Medo e delírio no Espírito Santo

Já são 75 mortos no estado e mesmo com o Exército nas ruas, onda de violência continua. PMs aquartelados pedem melhores salários.

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fev 7 2017, 6:18pm

Foto: Gabriel Lordêllo/Mosaico imagem/ VICE

75 mortos, mais de 200 carros roubados, centenas de lojas saqueadas e destruídas — e contando. Tudo isso em um fim de semana que ainda não terminou. Esse é o saldo parcial do caos instaurado no Espírito Santo desde o aquartelamento da Polícia Militar do Estado.

Tudo começou na sexta-feira (3). Fui acordada com a notícia de que um grupo de esposas, namoradas e filhas de policiais militares estavam protestando em frente a um Destacamento da Polícia Militar (DPM) em Feu Rosa, no município capixaba da Serra. A manifestação começou bem cedo, por volta das 6h30, e clamava por melhores condições de trabalho para os companheiros. No movimento, foi denunciado que os militares capixabas recebiam o pior salário do país e que estavam há quatro anos sem reajuste. Naquele dia, nenhuma viatura conseguiu sair do DPM de Feu Rosa.

Os servidores públicos do Espírito Santo estão sem reajuste em seus salários desde o início do mandato do governador Paulo Hartung (PMDB), eleito em 2014 para sua terceira passagem pelo cargo. Sob o argumento da necessidade de promover um ajuste fiscal, diante da crise econômica, Hartung congelou negociações salariais com os servidores estaduais, mas garante que mantém o diálogo. Na mesma sexta-feira em que começou o aquartelamento da PM, Hartung foi internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para a retirada de um tumor da bexiga. Seu vice, César Colnago (PSDB), assumiu apenas no domingo (5), já em meio à crise.

No sábado (4), o movimento em defesa dos PMs cresceu. Mulheres e familiares de militares passaram a protestar na frente dos batalhões da Polícia Militar na Grande Vitória e em cidades do interior do Espírito Santo. Com cordões humanos — ainda que não muito volumosos, por vezes com 10 a 20 pessoas —, os atos foram responsáveis por bloqueios impedindo a saída de viaturas e policiais. Nenhum dos manifestantes foi removido à força do local.

Os policiais não estão nas ruas, mas essa não é exatamente uma greve, já que a categoria não goza desse direito na Constituição. Eles vão trabalhar, mas não "conseguem" sair dos quartéis, pois os poucos manifestantes seguem bloqueando as saídas.

No mesmo sábado (4), a tensão começava a aumentar. Uma joalheria e uma banca de revista na Praia do Canto, bairro nobre da capital Vitória, foram assaltados. Alguns comerciantes começaram a falar em fechar seus estabelecimentos mais cedo. Dois jogos do Campeonato Capixaba 2017 foram adiados por falta de policiamento. Na noite do sábado, o Pronto Atendimento do Trevo, em Cariacica, cidade que integra a Grande Vitória, viu sua rotina ser alterada. Por volta das 23h30, diversas vítimas de violência, baleados e esfaqueados, começaram a chegar. Em seguida, um grupo de criminosos invadiu o local e roubou a televisão da pediatria. O PA teve que ser fechado.

Em 2016, 1.181 pessoas foram assassinadas no ES. Em 2015 foram 1.391.

A escalada de violência também foi sentida no Departamento Médico Legal (DML), em Vitória. Somente no sábado (4), oito corpos chegaram ao órgão, segundo o Sindicato dos Policiais Civis do Espírito Santo (Sindipol-ES). Um número bastante alto, já que, segundo o vice-presidente do sindicato, Humberto Mileip, a média de homicídios por fim de semana foi de cinco no mês de janeiro. Um mês antes, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) divulgava um bom resultado na segurança pública: o Estado fechou o ano de 2016 com uma redução de 15% no número de homicídios, em relação ao ano anterior, a menor taxa dos últimos 28 anos. Ao todo, 1.181 pessoas foram assassinadas em 2016, contra 1.391 em 2015.

