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Os Pulos dos Zumbis

De festa a serviço do Brasil à "festa que ironizava excesso de leis em SP", tudo não passou de uma "falha". Palavra do Thomas Haferlach, idealizador da Voodoohop - que hoje completa dois anos com "grande celebração de rua".

por BRUNO B. SORAGGI
02 Setembro 2011, 5:16pm

De festa a serviço do Brasil à "festa que ironizava excesso de leis em SP", tudo não passou de uma "falha". Palavra do Thomas Haferlach, idealizador da Voodoohop – que hoje completa dois anos com “grande celebração de rua”. Beleza que essa história já é “passado” -- tanto que ele nem curte mais falar sobre isso -- mas, caso não tenha dado pra ler, explico: foi taggeado assim que o festival iniciado por esse alemão no bar do Netão (porém hoje mambembe) chegou ao conhecimento da família enfurnada brasileira. Não que um highlight desse já não seja suficiente pra fazer qualquer dito boêmio paulistano querer expandir seus horizontes, por pelo menos uma noite, para além da Vila Madalena 'Merç(d)a da Literatura' ou do Centro Põhan-o-Copan!, mas, enfim, garante o gringo que não era esse o objetivo.

"A gente nunca foi contra as leis. Nunca foi uma festa clandestina, mas sim alternativa, baseada na ideia de que a noite e a festa são rituais pra se livrar dos pesos da semana." Daí o nome africanizado, a opção de você poder ir fantasiado pra ganhar desconto (ou de bicicleta pra entrar de graça), a bebida em conta e chance real de se raiar o dia zumbi tendo visto gente nua. Se não na sua cama, na pista -- vai dos pulos de cada um.

A saber: eles foram sim multados, chegaram a diminuir a divulgação, mas nunca fechados -- graças aos deuses. "Como a gente é itinerante, não tem como nos fechar. Foi uma multa pequena, pro proprietário do lugar -- ele tava no caminho da legalização, mas não tinha falado com a gente. Na verdade a prefeitura não tem nada contra a gente, eles até gostam da nossa proposta de trazer vida pro centro. Só tiveram que responder por causa daquela matéria, que deixava a entender que a prefeitura deixava aquilo acontecer. Mas nem foi grande coisa", lembra. Tanto que, em 2010, foram uma das atrações do circuito oficial da Virada Cultural, da paralela em 2011 e, nesta sexta-feira, abrem o "Mês da Cultura Independente" [clica aí e vê quem por acaso tá apoiando]. Enfim, foi isso -- chega que não quero irritar alemão.

A de hoje será a primeira edição da Voodoohop nesse segundo semestre, depois de um retiro "para o velho mundo", quando chegaram a tocar em Berlim. No line-up, entre outros, o próprio Thomas(h), Rubens Peter Longo (SP), Souksouklow (Paris), Say Hooo ("Berlim/Floripa"), Felix Kubin (Alemanha) -- mandando ver num "som mais futurista, experimental -- vai ter até um sintetizador" --, dança na sacada e bloco carnavalesco. Ou seja, mais uma noite de curtição adoidada (aka sem o óbvio de grande parte do circuito paulistano -- que todo mundo sabe onde encontrar isso). "Às vezes a gente faz uma pista com a possibilidade de qualquer um ir lá e ligar o iPod, mas a ideia é surpreender. Não sendo aquela coisa que se escuta todo dia, dá pra tocar qualquer coisa. Quanto mais variado melhor, mesmo uma música brega tocada num momento certo pode ser legal".

Antes, nos primeiros seis meses de 2011, também estiveram no Rio de Janeiro, além da Rua 7 de Abril, Bexiga, "antigo prédio do Masp" e num sítio (natureza a 20 min de carro de São Paulo), com lotação média de "500 pessoas", calcula o Thomas. "Já chegamos a mil, quando trouxemos atrações internacionais". Mesmo quando isso acontece, os preços não chegam a ser exorbitantes. "Cheguei a São Paulo [depois de largar seu emprego na Amazon, pretendia passar algum tempo na América do Sul, mas acabou se instalando por aqui] e achei a noite bem interessante. A Augusta, esse anarquismo, as ruas lotadas 24 horas. Mas achei que a noite de música mais eletrônica e alternativa estava muito elitizada por causa das entradas caras, bebidas caras. Essa coisa de ter que entrar no clube e não poder sair sem pagar a comanda."

A ideia é continuar no desapego às sedes ("a gente nunca teve problemas com o Psiu! porque costumamos fazer as festas em lugares não residenciais") e elemento surpresa (a divulgação é à boca pequena, e os endereços costumam ser revelados só de última hora, tipo uma seleção "pras pessoas que realmente estiverem a fim de ir -- não aquelas pessoas que vão pra balada porque não têm o que fazer"). "A gente agora tá muito interessado na Moóca, que tem muitos galpões. Adoraríamos fazer uma festa lá, mas não temos nenhum lugar definido ainda. Uma outra coisa que a gente tá pensando em fazer é num parque de diversões infantil", revela.

Diz o site: "Voodoohop cria eventos artísticos atípicos com clima hedonista". Moral da história: se você não lê a VICE, não vá à Voodoohop. Vai ficar chocado, achar uma das coisas mais toscas de São Paulo. E poder falar que é porque "o ar condicionado de lá não funciona direito". Ninguém vai te julgar.

BRUNO B. SORAGGI
FOTOS: CORTESIA ARIEL MARTINI (AS MARCAS D'ÁGUA SÃO CULPA DELE TAMBÉM)

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