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Os pixadores de SP acham que estão sendo usados por Doria

Higienização, polêmica, interesses? Pixadores que há décadas registram suas mensagens pela cidade falaram com a VICE.

por Débora Lopes
24 Janeiro 2017, 4:15pm

Na imagem acima, o grupo Pixo Manifesto Escrito (PME) em ação. Foto: PME

Um coração vermelho estampa o logo do programa "Cidade Linda", instituído pela Prefeitura de São Paulo no início de janeiro. Vestido de gari, o prefeito João Doria (PSDB) tem ido às ruas da capital para performar diante das lentes da imprensa e propalar o que acredita ser um "trabalho amplo de manutenção da cidade", disse. Calçadas, praças e pontos de ônibus estão passando por reparos e limpeza. O que mais gerou discussão, entretanto, foi sua postura antipixos - estendida ao graffiti, que, aparentemente, ele vê como a mesma coisa. No último sábado (21), oito equipes foram deslocadas para apagar os pixos que existiam na Avenida Santo Amaro, zona sul da capital. Já a Avenida 23 de Maio, conhecida pelos enormes muros grafitados, também tomou banho de tinta cinza. A ofensiva ganhou ainda mais forças quando, na última segunda (23), o secretário adjunto da Segurança Pública de São Paulo confirmou que agentes do DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais) estavam sendo destacados para investigar grupos de pixadores nas redes sociais.

"O pixo é a expressão mais presente da cidade, é o sujeito periférico gritando em cores."

Criada no calor das Jornadas de Junho, em 2013, a grife Pixo Manifesto Escrito (PME) declarou à VICE que seus pixadores e pixadoras receberam o projeto de Doria "com sorriso no rosto e tinta na mão". "Não existe a mínima possibilidade da pixação acabar", informaram. "O pixo é a expressão mais presente da cidade, é o sujeito periférico gritando em cores. O público consumidor de Romero Britto nunca vai gostar nem entender a gente."

Foi o grupo que atacou a exposição do fotógrafo Choque em 2015 e virou pauta em diversos veículos de comunicação. Na época, eles justificaram que o fotógrafo fazia uso indevido de imagens de pixos.

Para o PME, Doria está usando os pixadores com interesses diversos, como prosseguir com a higienização da cidade. "Assim como nós, o povo de rua já está sendo reprimido, perdendo seus cobertores ou recebendo bombas na Cracolândia. Cidade limpa pra quem ou de quem?", questionam. "A história do submundo do pixo é de resistência à repressão. Mesmo com ela escalamos prédios, descemos pontes com cordas e estamos na rua todas as noites. Não vai ser o 'garoto Lacoste' que vai botar medo na gente", provoca o grupo.

O grupo Pixo Manifesto Escrito (PME) em ação. Foto: PME

De certa maneira, o medo paira sobre algumas cabeças, sim. A VICE falou por telefone com diversos nomes que pixam seus nomes pelas ruas há décadas. A maioria não quis discorrer sobre o assunto. "Acabei de arrumar um emprego e temo que isso me prejudique", justificou um deles. "Fico cabreiro", relatou outro.

No âmbito penal, pixar é tido como crime ambiental e pode resultar em detenção de três meses a um ano, e multa. Se um patrimônio público for pixado, a pena é engrossada de seis meses a um ano, e multa.

Sob a condição de anonimato, o pixador de uma das grifes mais antigas de São Paulo topou um papo rápido por telefone. Medo? "Dá, sim. Lógico. É assunto sério. Não é brincadeira", falou. Para ele, o prefeito poderia investir em outras prioridades. "Acho que ele tem muitas outras preocupações dentro da cidade do que perder tempo com isso. Ele só vai ficar quatro anos. Não vai ter fôlego contra uma história de três décadas. Ele chegou ontem."

"E se vandalizar for arte?"

Suas postagens nas redes sociais começaram a ser repensadas depois que as investigações do DEIC, que integra a Polícia Civil, foram anunciadas. "Mas não vou deixar de pixar", pontuou. 

O prefeito usa o ódio que parte da sociedade paulistana nutre contra pixo e pixadores para acalorar o entrevero? "Lógico. Pra causar essa polêmica", reflete o pixador.

Enquanto a agenda da Prefeitura segue banhando a cidade com tinta cinza, a internet requenta a velha discussão se pixo e graffiti são a mesma coisa ou se pixo é arte ou não, o PME deixa sua posição. "E se vandalizar for arte? Essa resposta está nos muros para quem quiser ver e interpretar. A verdade é que não se pode negar que nossos rabiscos foram parar no centro do debate sobre a cidade que queremos."

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