VICE Sports

Mulheres Organizadas

​Sinalizadores, bandeiras e fogos de artifício: um papo com torcedoras organizadas de São Paulo.

por Felipe Larozza; ilustrado por Juliana Lucato
05 Junho 2015, 2:30pm

Ilustração: Juliana Lucato

Arquibancada é rolê de mulher, sim, e vai ser cada vez mais. O número de mulheres nas torcidas brasileiras tem aumentado a cada ano. A última pesquisa do IBOPE sobre a quantidade de torcedores aponta que, em 2003, cerca de 50% da torcida corinthiana, por exemplo, já era composta de mulheres. Nos estádios, essa realidade é diferente, e o aumento do número de torcedoras é lento e feito com muita luta e perrengue.

"As dificuldades vão muito além do preconceito: o estádio em si já é uma grande dificuldade. Vários jogos no interior não têm policial feminina para revistar e eles sempre acham que não tem mulher na torcida visitante. Eu me lembro de que, em São José do Rio Preto, não tinha porta no banheiro e que, em Limeira, a privada era um buraco no chão", me explica Monique Torquetti, estudante de jornalismo e administradora do blog Fala Torcedora! que reuniu ao longo de muitos anos diversas entrevistas com as mulheres da arquibancada.

Apesar do crescimento, as organizadas continuam controladas quase que exclusivamente por homens; além disso, ainda existem algumas convenções em algumas torcidas que impedem que as mulheres façam parte do departamento de bandeiras/patrimônio e impondo a proibição delas em algumas caravanas. Já a presença de mulheres na presidência de torcidas é quase nula.

"Na Esquadrão do Quinze de Piracicaba, eles diziam que tinha caravana que não podia ir, que não podia colocar as bandeiras, e aos poucos a cultura foi mudando. Fomos ganhando espaço na torcida a ponto de chegar em um momento de igualdade com os meninos. Hoje, abrimos a sede, guardamos material, subimos no alambrado para colocar as faixas, mas, quando íamos colocar a bandeira do Comando Feminino, eu não deixava nenhum homem colocar. Se é do Comando Feminino, o Comando Feminino vai colocar", me conta Monique que, além de jornalista, é integrante da organizada do Quinze de Piracicaba. O Comando Feminino é, obviamente, a facção feminina da torcida.

Conversei com algumas torcedoras de diferentes times sobre isso.

Leonor Macedo, torcedora do Corinthians. Foto: Felipe Larozza/VICE

VICE: Como o futebol começou na sua vida?
Leonor Macedo: Eu sou de família corinthiana, mas meus pais nunca se ligaram muito no futebol. Meu tio sempre foi muito corinthiano, cresceu do lado do Pacaembú.

Um dia, ele resolveu me levar ao estádio: eu tinha sete anos e, dali em diante, me apaixonei pela torcida e pelo clima. Aquilo virou pra mim uma Disneylândia, um lugar onde eu podia ser criança. Tomava sorvete, xingava um pouco, cantava. Ali eu resolvi que não sairia mais do estádio.

Como você entrou na organizada?
Quando você frequenta muito o estádio, você acaba adquirindo superstições: a nossa era ver o jogo sempre no mesmo lugar; com isso, eu comecei a conhecer a galera da torcida. Eu passei a frequentar a organizada no final da década de 90.

As pessoas começam a ir para a torcida organizada por conta da festa, mas não é por isso que permanecem; senão, é só comprar a camiseta e ir pro jogo.

Eu fiz parte da Diretoria de Comunicação da Gaviões; nessa época, fizemos a rádio livre, tínhamos informativos semanais e respondíamos para a imprensa.

Toda vez que chamavam a gente de marginal, eu mandava e-mail para o jornalista.

Eu saí da torcida: eu não respondo oficialmente, não defendo e não critico. A torcida perdeu sua função social; por isso, eu saí.

A torcida nasceu para atuar no clube, defender os interesses do clube e defender a festa na arquibancada; hoje, não fazem nada disso. O torcedor comum não tem o poder de se mobilizar e ir lá cobrar o clube. A torcida hoje é uniformizada, e não organizada.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Como era fazer parte da organizada e ser mulher?
Eu ficava nas reuniões quieta, ouvindo; às vezes, levantava a mão para falar. A mulher tem de provar que sabe o dobro. Tem de saber escalar o time, quem foi o primeiro presidente, o estatuto do clube, e os caras não sabem; depois de muita luta, teve um avanço e eu passei a ser chamada para participar.