No domingo, a tensão se intensificou e o estado amanheceu mais uma vez com a notícia de que protestos bloqueavam as saídas de viaturas e policiais dos batalhões. Relatos de saques, roubos e tiroteios se intensificaram. Um criminoso, após uma tentativa de assalto, foi baleado e foi parar dentro de um terminal de ônibus. O presidente de uma escola de samba foi assaltado e perdeu documentos da agremiação. Relatos de assaltos e roubos a carros começaram a aparecer com intensidade nas redes sociais. Lojas de informática, calçados e vestuário na avenida Central, principal polo comercial da Serra, no bairro Laranjeiras, amanheceram arrombadas. Em Cariacica, outra cidade que compõe a Grande Vitória, três lojas também haviam sido saqueadas.

Em Guarapari, o mais famoso balneário do Espírito Santo, criminosos começaram a fazer arrastões em lojas e a trocar tiros. Tudo documentado por moradores assustados em vídeos aterrorizantes.

Fora de controle

Mas foi com o cair da noite de domingo (5) que a situação degringolou. A pânico tomou conta de pessoas que passeavam em um shopping da Serra, por volta das 19 horas, quando um tumulto num ponto de ônibus provocou correria dentro do estabelecimento. Diversas lojas baixaram as portas e clientes ficaram presos vendo a gritaria e a movimentação nos corredores. Um homem ensanguentado foi visto dentro do shopping. Há poucos minutos, ele havia sido espancado por populares há alguns metros dali acusado de estar roubando na região.

Pela primeira vez, em três dias de caos crescente, pouco depois das 19h, o secretário de Segurança André Garcia se pronunciou. "Estamos trabalhando intensamente desde a última sexta-feira tratando da questão relacionada ao movimento iniciado por familiares e amigos de policiais militares. A primeira providência adotada pelo governo para debelar o movimento foi o ajuizamento de uma ação para decretar a ilegalidade do movimento", disse ele. O secretário disse ainda que enquanto os militares não voltassem às ruas, o governo não iria negociar. Garcia, que afirmou ter conversado com o ainda ministro da Justiça, Alexandre Moraes, informou que a Força Nacional estava à disposição. As mesmas, no entanto, não haviam sido convocadas até então.  

Ainda na noite de domingo pipocavam relatos de arrastões, roubo a carros, invasões de lojas e novas mortes. Por volta das 21 horas, a situação já estava descontrolada e o número de homicídios disparou: foram 17 mortos até meia-noite de domingo. Tentativas de homicídio foram registradas em diversos bairros, e os hospitais ficaram lotados de baleados.

Loja saqueada na capital Vitória. Foto: Gabriel Lordêllo/Mosaico imagem/ VICE

A guerra discursiva já havia começado e nas redes sociais era difícil distinguir a verdade dos boatos. A hashtag #ESpedesocorro chegava aos TT's no Brasil.

Com a onda de violência instalada, escolas particulares, faculdades e o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) decretaram suspensão das aulas, que voltariam no dia seguinte, segunda-feira (6). As prefeituras seguiram as escolas e também cancelaram o retorno dos alunos. O Estado, porém, manteve o calendário letivo.

O Tribunal de Justiça e a Justiça Federal suspenderam prazos e audiências e o governo do Estado marcou uma coletiva para a manhã da segunda-feira, quando o secretário André Garcia iria detalhar os próximos passos para conter a crise.

A segunda-feira (6) já amanheceu em clima de faroeste. Às 10h, ja haviam sido registrados 27 assassinatos. Familiares e amigos dos militares seguem acampados em frente a 11 batalhões. O comandante da Polícia Militar, coronel Laércio Oliveira, que havia assumido o posto há apenas 21 dias, foi tirado do cargo. Em seu lugar, assumiu o coronel Nilton Rodrigues, e a Força Nacional foi, finalmente, formalmente solicitada ao governo federal.

Mulheres impedem saídas de PMs do quartel em Vitória. Foto: Gabriel Lordêllo/Mosaico imagem/ VICE

Às oito da manhã da segunda, o plantão do judiciário decidiu pela ilegalidade do que chamou de "greve velada", já que as atividades dos policiais estão paralisadas. A multa diária pelo descumprimento da liminar expedida pelo desembargador plantonista Robson Luiz Albanez é de R$ 100 mil. Os policiais, no entanto, seguem dentro dos quarteis.

Com tantos corpos, o DML já está superlotado. Segundo o presidente do Associação dos Investigadores da Polícia Civil do Espírito Santo (Assinpol), Junior Fialho, o DML só tinha 12 geladeiras funcionando na segunda-feira (6). À tarde, a situação ficou crítica e o órgão chegou a ter 16 cadáveres espalhados pelo chão.

