente e trabalhar como dublê, tudo que Bilzerian já fez. Ele é o tipo de cara que agenda uma aparição num clube e diz que isso é parte de sua campanha (falsa) para presidente. O tipo de cara que afirma ter caído tão pesado na farra que teve dois ataques cardíacos antes dos 35 anos. O tipo de cara que tenta tornar a própria cara uma marca registrada – literalmente (em 19 de junho, ele preencheu um formulário para registrar "um retrato de Dan Bilzerian num quadro retangular, com a palavra estilizada 'GOAT' na parte inferior").

Mas acontece que isso não é exatamente verdade. O pedido de marca registrada foi feito pela Blitz NV, uma empresa de responsabilidade limitada (limited liability corporation, LLC) registrada em Las Vegas. Segundo registros públicos, a Blitz NV, LLC é propriedade de Goat Works, LLC, localizada em Montana e propriedade de Dan Bilzerian (veja uma screenshot da empresa listada em Montana aqui). O que quer dizer que ele é o tipo de cara que tem uma empresa a qual é dona de outra empresa que tenta registrar a cara do próprio dono.

Imagem via Instagram de Dan Bilzerian.

Encurtando a história, a imagem pública de Bilzerian é baseada no fato de que ele tem muito dinheiro e gasta isso do jeito que um moleque de 14 anos faria. Em seu mundo – ou, pelo menos, em seu Instagram –, primeiro, você ganha o dinheiro; depois, consegue as coisas, fica famoso por ter coisas e aí transforma essa fama em mais dinheiro. Essencialmente, uma máquina de status perpétua que provavelmente é muito divertida de comandar.

Mas como essa máquina deu a partida?

Se você perguntar a Bilzerian, a resposta curta é o pôquer. Numa entrevista de 2013 para o Daily Dot, ele disse que começou a jogar profissionalmente na faculdade. "Fiquei falido depois do segundo ano. Juntei tudo que tinha sobrado, vendi algumas armas, transformei US$ 750 em US$ 10 mil, voei para Vegas e transformei dez mil em US$ 187 mil", ele explicou. No mesmo ano, o Daily Mail o descreveu como um "campeão de pôquer que vale US$ 10 milhões", um número que tem ecoado pela internet desde então.

E há, pelo menos, mais uma razão para Dan Bilzerian ter feito tanto dinheiro: ele tinha muito, para começo de conversa. E esse dinheiro não era exatamente limpo. Registros públicos revelam que ele é parte de uma rede bizantina de empresas, companhias e outras formulações de negócio, tudo projetado para proteger do governo os bens de seu pai (Paul Bilzerian, um criminoso do colarinho branco), apontando que a estrela do Instagram de 34 anos é a beneficiária de fundos estabelecidos pelo velho nos anos 90 – uma época em que o papis devia dezenas de milhões de dólares para os federais.

O sonho americano, né?

Imagem via Instagram de Dan Bilzerian.

Numa entrevista para o Wall Street Journal no ano passado, Dan Bilzeriam reconheceu que herdou algum dinheiro de um fundo de seu pai – um financista e criminoso que, em 1993, tomou uma multa de US$ 62 milhões da Comissão de Títulos e Câmbio dos EUA (SEC, em inglês) por fraude e que, em 2014, só tinha pagado US$ 3,7 milhões dessa dívida. No entanto, ele "se recusou a dizer quanto ou que papel isso teve no início de sua carreira". Na mesma entrevista, Bilzeriam informou que tinha feito US$ 50 milhões no pôquer em menos de um ano.

Ao falar com a revista ALL IN, Bilzerian – que, através de um representante, se recusou a comentar essa matéria – repetiu sua estatística. "Se você olhar para o pôquer como um esporte, como o basebol", ele comparou, "isso seria uma liga menor ou um jogador de basquete do colegial. Mas eu jogo com os maiorais. Vendo o pôquer como um negócio, eu diria que sou o Bill Gates. Ganhei 50 milhões jogando pôquer. Quem mais fez isso?"

Não Paul Bilzerian, com certeza. O homem fez sua fortuna nos anos 80 como um corporate raider, envolvido com várias táticas para aumentar artificialmente o preço de empresas das quais ele era acionista e conseguindo lucros imensos no processo. Em 1989, ele foi condenado por fraude e pegou 13 meses numa prisão federal.