Eu escrevo bem e tenho boas ideias; então, escrevia as notas oficiais, pensava estratégias, organizava protestos. Se eu fosse homem e briguento, eu conseguiria espaço mais rápido; se eu tivesse socado a cara de alguém, teria sido mais simples.

Os homens falam que mulher é segunda opinião, [que] mulher não pode carregar o bandeirão e que não pode agitar bandeira, mas as mulheres agitam bandeiras – somos subversivas. Elas podem até ouvir merda, mas vão fazer.

Um dia, estavam limpando as bandeiras na quadra e eu queria ver como elas eram, as mais pesadas. Alguém tirou uma foto. Tem amigos meus que falam até hoje: "Se eu tivesse visto, tinha mandado você baixar a bandeira". Se tivesse pedido pra eu baixar, ia tomar uma bambuzada na cabeça.

Não é só a organizada que é machista – o futebol é misógino, homofóbico e tem tudo de bom e ruim que a nossa sociedade tem.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Você tem ou teve medo de frequentar o estádio?
As mulheres têm ido cada vez mais ao estádio; o que mudou é que antes elas iam para acompanhar o marido, o filho, e hoje elas vão sozinhas. A mulher venceu o medo de ir ao estádio; se do portão pra dentro ela vai sofrer alguma represália por ser mulher, é outra história. Mas elas estão indo.

Qual é a participação das mulheres na torcida?
Nunca tivemos uma presidente mulher na torcida organizada nem no clube. Mulher na diretoria até existe, na parte social ou no departamento feminino.

O departamento feminino não tem regras claras: elas normalmente cuidam da parte social e de festas. Não tem sentido um departamento feminino, a não ser que ele tenha o objetivo de pensar nas mulheres dentro da torcida.

Acho que todos deveriam conversar juntos: você não é mulher nem homem – é torcedor de futebol. Um dia, espero que a gente consiga falar de futebol sem dividir gêneros.

Vanessa Caramelo, torcedora da Independente. Foto: Felipe Larozza/VICE

VICE: Quando começou o futebol na sua vida?
Vanessa Caramelo: O São Paulo me escolheu, meu pai era santista. Ele faleceu em 95, e, mesmo assim, eu não conseguia gostar do Santos. Eu [me] lembro do São Paulo ganhando em 92 e 93, mas eu ainda não curtia muito futebol; quando eu cresci, eu tinha essa lembrança: "Ah, o São Paulo era aquele time que ganhava!". Decidi torcer para o São Paulo para ser do contra.

Quando você começa a frequentar o estádio?
A primeira vez que eu fui, eu já fui com a Independente aqui de Sorocaba. Eu fiquei sabendo da caravana por um anúncio no jornal; naquela época, o acesso ao estádio para quem mora longe era complicado: a organizada foi um meio que eu encontrei.

O primeiro jogo é sempre marcante. Eu tenho o ingresso até hoje.

Quando eu fui na primeira vez ao Morumbi, à noite, mais de 60mil pessoas, a bateria, sinalizadores, fumaça, bandeira, bandeirão... muito diferente de agora.

Como foi isso tudo sendo mulher?
Acho que a primeira coisa é a mulher não deixar de ser mulher quando vai pro jogo. A partir do momento em que você passa a ter uma postura de homem para tentar ser aceita, você também vai ter de responder da mesma forma que os homens. Eu vou pro estádio porque eu gosto do São Paulo e de futebol.

Nunca tive grandes problemas. Encontrei os mesmo problemas que encontro em outros lugares, mas fiz grandes amigos na torcida.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Existem regras claras proibindo as mulheres de irem em algumas caravanas?
Quando é um jogo de risco, as meninas são orientadas a não irem por segurança. Sabemos dos riscos das caravanas, fora ou dentro do estádio.

Fora isso, participamos ativamente com ideias e, na arquibancada, podemos gritar e cantar.

Eu não fico triste de não poder ir a esses jogos, acho até uma decisão coerente não colocar as meninas em risco; é lógico que, por fazer parte da organizada, tenho vontade de ir a esses jogos, porque eles têm uma adrenalina diferente. Mesmo sabendo do risco, quero ir pela adrenalina, mas, quando você para e pensa um pouco, não vai.