Escolas, postos de saúde, estabelecimentos comerciais e órgãos públicos em Vitória e em outros municípios, fecharam as portas. E, por falta de segurança, foi anunciado que a circulação de ônibus seria interrompida às 16h.

Com o clima geral de insegurança e o anúncio da suspensão do transporte público, funcionários foram liberados. Nos pontos de ônibus lotados, os coletivos não param e criminosos em moto passam de ponto em ponto assaltando os trabalhadores.

Em Santa Rita, onde há forte tráfico de drogas, pessoas trocam tiros no meio da avenida principal, por volta de 12 horas da segunda-feira (6). Em Itapoã, bairro nobre, bandidos tentam entrar em prédios, mas são impedidos pela população enfurecida, que grita das sacadas dos edifícios. Em outra ponta do bairro, tiroteio no meio da rua deixa um guarda municipal baleado.

Mesmo com o Exército nas ruas de Vitória, violência continua. Foto: Gabriel Lordêllo/Mosaico imagem/ VICE

Até 14h39 da segunda, já foram 26 homicídios na Grande Vitória e 7 no interior, informa o Sindipol. Durante todo o dia, 40 pessoas foram mortas no Estado. Na delegacia de Roubos e Furtos de Veículos de Vitória, mais de 200 pessoas tentam registrar boletim de ocorrência. E não para de chegar gente.

Às 16h30,  200 homens do Exército sairam do 38º Batalhão de Infantaria para fazer a segurança na Grande Vitória. A Polícia Civil, por sua vez, decidiu lacrar o DML. Dali, segundo Junior Fialho, do sindicato dos investigadores, só saem corpos. Nas ruas, diversos cadáveres ficam à espera de recolhimento.

Policiais aquartelados divulgam um vídeo. Eles estão dentro de um batalhão, viaturas enfileiradas, com giroflex ligado, mas cerca de 10 mulheres estão no portão. Eles alegam que não podem sair.

Grupos de civis, fortemente armados, começam a circular por bairros de Vitória e da Serra na tarde de segunda. São em torno das 18 horas. Eles querem sair para matar os bandidos que encontrarem pela frente. Em Jardim da Penha, em Vitória, grupos espancando jovens são flagrados pelas ruas, encorajados por moradores de prédios que gritam "mata, mata!".

O Ministério Público Federal intima o secretário André Garcia a explicar: houve determinação expressa para os policiais deixarem os quarteis? Se sim, querem documentos. Se não, querem explicações. Seis procuradores assinam o documento.

Por volta das 19 horas, o Exército chegavam às ruas, primeiro em Vila Velha, depois em Vitória.

Apesar de o Exército ter ido para as ruas, ainda há relatos de crimes durante a madrugada. Durante a madrugada, foram mais três homicídios confirmados. Mas há informação de mais dois corpos esperando para serem recolhidos nas ruas.

Policiais militares divulgam mais um vídeo. Falam gentilmente a suas esposas que têm ordem de circular, que elas devem deixar eles saírem. Elas dizem que não. Fim de papo.

"A situação é desesperadora, calamitosa. Ônibus sem circular, comércio fechado. E isso é reflexo da política de desvalorização dos agentes de segurança pública que gerou insatisfação das famílias dos policiais. O governo já está há três ano sem fazer reajuste inflacionário dos policiais sob discurso de terra arrasada, de crise. Com essa política de desidratação da polícia, não se faz concurso e não se investe, fica difícil trabalhar e prestar um serviço de qualidade", desabafa Leal.

Na próxima quinta-feira (9), informa ele, os policiais civis, que estão sobrecarregados e trabalhando em condições estressantes, vão decidir se param ou não. 

Na tarde desta terça, em um novo capítulo do caos, o Ministério Público do Estado, através da Promotoria de Justiça junto à Auditoria Militar, solicitou que o comando da PM seja notificada para que coloquem a tropa na rua e, se preciso, façam uso progressivo da força contra os manifestantes. O ofício é endereçado ao Coronel Nylton Rodrigues. Ainda não há acordo para a volta dos policiais às ruas.

A crise da segurança no Espírito Santo, porém, parece longe do fim.

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