Em 1991, Bilzerian sênior declarou falência no Estado da Flórida. Dois anos depois, o SEC afirmou que ele devia US$ 62 milhões, quantia que ele alegou não poder pagar porque não tinha dinheiro. Nas duas décadas seguintes, o SEC continuou a perseguir Paul Bilzerian num jogo louco de gato e rato financeiro e judicial. Só que o rato estava sempre um passo – ou cinco – à frente. Em seu momento mais extremo, essa dança levou Paul Bilzerian a declarar falência e depois ir parar na cadeia por se recusar a admitir que tinha mentido sobre suas finanças.

Deborah Meshulam, que coordenou o caso do SEC contra Paul Bilzerian, se recusou a falar sobre o status da busca da agência para recuperar seu dinheiro; além disso, um porta-voz do SEC também não quis comentar, citando o fato de que todas as investigações são particulares.

Ainda assim, um juiz da Flórida afirmou em 2001: "Entre 1994 e 1999, Bilzerian transferiu seus bens substanciais para uma estrutura complexa de propriedades, fundos no exterior, empresas e parcerias da família. Está claro que ele fez isso para insular seus bens dos credores".

A rede de bens criada por Paul Bilzerian nos anos 90 é extremamente intrincada. Se quiser, você pode ver vários documentos do SEC, como esse e esse, os quais são tão complicados que basicamente estão escritos em código. Se conseguir decifrá-los, você encontra algo assim: em 1995, Paul Bilzerian e sua esposa, Terri Steffen, estabeleceram o Paul A. Bilzerian and Terri L. Steffen Family Trust, parceiro limitado da Overseas Holdings Limited Partnership, que era propriedade de outra entidade chamada Overseas Holding Company. A Overseas Holdings Limited Partnership tinha participação na Cimetrix, uma empresa de software de Utah presidida por Bilzerian no passado. Assim, Bilzerian moveu dinheiro que tecnicamente não tinha, como quando a Overseas Holding Company "emprestou" US$ 90 mil à Bicoastal Holding Company, cuja única acionista era... Terri Steffen.

Enquanto isso, os formulários da Cimetrix no SEC apontam que, em 1999, a empresa pagou a Paul Bilzerian um salário de US$ 10 mil por mês. Ele era pago através da Bicoastal, não precisava pagar aluguel de seu apartamento, tinha uma pensão de US$ 1.500 por mês, assim como "reembolso por despesas em viagem". Enquanto isso, a Bicoastal frequentemente vendia suas ações para a Cimetrix, gerando fundos para Steffen.

Quando abordei a Cimetrix sobre o envolvimento da família Bilzerian na empresa, um porta-voz respondeu que nunca tinha ouvido falar em Paul Bilzerian.

Os documentos do SEC também mostram que Paul Bilzerian estabeleceu um fundo irrevogável para seus dois filhos, Dan e seu irmão mais novo, Adam (que também é um jogador de pôquer conhecido). Em 2001, um juiz apontou que esse fundo foi um dos muitos meios que Paul usou para "aparentemente esconder seus bens". Um julgamento da falência de Paul Bilzerian, também em 2001, indicou que, em 1997, o fundo dos filhos de Bilzerian valia aproximadamente US$ 11,96 milhões em ações da Cimetrix. Dan tinha direito à metade disso.

É difícil provar definitivamente que o fundo de Dan Bilzerian era formado por dinheiro pertencente ao SEC, embora todos os sinais apontem para isso.

"A transferência de bens para familiares por bem menos que seu valor de mercado é, há séculos, considerado 'emblema de fraude'", comentou Brad Miller, um ex-congressista americano da Carolina do Norte que trabalhou na reforma financeira do Congresso antes de a merda atingir o ventilador em 2008. "Quando o cara que tinha todos os bens de repente aparece pobre, mas sua esposa e filhos estão repentinamente ricos, ele diz: 'Não tenho onde cair morto, mas minha esposa e filhos são muito generosos e não querem me ver morando embaixo da ponte'.", explicou Miller, indicando que provavelmente alguma coisa muito suja esteja acontecendo. Nesse caso, Paul Bilzerian provavelmente estava escondendo dinheiro que ele não queria pagar ao SEC, dando isso para a esposa e colocando o resto num monte de empresas e fundos.

