Luiz Ruffato

Luiz Ruffato é um escritor nascido em Minas Gerais que já teve mais empregos do que eu e você (e talvez seu pai também) juntos. E essa montanha de experiências profissionais influenciou sua obra de um jeito muito amplo.

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fev 6 2010, 12:00am

Fotos por Tiago Molinos



Luiz Ruffato é um escritor nascido em Minas Gerais que já teve mais empregos do que eu e você (e talvez seu pai também) juntos. E essa montanha de experiências profissionais influenciou sua obra de um jeito muito amplo. Ele consegue tratar do universo dos trabalhadores urbanos sem a coisa desandar pro caricato. Se você ainda não conhece a obra dele, pode começar por Eles Eram Muito Cavalos, um romance formado por contos curtos entrecortados que ganhou prêmios e foi traduzido pro francês, italiano e também saiu em Portugal. Mas não necessariamente, claro. Ele tem livros de contos também, como sua estreia em 1998, Histórias de Remorsos e Rancores ou Os Sobreviventes, de 2000, e de poesia—As Máscaras Singulares, de 2002. 


Ruffato também escreveu a fundo sobre as antigas revistas literárias do Brasil e organiza coletâneas, como Entre Nós, que traça um painel de como a literatura brasileira dos últimos 150 anos tratou da homossexualidade; 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira e + 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira; além de livros de ensaios e resgate, como a compilação dedicada a Luiz Fernando Emediato, um cara que durante a ditadura militar escrevia contos com títulos do tipo De Como Estrangular um General. Em 2005, iniciou a série em cinco volumes Inferno Provisório, com os livros Mamma, Son Tanto Felice, O Mundo Inimigo, Vista Parcial da Noite e O Livro das Impossibilidades. O terceiro da lista sai em abril na França. As experiências de linguagem que ele faz são boas mesmo. E já que ele tem toda essa atuação na literatura, achei que seria legal falar com ele mais sobre algumas coisas pertinentes ao meio literário brasileiro atual do que discutir minúcias da sua obra que, afinal de contas, você vai ler. 

Vi uma lista de empregos diferentes que você já teve que é meio impressionante. Você pode me falar um pouco disso?
Essa lista na verdade tem um sentido, porque a minha mãe era de uma cidade pequena perto de Cataguases, chamada Rodeiro, e ela era analfabeta, e meu pai, semianalfabeto, era de outra cidade próxima. Quando se casaram, resolveram morar em Cataguases, porque, embora fosse uma cidade de interior, há 100 anos tem indústria de tecidos. E então eles resolveram mudar para lá pra tentar dar uma melhor condição de vida pros três fi-lhos—eu sou o caçula. E desde cedo, dos seis anos de idade, eu trabalho. Fui ajudar meu pai, primeiro como ajudante de pipoqueiro—ele era pipoqueiro—, depois disso fui caixeiro de botequim, vendia cachaça, ovo cozido e cigarro picado. Depois fui trabalhar como balconista de um armarinho e mais tarde como operário em uma fábrica algodão hidrófilo—que é esse algodão usado pra tirar esmalte, as mulheres conhecem. Depois disso fui fazer tornearia mecânica no Senai. Trabalhei como torneiro mecânico em Juiz de Fora. Aí entrei na faculdade, fiz Comunicação. Desde o primeiro dia de aula comecei a trabalhar com jornal, mas depois disso tentei largar o jornalismo—foi quando eu estava em São Paulo e voltei pra Juiz de Fora e fui sócio de uma assessoria de imprensa que faliu. Então fui ser gerente de uma lanchonete, depois vendedor de livros ambulante, aí finalmente voltei a ser jornalista, vim pra São Paulo e larguei o jornalismo em 2003 pra me dedicar somente à literatura. Foi mais ou menos essa a minha trajetória profissional.

