Teorias da conspiração são as grandes responsáveis por não termos erradicado a pólio

O Talibã, o Boko Haram e o movimento antivacina têm algo em comum.

|
23 Março 2017, 5:40pm

Em uma estação de trem na cidade de Bareilly, na Índia, profissionais de saúde se espalham pelas plataformas lotadas com garrafinhas de vacina da poliomielite nas mãos. Eles procuram por crianças pequenas, de até 5 anos, que não possuam a marca de tinta nos dedos que indica o recebimento da vacina.

Observar as mães indianas durante o mês de janeiro me convenceu de que a campanha contra a pólio promovida na Índia está funcionando. As progenitoras, a princípio, não deixavam que pessoas estranhas, mesmo aquelas com uniformes amarelos oficiais, dêem remédios aos seus filhos, a não ser que elas compreendam sua importância e seu motivo legítimo. E agora que a Índia já completa seis anos desde o registro do último caso do vírus da pólio, que pode levar a deformidades e paralisia, elas sabem que as gotinhas na boca das crianças são vitais mesmo sem os panfletos pró-vacinação e os atores de Bollywood fazendo campanha na televisão.

A Índia anunciou a erradicação oficial da pólio em 2014, após bem-sucedida campanha de 20 anos que custou pelo menos 200 milhões ao ano. O programa Pulse Polio teve sucesso surpreendente levando em consideração a população de 1,2 bilhões e uma saúde pública turbulenta. Ela foi conduzida pelo governo, grupos sem fins lucrativos e agências, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU), com uma combinação eficaz de vacinas orais e injetáveis. Os resultados indianos ajudaram a reduzir números de casos globais de pólio de 350 mil em 1988 para apenas 74 em 2015. 

Entretanto, uma década após o último caso de pólio deixar de se espalhar localmente, a Índia ainda precisa despender milhões de dólares e enviar mais de dois milhões de profissionais de saúde todos anos a fim de encurralar o vírus. Enquanto a maior parte do planeta conseguiu erradicar a pólio, o vírus continua a se espalhar em três países: Nigéria, Paquistão e Afeganistão, sendo que os dois últimos fazem fronteira com a Índia. Fronteiras políticas não são capazes de deter um vírus infeccioso, e o Paquistão exportou casos de pólio para outros países ao longo da última década.

Voluntários da Rotary International (em uniformes amarelos) vacinam crianças em terminais de trens e ônibus. Crédito: Ankita Rao.

Esses últimos países com pólio têm algo importante em comum: todos são agravados pelo terrorismo que ameaça os profissionais da saúde e dificulta a disseminação das vacinas. Entretanto, suas raízes estão embasadas em outros aspectos: as teorias conspiratórias que surgem e se disseminam por causa da total falta de confiança no poder.

Esse tipo de informação falsa é, por si só, um tipo de vírus. Combater teorias conspiratórias perigosas, como a Índia descobriu, é uma batalha importante. Tão importante e desafiadora quanto erradicar o vírus para sempre.

Enquanto os governos do Paquistão, Afeganistão e Nigéria se comprometeram com a distribuição das vacinas da pólio, eles não conseguem controlar as redes de resistência criadas pela Al Qaeda, pelo Talibãn, pelo Boko Haram e pelo Estado Islâmico (EI ou, na sigla em inglês, ISIS).

Em abril de 2016, militantes mataram sete policiais paquistaneses que faziam a segurança de profissionais da saúde em Karachi. Mais adiante, no mesmo ano, a OMS relatou que dois casos de poliomielite foram encontrados na Nigéria, em uma região isolada do resto do país pelo grupo terrorista Boko Haram. No Afeganistão, militantes impediram dezenas de milhares de crianças de serem vacinadas.

"Em todos os casos, a segurança, a violência e a incapacidade de acessar as populações que necessitam de vacinação interromperam os esforços", afirmou Josh Michaud, diretor da política de saúde global da Fundação Kaiser Family, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos.

Dr. Muhammad Furqan Nabil, diretor do Programa Nacional para o fim da transmissão da pólio (N-STOP, na sigla em inglês), examina uma criança com poliomielite em Karachi, Paquistão, em 2014. Crédito: Furqan Nabil/CDC Global.