Apesar do fundo de Dan e Adam eventualmente ter sido obrigado a entregar, em fevereiro de 2014, quase 30% de seus bens para o SEC, um juiz garantiu a Dan Bilzerian permissão para vender US$ 1,7 milhão em ações da Cimetrix (veja um screenshot dos documentos da corte aqui). Logo depois disso, ele postou uma foto no Instagram com a legenda: "Comprei essa casa em Montana ontem; ainda não fui ver pessoalmente, mas as fotos são incríveis".

De abril de 2007 até janeiro deste ano, Dan Bilzeriam era listado como presidente, secretário, tesoureiro e diretor da Caligula Corporation, que foi objeto de dissolução administrativa pela Secretária do Estado da Flórida em 2013 por não apresentar seu relatório anual. A Caligula foi formada em 2005 por Terri Steffen, que, segundo documentos corporativos, entregou o papel principal para Adam, o irmão de Dan, em 2006. Um ano mais tarde, Adam deu a empresa a Dan. De acordo com o perfil da empresa na Flórida, em nenhum ponto ela pertenceu ao pai deles, Paul. No entanto, um documento de falência de 2008 da National Gold Exchange – uma empresa com que Paul Bilzerian fez negócio – se refere à Caligula como "controlada por Paul Bilzerian". Enquanto isso, um processo de 2010, aberto pelo ex-advogado da família Bilzerian contra eles, alegava que, em 2007, a Caligula era "propriedade de Dan (mas operava sob [Paul] Bilzerian)". A conclusão é que Paul Bilzerian estava usando a Caligula para conduzir seus negócios com segurança.

Segundo uma decisão de 2009 de um processo civil do SEC contra Paul Bilzerian, "[Paul] Bilzerian parece ter algum envolvimento com a Caligula"; por isso, a agência suspeitava que ele tivesse estimulado um processo por parte da Caligula contra a National Gold Exchange. Isso seria uma violação de uma decisão de 2001, impedindo-o, assim, de tomar ações legais sem a aprovação do tribunal. Além disso, o juiz destacou que a Caligula listava "ou a mulher de Bilzerian... ou seus filhos Adam ou Dan como presidentes, secretários, tesoureiros e agentes registrados da Caligula Corporation em vários momentos".

Nessa época, Dan, o ex-advogado de Paul Bilzerian David Hammer e a Caligula efetivaram uma parceria chamada Haircut Partners, LLP, que era uma tentativa de coletar dívidas da Bicoastal Holding Company, uma das empresas de Paul Bilzerian, forçando-a à falência involuntária. (Lembre-se, eles eram uma das entidades envolvidas com a Cimetrix.) Em 2010, um juiz escreveu numa decisão no tribunal da Flórida quanto ao mau uso da Haircut por Bilzerian: "o fato de a Haircut ser formada pelo filho de Bilzerian, a empresa dele e de seu ex-advogado, levanta suspeitas de que a Haircut seja uma parte interessada de Bilzerian". Quando liguei para Hammer pedindo para discutir as finanças da família Bilzerian, ele se negou veementemente a comentar.

São supostos esquemas como esses – assim como o fundo e a vasta rede confusamente conectada de negócios financeiros dos Bilzerian – que levaram um advogado a escrever que as finanças da família eram "como uma cebola: quanto mais camadas você tira, mais isso fede e te faz chorar".

É preciso lembrar que os truques financeiros dos Bilzerians não são um testamento de algum plano diabólico único da parte deles, e sim mais uma vantagem que as pessoas tiram de regras complicadas e regulamentações não fiscalizadas pelo governo no mundo das finanças. "Mesmo com esses números, é virtualmente impossível descobrir onde esse dinheiro está", frisou Edward Siedle, um ex-advogado do SEC que agora trabalha para investigadores particulares. "Wall Street mudou para um nível sem precedentes de sigilo."

Mas o papel de Dan Bilzerian nesse emaranhado de golpes é importante. Parece que o mito dessa celebridade, o de ser um playboy independente que conseguiu sua fortuna sozinho e que vive a vida do jeito que quer, é apenas isso: um mito.

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