Na sua literatura a gente vê que você sempre fala da vida do trabalhador urbano comum. Isso é por causa dessa sua formação?
Não sou um daqueles escritores que quando tinha seis anos de idade já pensava “Ah, quero ser escritor”. Essa decisão de me tornar escritor vem muito mais tarde e de uma maneira muito pragmática, porque, quando entrei na faculdade, já tinha 18 anos, e comecei a conviver com pessoas que tinham uma boa formação cultural, que liam, que faziam poesia, que tinham uma compreensão bastante ampla do mundo, então comecei também a tentar me inteirar com esse pessoal. Certa vez me peguei pensando na possibilidade de também escrever alguma coisa: “Pô, se eu for escrever alguma coisa, sobre o que vou escrever? Vou escrever sobre o que eu conheço”. E o que eu conheço é a vida operária, porque afinal de contas sempre morei em bairro operário, convivi com operários—fui operário—, então era meio lógico que eu fosse trabalhar com o universo do trabalhador urbano. Fui então me dedicar a estudar um pouco esse assunto, e me deparei com o fato—para mim foi uma grande surpresa—de que não havia literatura sobre o trabalhador urbano no Brasil. Havia, eventualmente, algumas representações do trabalhador urbano, mas em geral esse trabalhador urbano era militante político, e isso não me interessava, porque para mim era falsear demais o que eu via. Então fui tentar estudar para poder escrever exatamente sobre isso. Encontrei muito fácil sobre o que eu ia escrever, com uns 20 anos eu já sabi,mas o como ia escrever sobre isso demorou muito. Meu primeiro livro só foi publicado quando eu tinha 37 anos. Então demorei mais ou menos uns 15 anos pra descobrir como escrever sobre isso.

Eu estava lendo uns artigos que você escreveu sobre as revistas literárias dos anos 70—revista Escrita, revista Ficção e tal. Eram revistas que você conheceu na época e foram importantes na sua formação, ou foram coisas que você foi ver depois?
Quando entrei na faculdade virei um rato de biblioteca, porque eu não tinha grana para comprar livro. E a biblioteca da universidade onde estudei, não sei por que cargas d’água, adquiria essas revistas da época, com uma defasagem de seis meses. Mas não de todas, claro. Como eu militava nesse ambiente do pessoal estar escrevendo e fazendo literatura e tudo, acabava pegando as revistas emprestadas. Então a minha formação literária é estranhíssima, porque vai da literatura contemporânea da época, para trás. Quer dizer, primeiro tive um contato direto com a literatura que faziam no momento que eu estava vivendo, essas revistas e todos os livros de literatura dessa década de 70—quer dizer, isso já estou falando da década de 80, mas a diferença de literatura era pequena, cinco ou seis anos de diferença. O livro era publicado, aí três, quatro, cinco anos depois eu comprava esse livro no sebo. Me formei lendo literatura contemporânea. Daí então que fui compreender, através das páginas das revistas literárias, que existia também uma tradição. Isso foi muito interessante para mim, quer dizer, sem querer, por razões absolutamente fortuitas, fiz o caminho que acho que deveria ser feito: primeiro ter me encontrado com a literatura que falava na minha linguagem, do meu tempo, me mostrava caminhos que eu poderia utilizar para mim mesmo, e depois que fui fazer o caminho para trás.

E quais foram os autores que você conheceu e que te marcaram nessa época?
Olha, nessa época eu lia de tudo. Os autores que me fascinavam na época eram os contemporâneos, então, por exemplo, me marcou muito na época o A Festa, do Ivan Ângelo—levei um susto, pensei, “Puxa vida, pode escrever desse jeito”. Outro romance, Essa Terra, do Antônio Torres, ou o Zero, do Ignácio de Loyola Brandão, a literatura do Rubem Fonseca—que naquele momento escrevia só contos—, o Sérgio Sant’Anna com os livros de contos também, ou seja, foram autores que estavam naquele momento e que me abriram muito a percepção. Evidentemente que alguns me mostraram caminhos que eu acabei tentando perseguir um pouco, e outros mostraram caminhos possíveis também. Então, assim, intimamente fui marcado por esse tipo de literatura. Também foi quando descobri—e aí embora não seja contemporâneo, mas as edições eram quase contemporâneas—o Faulkner, que estava sendo publicado aqui na época pela Nova Fronteira em uma coleção que acho que chamava Grandes Traduções. Tive contato com Faulkner e levei outro susto. Pensei, “Puxa vida, isso aqui é muito interessante”. Então foi meio por acaso que fui tomando conta desses autores. Evidentemente, com o passar do tempo, fui descobrindo outros. Daí acho que você acaba se filiando a uma família. Acabei descobrindo que tinham autores que me falavam mais do que outros.

Voltando um pouco para as revistas literárias, elas eram feitas de maneira independente e tinham umas tiragens consideravelmente bem grandes. Você acha que esse tipo de coisa faz falta hoje em dia? Digo isso porque li que você é um cara que não é muito ligado em tecnologia.
Olha, acho o seguinte: a gente tem que entender o tempo em que a gente vive. Por exemplo, revistas como essas da década de 70—ou como as anteriores, também, como havia durante a década de 50 e 60, uma chamada Leitura, que era uma revista que vendia em banca e atingia 30, 40 mil exemplares, que é um negócio impensável mesmo na década de 70. Então é assim, nós temos que entender que vivemos um outro momento e uma outra realidade. Agora, acho que seria fundamental existirem revistas realmente literárias, que se preocupassem em publicar autores e críticas no momento que isso está sendo feito, porque servem de balizadores. O grande problema da internet, acho, é que ela é o céu e o inferno. Eu, por exemplo, não é que eu tenha restrição à internet, muito pelo contrário. Sou um grande usuário dela. Inclusive a linguagem dos meus livros, embora sejam em papel, dialogam o tempo todo com o hipertexto. Então quer dizer, não é que eu tenha restrição à tecnologia. O grande problema é que as pessoas realmente não sabem usar a tecnologia. Então o que acontece? Uma revista literária poderia servir de baliza para quem está começando, ou para um leitor neófito. O problema é que se você entra na internet hoje, e não tem muito repertório, você não sabe distinguir exatamente o que é literatura e o que não é. Por quê? Porque ali tem uma quantidade imensa de informação—essa informação bruta—que te deixa sem esses parâmetros mínimos. As revistas, nesse caso, serviam um pouco para te guiar nessa selva. Na época também se escrevia tanto quanto hoje. Só que existiam revistas que mais ou menos diziam que caminho dava para seguir e quais não. Hoje, pela internet, é impossível você saber disso.

Tenho a impressão de que, das coisas que eu vi, do que se costumou chamar de geração 90, o nível era muito baixo. Tem alguns autores interessantes, mas a maioria é muito ruim. Você acha que isso tem a ver? Como não se tem mais parâmetro entrou numa coisa de que tudo vale.
Olha, isso sempre existiu. Não é uma coisa do nosso tempo. Tenho as coleções das revistas, não só da década de 70, mas anteriores também, e grande parte do material publicado nas páginas das revistas são de autores que você nunca ouviu falar e nem eu mais. São autores que morreram e é assim mesmo. Por quê? Porque é da quantidade mesmo. Pra mim, isso não é um reflexo da internet, é um reflexo da própria maneira que a literatura se coloca no mundo. Evidentemente que hoje a falta, a distância que existe entre quem escreve e quem lê é muito grande. Acho que hoje temos uma quantidade imensa de escritores que escreve sem nunca ter lido, o que para mim é uma coisa meio paradoxal. Seria o mesmo que você querer se consultar num médico que nunca exerceu a Medicina. Esse fato existe, com certeza, mas essa coisa da qualidade da literatura, eu não acho que ela tenha a ver diretamente com a questão da internet, ou mesmo com a falta de uma revista literária, mas sim com o próprio ser da literatura. Ela é assim. Muita gente publica, muita gente escreve, mas pouca gente faz uma literatura que pode ser considerada de qualidade. Mas isso também é muito relativo, porque quem decide o que é qualidade e o que não é depende do tempo. Uma literatura que fica, aí sim não depende de quem está escrevendo nesse momento. E nós não sabemos nunca quem são as pessoas que ficam.


 

 
Falam que o Brasil tem poucos leitores, mas você já vive disso há anos. 
São duas coisas. Primeiro, vai fazer sete anos em abril que vivo da literatura, e não vivo só de direitos autorais, que é uma pequena parte do meu orçamento. Vivo muito do que chamo do entorno da literatura, que são as palestras, festivais literários, projetos editoriais... Mas enfim, vivo exclusivamente da literatura, ou seja, não dos meus livros, mas da literatura. Isso é fato. A questão de que não se lê no Brasil é um axioma que se repete de uma maneira bastante interessada, porque foi sempre assim. Temos uma elite que sempre, durante toda a história do Brasil, teve a cultura como algo dela. Quer dizer, a cultura não é algo que se possa compartilhar, é uma coisa privada da elite brasileira. E por que digo isso? Porque primeiro tivemos, ao contrário de outros países, um índice de analfabetismo muito alto. Sempre muito alto e sempre muito interessado em que continuasse alto, para poder manipular melhor as consciências. Aí o que acontece? Você vai ter um número de leitores pequeno porque, evidentemente, as pessoas que são analfabetas não vão ler e, segundo, a própria leitura no Brasil é considerada uma excrescência. Por exemplo, você já ouviu várias vezes gente falar, “Imagina, as pessoas colocarem eletrodoméstico para vender dentro da livraria”. Qual o problema? O livro é um produto como outro qualquer. Eu já ouvi várias pessoas dizendo, “Imagina, o livro não é um produto como outro qualquer”. Claro, se você quer manter essa aura de exclusividade da elite, da nossa burguesia, que é uma coisa absolutamente patética, então realmente o livro não é um produto como outro qualquer. 