Parte dessa resistência é justificada pelo assassinato, liderado pelos EUA, de Osama bin Laden, que foi encontrado, em parte, graças a uma campanha de imunização contra a hepatite B orquestrada pela CIA. Desde que o Talibã e o EI descobriram o papel dessa falsa campanha de saúde, eles promoveram uma guerra contra profissionais de saúde, incluindo aqueles enviados para disseminar a vacinação em áreas rurais. Enquanto isso, o médico paquistanês que ajudou a CIA permanece na prisão.

Grupos de saúde fizeram diversas tentativas a fim de acessar o Talibã. Em dezembro de 2015, um contato do grupo insurgente concordou em trabalhar com oficiais da OMS no Afeganistão a fim de ajudar a vacinar as crianças das áreas impactadas. "Estou 100% feliz em ajudar a trabalhar com a OMS e o governo para combater a pólio, uma doença que afeta as crianças das áreas isoladas", Obaidullah Elaj, médico talibã, contou ao Bloomberg.

Porém, alguns meses mais tarde, militantes atacaram profissionais da saúde novamente, e, desde então, já surgiram vários casos novos de poliomielite.

Outras teorias da conspiração envolvendo o vírus da pólio dizem respeito à vacina. Assim como os adeptos do movimento antivacinas na América do Norte e da Europa, as informações falsas são difundidas em comunidades locais no Paquistão e no Afeganistão, onde a educação para a saúde é incipiente. No vale do Swat paquistanês, terra de muitos vilarejos rurais isolados, algumas famílias acreditam que a vacina contra a pólio é um método secreto e forçado de controle de natalidade. Outros acreditam, erroneamente, que as gotas orais contêm materiais provenientes de porcos, proibidos para o islã, a religião dominante nos dois países.

A Índia não luta com o EI ou o Talibã da mesma forma como seus vizinhos do Oriente Médio. Porém, quando se trata de combater informações falsas e teorias da conspiração, o programa contra a pólio encontrou obstáculos similares nesse país tão populoso, onde cada estado se assemelha a um país diferente, com diferentes idiomas e culturas.

Profissionais de saúde passam de casa em casa em Uttar Pradesh para verificar se as crianças foram vacinadas. Crédito: Ankita Rao.

Caminhando por meio de um labirinto de corredores em Bareilly, cheguei até a Dargah-e-Ala Hazrat, o túmulo de Ahmed Raza Khan, jurista do século 19 especialista em lei islâmica que reuniu diversos seguidores ao longo de sua vida. A comunidade que se desenvolveu ao redor do dargah é conservadora e devota. Todos os dias, as cinco rezas centrais da fé islâmica são recitadas por meio dos alto-falantes para a população apressada das vizinhanças. 

Quando os profissionais de saúde do governo e das organizações sem fins lucrativos começaram a entrar nas comunidades como essa em 1995, eles encontraram muito retrocesso. Muitas famílias tinham medo da vacina, convencidas de que se tratava de uma conspiração do governo e uma medida de controle de natalidade, possivelmente para conter a população muçulmana, afirmou Shami Mohammed, contato local do programa contra a pólio para a UNICEF, uma agência da ONU focada na saúde e educação das crianças.

Os temores, afirmou, originaram-se em uma crise 40 anos atrás. Em 1975, o então primeiro-ministro Indira Ghandi declarou estado de emergência na Índia, um período de 21 meses de cumprimento severo da lei, e que resultou em dissidência. Como parte de um esforço visando o controle populacional, Ghandi ordenou que profissionais da saúde realizassem vasectomias, muitas vezes à força. Estima-se que 6,2 milhões de homens, alguns sequer casados, foram esterilizados ao em todo o país, conforme relatado pela BBC.

Muitos indivíduos das comunidades muçulmanas conservadoras da Índia, que enfrentam discriminação em um país de maioria hindu, ficaram traumatizados. O islã não necessariamente proíbe ou restringe o controle de natalidade; trata-se de uma preferência religiosa e cultural ter famílias grandes, e as abordagens ao planejamento familiar variam bastante.

Os profissionais da saúde da pólio herdaram essa resistência, porém não têm intenção de interromper seu trabalho importante, afirmou Mohammed. Em vez disso, funcionários da Rotary Internacional e da UNICEF buscaram respeitados líderes muçulmanos próximos a Dargah. "Fomos conversar com os líderes na dargah, ajudá-los a compreender, com todos os documentos, que nenhum dos rumores era verídico", Mohammed me contou.

A vizinhança ao redor do dargah Ala Hazrat. Crédito: Ankita Rao.

