O Recife Colocou seus Últimos Espaços Públicos à Venda e Parte da População Local não Está Gostando Nada Disso

Demolição ilegal para a construção de 12 torres em local privilegiado da cidade fez com que grupos convocassem movimento de ocupação via redes sociais.

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mai 28 2014, 6:08pm

Crédito: Direitos Urbanos.

Na noite de quarta-feira (21), construtoras imobiliárias começaram silenciosamente a demolição ilegal de antigos armazéns no Recife, localizados em uma área de aproximadamente 101.754 m² no Cais José Estelita, centro antigo da cidade. O plano é construir o "Novo Recife", um complexo de 12 prédios com cerca de 40 andares erguidos em pleno cartão postal da capital pernambucana.

A venda do terreno foi feita de forma irregular e, em dezembro de 2013, a Prefeitura do Recife aprovou o projeto imobiliário sem uma audiência pública que consultasse a população e sem plano urbanístico exigido por lei. A intervenção prevista muda completamente a paisagem do local e traz à tona questões de mobilidade urbana e impactos sociais e ambientais. Para tentar barrar a ação, ativistas da cidade fundaram o Ocupe Estelita, grupo que pretende discutir alternativas para a revitalização do espaço público de forma planejada e com benefícios à sociedade.

Fazendo ouvido de mercador para as reivindicações que não concordam com o projeto da maneira como ele está colocado, as construtoras começaram a derrubada dos armazéns durante a madrugada. A história pegou fogo quando fotos e vídeos da ação foram compartilhados nas redes sociais, mobilizando grupos para que a ocupação do local fosse imediata.

A recepção não foi nada amigável e os primeiros manifestantes que chegaram ao local foram recebidos com truculência e agressão pelos seguranças armados das empreiteiras. Estava tudo tão obscuro que motos com capangas e placas dobradas para evitar identificação chegaram para reforçar a repressão. Quem tentou filmar a cena teve o celular quebrado e arquivos deletados.

Madrugada adentro, manifestantes e imprensa se concentraram na frente do local e um grupo com cerca de 12 pessoas conseguiu acampar no interior dos armazéns. O policiamento se intensificou e quem tentava levar água e mantimentos era barrado. Podia sair, mas não podia entrar. “Os seguranças estavam impedindo a entrada e dificultando a comunicação com os manifestantes acampados do lado de dentro”, relatou o jornalista e músico Germano Rabello.

Enquanto isso, as redes sociais pipocavam com notícias do local a todo instante e o assunto esteve entre os trending topics do Brasil.

A confusão se prolongou até a tarde da quinta-feira, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN, embargou a demolição das edificações do Cais José Estelita. O documento emitido ressalta o "poder geral de cautela do Iphan quanto à preservação do patrimônio arqueológico".

O Ministério Público Federal também se pronunciou condenando a ação “agressiva e irregular, feita sem Estudo de Impacto Ambiental (EIA), Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) e Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV)”.

As máquinas foram retiradas do local, mas a medida do IPHAN é provisória. Enquanto isso, a ocupação permanece firme com o pessoal acampando e dando um exemplo de resistência da sociedade civil. O cais José Estelita recebeu, nos últimos dias, grande movimento de pessoas organizando alimentação com opções vegetarianas para os acampados, oficinas culturais, projeção de filmes, shows e palestras. Artistas como Marcelo Jeneci, Otto, Karina Buhr e José Celso Martinez também demonstraram seu apoio ao movimento postando fotos com as hashtags #ocupeestelita e #resisteestelita. A causa está crescendo e ganhando apoio, resta saber até onde o capital e interesses políticos vão definir o rumo de uma cidade. 

LINKS:

Direitos Urbanos

Movimento Ocupe Estelita

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