O livro é um produto como outro qualquer sim! Ele tem que ser democratizado, o acesso a ele tem que ser democratizado. Então o que vemos hoje é que se você oferece um livro, as pessoas querem ler sim. Agora, o problema é que a repetição desse modelo de que o Brasil é um país que ninguém lê, que o brasileiro não se interessa por livro, que no Brasil não tem bibliotecas, mas sim depósitos de livros, isso é verdade. Você pode entrar em qualquer biblioteca do Brasil e ver que é verdade. Não é um negócio que te deixa à vontade, que te absorve. Não! É algo que está o tempo todo te colocando para fora, você não pode falar, não pode circular, não pode pegar nenhum livro, não pode mexer, não pode nada. É tudo proibido numa biblioteca. As livrarias no Brasil, com raras exceções, são templos. Você entra e parece que está entrando num templo budista, sabe? Você não vê pretos, você não vê pobres. Você só vê gente super bem arrumada e gente lindíssima, perfumadíssima, ou seja, são templos da elite brasileira. Não tem livraria em que você entre e se sinta confortável. Então é uma ideia que se perpetua. Além do que, e o que eu vou dizer é uma pena, é uma recorrência infelizmente verdadeira, o livro no Brasil é muito caro. E ele é caro não só porque ele é caro, mas porque interessa a essa elite que ele seja caro mesmo. Estou falando que é isso porque o governo faz compras absurdas de livros todos os anos e distribui, ou seja, essas pessoas lêem. Vou muito a bibliotecas de interior, de periferia, conversar com as pessoas, e as pessoas querem ler sim. Evidentemente que não é todo mundo que quer ler, mas uma boa parte das pessoas quer ler, mas não tem acesso. Então, a partir do momento que você dá acesso ao livro para as pessoas, elas começam a ler sim, elas se interessam pelo livro. Agora mesmo entre nós escritores, como nós escritores também pertencemos à elite, o que acontece? Todas as vezes que se fala, por exemplo, em bolsas de incentivo à literatura no Brasil, os escritores ficam preocupados com bolsas de incentivo à criação, nunca de incentivo à leitura. Não conheço escritor que defenda que tem que ter mais leitura. Não, os caras dizem que tem que ter mais bolsa de criação, como se precisasse. Existe um mercado que regula muito bem essa questão da criação—esse mercado funciona.

 
Os temas que você trata, como o da migração, por exemplo, dessa perda de identidade por causa de mudança de lugar, dão a impressão de terem muito a ver com a sua experiência de vida. E ao mesmo tempo você tem um traba-lho muito forte de mexer com linguagem. 
Então, com relação à questão do pertencimento, na verdade acho que podemos extrapolar. Quer dizer, não é uma questão geográfica. Se você pensar na formação histórica do Brasil, vai ver que é um país que se formou exatamente por meio da questão do deslocamento. Por exemplo, quando os portugueses chegam aqui houve um deslocamento dos índios do litoral para o interior, os índios que sobreviveram a esse massacre, evidentemente. Depois você tem a segunda grande tragédia brasileira, que foi a escravidão. Quer dizer foi trazido um grande contingente de mão de obra da África para o Brasil—um deslocamento muito trágico, terrível. Depois tem o terceiro deslocamento, que é o deslocamento de mão de obra miserável da Europa e do Japão para o Brasil no final do século XIX, que também foi uma tragédia, que é muito pouco contada, e é sempre glamourizada. Depois tem o momento em que a mão de obra nordestina migra pra São Paulo e Rio de Janeiro por conta da industrialização, e depois os dois últimos movimentos, que são os deslocamentos do Sul, de pessoas que perderam as terras no RS, no PR e em SC e vão em direção àqueles estados do Norte, tipo Roraima, Rondônia, Acre. E finalmente esse deslocamento que é um pouquinho menor, mas também é trágico, de mão de obra brasileira para o exterior na década de 80, que talvez tenha sido o último grande movimento. Então, na verdade, esse tema do pertencimento, que tem a ver com o deslocamento, está muito mais ligado à história do Brasil do que à minha história. A coincidência nesse caso é que também sou migrante. Aliás, sou migrante dessa última leva de mão de obra miserável da Europa para o Brasil, e de mineiro para São Paulo. Então há uma coincidência nesse sentido, da questão do deslocamento e pertencimento. 