No início dos anos 1990, profissionais de saúde da pólio abordaram Shahbuddin Razvi, um mawlana (ou líder religioso) da área. Quando me encontrei com Ravi, um homem corpulento, trajando túnica preta abotoada até o pescoço e um pequeno barrete chamado de taquiya, ele me contou que os profissionais levaram pesquisas e dados a ele, alguns de associações médicas islâmicas, a fim de provar que as vacinas eram seguras.

Enquanto bebíamos chá em uma pequena sala nos fundos, Razvi disse que se convenceu rapidamente. Ele começou a viajar pelo distrito e pelos estados vizinhos de Uttarakhand com a Rotary e voluntários da UNICEF. Ele se encontrou com imãs, líderes religiosos que conduzem rezas em mesquitas, que os ajudou a compreender que a vacina é importante. Às vezes, ele ainda administra vacinas a crianças de suas próprias famílias para mostrar que ela é segura.

Em sua própria comunidade em Bareilly, Razvi começou a dar palestras sobre a pólio durante o jummah, a reza das sextas-feira na fé islâmica, similar ao domingo de missa para os católicos. Lá ele encontraria centenas de pessoas em um mesmo lugar e poderia falar abertamente sobre questões como saúde e saneamento. (O polivírus se dissemina por meio de contato com material fecal infectado.)

"Há uma [regra] hádice em minha religião, uma recomendação forte. Você deve se lavar cinco vezes ao dia, antes e depois de rezar. Um muçulmano praticante vai seguir essa recomendação", afirmou. "E eles permanecerão saudáveis."

Esse tipo de excesso da comunidade funcionou. Profissionais da pólio foram capazes de cruzar fronteiras culturais, desfazer mitos e ganhar confiança em comunidades que não têm fé no governo. Combater a pólio se tornou praticamente um programa de inclusão social, transcendendo as hierarquias socioeconômicas indianas.

Veera, uma mulher vítima da pólio, com seu filho Mayank, recém-vacinado por voluntários na estação de trem em Bareilly. Crédito: Ankita Rao.

Na estação de trem de Bareilly naquele dia, eu me aproximei de uma mulher de 22 anos chamada Veera, que se esforçava para subir alguns degraus som uma mala e seu filho, Mayank. Quando Veera era mais nova, o programa de vacinação da pólio era incipiente. Sua dificuldade para caminhar será um lembrete eterno do poliovírus, que ela contraiu, e do sistema de saúde pública que falhou em atendê-la. Entretanto, a marca de tinta fresca no dedo de seu filho de 4 anos é um sinal de mudança dos tempos e de progresso.

Observar o programa de imunização indiano em ação é assistir a um exército de indivíduos de todas as idades e contextos sociais enviados rapidamente por todo o país. Eles armam estandes em sinais de trânsito e nas barracas de leite dos bairros. Segui grupos de mulheres que iam de porta em porta em todos os vilarejos nos dias de imunização agendada, marcando as portas com carvão, para avisar que estiveram ali. Elas verificavam as mãozinhas. Diziam "pólio" muitas e muitas vezes, introduzindo essa palavra no vocabulário doméstico.

"Dizemos que uma a cada 250 pessoas na Índia está envolvida na vacinação contra a pólio", afirmou Ajay Panwar, diretor do programa de imunização regional da OMS em Bareilly.

Esses esforços terminam exatamente na fronteira, onde o país instalou estandes de vacinação contra a pólio para as pessoas que vêm do Paquistão. E até que o vírus seja erradicado do Afeganistão e do Paquistão, a Índia precisa ficar vigilante como se ele estivesse em seu próprio país.

"A Índia foi um dos últimos países a erradicar a pólio dentro de suas fronteiras, porém, o país está vulnerável à sua reintrodução", afirmou Michaud. "Qualquer país em que houver uma queda na imunização da população – uma brecha nessa defesa – pode significar uma reintrodução do vírus."

Independentemente disso, a luta indiana contra o vírus também ensina uma lição para o mundo: os programas de saúde pública funcionam melhor quando trabalham com educação e inclusão. É uma lição que se aplica aos EUA, onde pais ainda se recusam a vacinar seus filhos contra doenças evitáveis, e no Paquistão, onde profissionais de saúde não viverão o suficiente para vacinar mais crianças.

Se os três países que ainda apresentam casos de pólio forem capazes de utilizar a educação como antídoto contra teorias conspiratórias desenfreadas, eles farão muito mais do que erradicar a pólio da face da terra – eles promoverão uma grande diminuição do terrorismo.

Esta reportagem foi apoiada pela Rotary International.

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri