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Ganho a Vida Sendo Injetada com Radiação

Acho que sou melhor que você por uma única razão: não preciso arrumar um emprego. Nunca curti muito trabalhar pesado, já que não sinto a necessidade de labutar para formar o caráter. Já tenho caráter suficiente.

por Megan Koester
02 Maio 2013, 2:20pm

Me acho melhor que você. Nem sou, aliás. Mas com certeza vou agir como se fosse. Acho que sou melhor que você por uma única razão: não preciso arrumar um emprego. Uso qualquer desculpa que me caia em mãos para justificar meu comportamento – que meu diploma em sociologia de uma universidade pública qualquer é inútil, que minhas numerosas habilidades e perspicácia mental não são valorizadas no mercado de trabalho, que sou incapaz da conversa fiada necessária para lidar com a Susan da contabilidade. Mas voltando à realidade, o negócio é que eu sou preguiçosa. Muito preguiçosa para acordar numa hora razoável e responder os e-mails da já mencionada Susan da contabilidade. (Jesus, como essa mina é carente!) Muito preguiçosa para pegar meu carro e dirigir até um destino que não seja um restaurante de fast food. Cacete, sou preguiçosa demais até para criar um perfil no LinkedIn (Mas, sério, o que eu escreveria lá? Megan Beth Koester: Trabalha para Não Trabalhar).

Nunca curti muito trabalhar pesado, já que não sinto a necessidade de labutar para formar o caráter. Já tenho caráter suficiente. Sendo assim, tenho passado a maior parte do começo da minha vida adulta tentando evitar um emprego remunerado. Por quase uma década, me dediquei a cometer fraude de devolução para pagar as contas em vez de criar vergonha na cara e trabalhar para viver. Mas a ameaça constante de ser presa eventualmente deu uma brecada nessa “carreira”.

Minhas atividades atuais para ganhar dinheiro são muito mais diversas (e, em geral, infinitamente menos ilegais) do que fraude de devolução. Edito vídeos gays da categoria “daddy” (uma tarefa tão traumatizante quanto você consegue imaginar), encontro um jeito de entrar em grupos de discussão de pesquisa de mercado, etiqueto envelopes endereçados para proprietários de imóveis armênios que enfrentam a execução de suas hipotecas e escrevo posts de blog para crianças que recompensam meus esforços deixando ameaças violentas nos comentários. Ou seja, eu me viro.

Mas meu trabalho primário é como “cobaia”, ou alguém que se degrada em nome da pesquisa. É uma ocupação que está longe de ser glamorosa e que faz maravilhas pela minha falta de autoestima. Já enfiaram uma câmera na minha bunda e me fizeram beber vinho branco em temperatura ambiente para induzir o vômito num porão, enquanto universitárias assistiam, riam e demostravam minha humilhante falta de conhecimento em matemática para um cara com tetinhas que usava chinelos – tudo pelo avanço da ciência e para escrever uma belíssima tese.

Mas a coisa mais chocante que já fiz e que faria de novo se tivesse oportunidade, apesar dos apelos dos amigos e entes queridos, envolve ter radiação injetada no meu corpo para iluminar os receptores nicotínicos do meu cérebro. Já fiz isso três vezes. Aparentemente sou uma glutona de castigo.

EXPERIMENTO UM

Fiquei sentada num carro velho com duas agulhas intravenosas saindo do meu braço enquanto um homem de meia idade fumava um cigarro atrás do outro, ouvia a rádio KROQ e falava sobre como o Havaí era “sussa”, porque era superfácil comprar maconha lá. Depois fui injetada com um contraste radioativo e mandada para uma máquina de tomografia por emissão de pósitrons, onde fiquei deitada por duas horas.

EXPERIMENTO DOIS

Fiquei numa estação de carregamento com duas agulhas intravenosas enfiadas no braço (notou a tendência?), lutando para continuar consciente enquanto fumava um cigarro atrás do outro ouvindo “Hotel California” (que os trabalhadores da estação fizeram o favor de colocar no máximo, talvez para reforçar o fato de que eu poderia entrar nesse inferno particular a qualquer hora, mas que nunca poderia sair). Depois fui injetada com um contraste radioativo e mandada para a máquina de tomografia, onde fiquei deitada por duas horas. Uma bem intencionada enfermeira, com quem era impossível me comunicar, no entanto, ficou incumbida de tirar meu sangue a cada 20 minutos – mas lá pelos 40 minutos minhas veias se recusaram a colaborar. Cheia de um espírito indomável, ela começou a espetar o meu braço pelo que pareceu ser uma hora enquanto eu continuava lá deitada, sem poder me mexer dentro da máquina (minha cabeça estava amarrada para que meu cérebro pudesse ser fotografado). Eventualmente ela conseguiu o que queria. O sangue começou a jorrar por todo lado, manchando a manga da minha camisa. Ela me disse para colocar um pouco de peróxido de hidrogênio na mancha quando chegasse em casa. E foi isso que fiz. A mancha sumiu sem deixar vestígios.

EXPERIMENTO TRÊS

O experimento três foi bem parecido com o dois, com o bônus de participar de uma sessão de terapia de interrupção de fumo com um veterano da Guerra da Coreia irado e sem amigos, que se chamava Charles. O Charles não confiava na internet, que é um lugar sem lei onde as pessoas mandam “spams de golpes” para você. Depois de algumas semanas de terapia, fui injetada com um contraste radioativo e mandada para uma máquina de tomografia onde fiquei deitada por duas horas. A enfermeira, mais uma vez, me fez sangrar por cima de mim mesma. Por sorte eu ainda tinha peróxido de hidrogênio em casa.

Em todos os cenários, tive que parar de fumar por um determinado número de semanas antes de poder participar do experimento. Agora, quem me conhece sabe que fumar é uma das minhas grandes paixões. Sendo esse o caso, a única maneira de me fazer largar essa paixão é um ato divino. Sou americana e, como tal, o dinheiro é meu Deus. O dinheiro pode, e faz, e sempre me fará fazer absolutamente qualquer coisa. Eu sei o que você está pensando. Se essa vadia ama tanto assim o dinheiro, por que ela não para de tratar o próprio corpo como uma porra de usina nuclear e arranja um maldito emprego? Boa pergunta. Pronto para a resposta?

Não sei. Essa é a resposta. Talvez eu faça isso para ter anedotas interessantes para contar em festas. Talvez eu faça porque não valorizo minha saúde. Talvez porque eu sinta que mereço ser castigada. Talvez eu faça isso porque acredito que tenho que parecer durona para que as pessoas me respeitem. Não sei. Realmente não sei. Mas sei que não vou parar agora nem em breve. Porque odeio trabalhar tanto quanto me odeio. Estou lá deitada, dentro de uma máquina, pingando sangue pelo braço, isso é a antítese do trabalho. É alguma coisa, mas não é trabalho.

Siga a Megan Koester no Twitter: @bornferal

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