Agora, quanto à questão da linguagem, sempre me incomodou profundamente que na literatura brasileira—que sempre foi feita por uma elite—quando há representação de pobre, com raríssimas exceções, evidentemente, esses pobres não sabem falar, tem uma psicologia primitiva. Para você falar de pobre você faz uma literatura pobre também. E isso sempre me incomodou, porque vivi em meio de operários e nunca percebi que as pessoas falassem de uma maneira toda errada como... Quer dizer, falavam errado, como qualquer pessoa da classe média, quando fala, também fala errado—quando escreve, escreve certo. Isso sempre me incomodou. Então tentei buscar uma maneira de escrever sobre o operário, sobre o trabalhador urbano, que preservasse essa psicologia e essa linguagem. E para mim esse foi o maior problema, como te falei. Escolher o tema para mim foi fácil. Complicado foi como escrever sobre ele. E então, na época, cheguei a uma conclusão que era a seguinte: se escrevesse sobre o trabalhador urbano, sobre a classe média baixa, ou melhor, a partir do ponto de vista da classe média baixa, usando a forma do romance burguês, quer dizer, aquele romance que é biográfico, estaria traindo o projeto no seu início. Inclusive porque os imigrantes, quem não pertence a lugar ne-nhum, não têm biografia. Tem pedaços de biografia. Então tentei trazer essa ideia de não escrever um romance burguês, ou seja, tentar escrever um romance de pedaços de biografia que representasse melhor, do meu ponto de vista, o que queria escrever. Por isso a questão formal para mim é essencial. Eu não consigo pensar em escrever literatura sem pensar na questão formal.

E me conta uma coisa, quando você organizou essa coletânea com novas autoras de literatura brasileira, a sua ideia era resgatar esse conceito das revistas literárias, dar uma editada? O que te chamou a atenção nessas autoras especificamente?
Tenho ainda uma ideia, que você pode achar meio romântica, de que a literatura é um excelente instrumento de mudança da sociedade. Não tenho dúvida disso. Porque acho que um bom livro modifica o leitor, e a sociedade é formada por leitores. Então, para mim, ela é uma forma de intervenção política. Ao lado dos meus livros faço muitas antologias com esse propósito. Não são antologias mirabolantes, não. São antologias muito claras do ponto de vista político. Quando se falava em geração 90, falava-se sempre de homens escrevendo. Sempre a geração 90 estava ligada... O próprio livro chamado Geração 90 tem uma mulher no primeiro volume. Como sempre acompanhei bastante de perto o que se escreve e o que se faz hoje, sabia que tinha um buraco muito grande. Então, na época, propus na Record a gente fazer uma antologia de mulheres que estavam escrevendo naquele momento. Vamos chamar assim, da geração 90 de mu-lheres—não falo nunca em literatura feminina, mas literatura feita por mulheres (assim como feita por homens)—e a editora aceitou. Fiz esse primeiro levantamento, e quando achei que fosse ter dificuldade em encontrar 20, na verdade encontrei muito mais do que isso, e a primeira antologia teve 25 mulheres. Mas tinha sobrado bastante material e propus à editora que a gente fizesse um segundo volume, e a gente fez com mais 30 mulheres. Depois continuei fazendo outras antologias, que já não têm a ver com geração, mas têm a ver com tema. Fiz uma sobre a questão da homossexualidade chamada Entre Nós pela Língua Geral, do Rio, saiu uma outra sobre a percepção, outra que é sobre a questão do racismo—especificamente em relação ao negro no Brasil. Enfim, tenho feito trabalhos nesse sentido, de intervenção política mesmo.

Última pergunta. É verdade que você escreve das 7h às 12h30, que você é supermetódico?
Eu sou supermetódico. Porque encaro isso como minha profissão. Pago as minhas contas com isso. Então, quando estou em casa, porque parte do ano viajo, tenho por disciplina: todos os dias, das 7h da manhã ao meio-dia e meia, sento e escrevo. Em geral salvo o sábado e domingo, a não ser que eu tenha um compromisso de entregar alguma coisa, aí sacrifico. E por isso durmo cedo, mais ou menos 10h da noite me recolho, não é que vou dormir, mas vou ler um pouco, mas 7h da manhã, todos os dias, estou trabalhando.
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