Você já teve medo de ir a algum jogo?
Tenho mais medo em clássicos, pois pode acontecer alguma coisa antes ou depois do jogo; dentro do estádio, é mais difícil.

Qual é o papel das mulheres na torcida?
Por muitos anos, eu organizei caravanas saindo aqui de Sorocaba, mas, depois de um tempo, você vai perdendo a vontade. Quando eu tinha 18 anos, eu relevava e continuava; hoje em dia, eu não aguento mais ouvir que não posso fazer isso, porque sou mulher.

Eu fazia porque eu gostava: é muito bom levar alguém ao primeiro jogo da vida, saber que você encheu um pouco mais a arquibancada. Ninguém gosta de arquibancada vazia. Nessa situação eu não me comporto como homem. Sou mulher. Então, hoje, eu só faço parte da organizada: sou sócia, não falto nos jogos e tenho meu ingresso garantido.

Foto: Felipe Larozza/VICE

O que precisa melhorar para ter mais mulheres:
Em geral, para todos poderem ir ao estádio, falta estrutura, falta que as pessoas entendem que o futebol é um evento esportivo, social e cultural. Tem de ser um evento para todo mundo, para a família.

Falta investimento público para que o evento seja mais social e para a família. Falam que o futebol de domingo é um evento familiar, mas que família consegue pagar R$ 100 por ingresso? O futebol não é pensado como evento social. Uma família não consegue ir para o estádio. Colocam a culpa na organizada, falam que os torcedores fazem vandalismo, arruaça, e por isso a família não frequenta o estádio. Eu acho que não: a família não frequenta por conta do valor do ingresso.

No campeonato paulista, a média ficou em R$70 - R$ 80. E, mesmo assim, eu fui ao jogo contra o Corinthians em Itaquera. Perguntei onde era o banheiro, me disseram: "Lá embaixo". Cheguei lá e eram dois banheiros masculinos. Voltei e falei pra ele: "Viu? Sabe o que acontece? Eu sou mulher". Me indicaram um banheiro químico, e, só depois de muita argumentação, eles abriram o banheiro de deficiente para as mulheres.

Quando penso na mulher ocupando um espaço cada vez maior, penso que não vamos ocupar o espaço dos homens, mas teremos o nosso espaço.

Barbara Bradley, torcedora da Mancha Verde. Foto: Felipe Larozza/VICE

VICE: Quando você começou a gostar de futebol?
Barbara Bradley: Meu pai é muito fanático; então, desde muito pequena, ele levava eu e minha irmã para o jogo. Meu primeiro jogo, eu tinha seis anos; por um tempo, essa obrigação de ir aos jogos com ele me fez parar de frequentar o estádio. Com 14, 15 anos, eu passei a ir por vontade própria.

Não tive escolha no meu time, aqui em casa é obrigatório ser Palmeirense.

Quando você começou a participar da torcida organizada?
Com 18 anos, eu comecei a tocar bateria na escola de samba da Mancha; nesse momento, a história se inverteu e eu apresentei para o meu pai a organizada e a escola de samba.

Como é ser mulher e fazer parte da torcida?
É como em todo lugar. Tem cara que mexe e tem cara que não mexe, mas nunca me faltaram com o respeito.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Qual é a participação das mulheres hoje na torcida?
Na Mancha, não tem uma torcida feminina, mas tem muitas mulheres que frequentam. O material de bandeiras e de torcida é cuidado pelo patrimônio, e não existe nenhuma mulher que faça isso.

Em algumas caravanas para jogos com muita rivalidade, os homens orientam as mulheres a não irem.

Você já teve medo de ir ao estádio?
Medo eu nunca tive, mas tem jogos em que você toma mais cuidado, e em outros os meninos orientam a não ir, porque é perigoso.

Foto: Felipe Larozza/VICE

O que você acha que poderia ser feito para ter mais mulheres no estádio ou na organizada?
As pessoas preferem sempre falar das tragédias. Por exemplo, na Mancha, agora está tendo doação de alimento, produtos de limpeza, doação de sangue, mas ninguém sabe que isso acontece e acham que é só a parte ruim.

Todos os jogos em São Paulo e os que eu posso ir fora, eu vou – se meu trabalho e meu dinheiro permitirem, eu vou.

Hoje em dia, 90 por cento dos meus amigos são de lá, meu namorado... é minha vida, não tem o que fazer. Todo mundo que chega é bem recebido.