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Ilustração: Verena Antunes/VICE

Por que o futebol brasileiro ainda está trancado no armário?

PorLetícia NaísaePeu Araújo

Até quando atletas, cartolas, torcedores e cronistas serão omissos e passarão pano para o preconceito contra LGBTTs no esporte?

Ilustração: Verena Antunes/VICE

No último dia 15, no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, centenas de membros dos Gaviões da Fiel se reuniram para protestar, entre outras coisas, pela CPI das merendas nas escolas estaduais de São Paulo. No fim da tarde, quando a massa não passava de duas dezenas de pessoas, iniciou-se uma breve chuva de papéis. Atiradas do Viaduto do Chá, as filipetas exibiam a foto de um membro da organizada com a frase: "Quem vai punir o ladrão de linguiça?" Era uma clara provocação. Às pressas, os torcedores recolheram a papelada, e os ânimos, que pareciam se esquentar, foram abafados.

A história, porém, continuou viva pela internet. Nos grupos de Whatsapp e nas comunidades de torcidas, o assunto é explorado à exaustão. Pelos sites de notícias esportivas, sempre que o nome dos Gaviões é citado, há, na seção de comentários, variações da mesma provocação. O motivo de tanta chacota é a descoberta de que um torcedor dos Gaviões da Fiel, ligado à diretoria, fora exposto pela ex-namorada por estar em um relacionamento com outro homem. Bem como os rivais, seus colegas de torcida não toleraram o episódio e o afastaram da quadra. "Ele vai seguir a vida dele fora daqui", afirmou, lacônica, a direção da organizada à VICE Sports.

Afastar um torcedor por ser homossexual é algo que traria revolta à maioria das pessoas civilizadas em 2016. Entre muitos membros dos Gaviões, porém, as medidas deveriam ter sido mais drásticas. "O pior de tudo é saber que esse cara não tomou nem um pau, tio", afirma suposto membro da uniformizada em mensagem de áudio que foi parar no YouTube. "Pelo menos se tivesse tomado um pau bem dado, irmão. Saído de lá rastejando, tá ligado? Não ia virar esse motivo de chacota aí, irmão."

Este, infelizmente, não é um fato isolado no futebol brasileiro, aquela eterna 5ª série em que os jogadores que são gays não assumem sua condição, os torcedores são todos heterossexuais, os cartolas fiscalizam desmunhecadas e a imprensa esportiva faz sensacionalismo ou tira sarro de qualquer manifestação que não seja "coisa de macho".

Episódios de patrulha e de violência contra homossexuais no futebol parecem eclodir cada vez mais – e com absoluta naturalidade. "O futebol é um elemento de construção de uma masculinidade violenta, agressiva, machista, truculenta e heteronormativa", diz o professor Flávio de Campos, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS) da Universidade de São Paulo (USP), um dos grandes especialistas nacionais sobre a função social do esporte. "A importância que o futebol tem pra sociedade brasileira é utilizada como definidora dos papéis a partir dessa lógica heteronormativa entre homens e mulheres."

Como atesta Campos, qualquer comportamento que fuja à regra do craque viril e machão é mal visto por aqui. Mas basta uma conta rápida para sacar que o futebol brasileiro está com a sexualidade trancada no armário. Ainda que não haja números certeiros sobre a porcentagem de homossexuais no Brasil e no mundo, estima-se que o número fique em torno de 2 a 10% da população – um estudo de um doutor de Harvard afirmou, em 2013, que 5% dos homens norte-americanos seriam homossexuais; no Brasil o Censo registra apenas casais homoafetivos, que já passam de 60 mil casais, 46% deles formados por homens. Então como explicar que num país em que há mais de 30 mil jogadores profissionais haja apenas um atleta assumidamente gay?

"Bambi do caralho. Lugar de bicha é dentro do armário!"

O rinoceronte-de-sumatra do futebol brasileiro se chama Jamerson Michel da Costa, mais conhecido como Messi, de 30 anos, goleiro do Alecrim Futebol Clube, de Natal. Sua orientação sexual ganhou proporção nacional em 2010 quando, jogando pelo Palmeira de Goianinha — time diminuto do campeonato potiguar —, assumiu-se homossexual.

À época o caso foi tratado com curiosidade, mas nenhuma análise mais profunda sobre homofobia no futebol brasileiro foi levantada. Messi, assim como qualquer outro gay neste país, sofre preconceito. "Neste ano pelo campeonato potiguar, a torcida do time adversário me agrediu várias vezes me chamando de bicha", disse a VICE Sports. "Eu me senti tranquilo e estava focado na partida, mas por outro lado, me senti muito triste. Acho que você tem que ir para o estádio para torcer por sua equipe e não para maltratar as pessoas mesmo que com as palavras."

O goleiro diz que sua orientação sexual prejudica também sua carreira profissional. "Dificilmente um time grande vai contratar um gay porque a torcida, com certeza, não iria apoiar", comenta. O preconceito, afirma, não vem só da torcida e da seleção homofóbica dos clubes. Entre seus companheiros de trabalho também há um tratamento, digamos, especial. "A maior dificuldade é a convivência com outros homens: alguns respeitam, outros não. Com esses que não respeitam a minha intimidade é só dentro de campo, fora não tenho muito bate papo."

Ele demonstra muita coragem e tem convicção de seu pioneirismo, mas a aceitação é um outro esporte pouco praticado por aqui. "Não me sinto aceito. A cada dia vejo que as pessoas estão se tornando mais preconceituosas no futebol", diz. Desde as notícias sobre "o goleiro gay do Rio Grande do Norte" já se passaram seis anos e até agora nenhum outro atleta fez coro ao solitário camisa 1. Messi finaliza afirmando o que todos já sabemos: "Assumidamente só tem eu mesmo, mas embutido deve ter vários."

"Boi, boi, boi. Boi da cara preta. Pega esse Richarlyson que tem medo de boceta!"


Ilustração: Verena Antunes/VICE

No mundo esportivo até temos exemplos de atletas gays, mas o tabu e a omissão se mantêm fortes como rocha. Alguns atletas, como o meia alemão Thomas Hitzlsperger e o falecido atacante inglês Justin Fashanu, se assumiram quando estavam às vésperas da aposentadoria. O primeiro jogador norte-americano a integrar este grupo foi o meia David Testo, que se aposentou muito novo, aos 30 anos, em 2011. Robbie Rogers, também dos EUA, sem contrato com nenhum clube, anunciou sua aposentadoria precoce aos 25 anos, em 2013. Seu retorno aconteceu três meses depois no Los Angeles Galaxy, time que defende até hoje. "Não dá para esperar que os atletas comprem essa briga, porque eles vão ter uma carreira abortada por essa questão", comenta Flávio de Campos.

No Brasil, o alvo mais notório da homofobia no futebol é o volante Richarlyson, de 33 anos, que neste Campeonato Paulista defendeu o modesto Novorizontino. Entramos em contato com o seu empresário, que foi enfático em negar uma entrevista sobre o tema. A negativa do porta-voz do atleta diz muito. O boleiro, que sempre se afirmou como heterossexual, sofreu com a torcida adversária e a de seu próprio clube — que inventava cantos homofóbicos ou então omitia seu nome no estádio. Não foram poucos os rivais que o apelidaram de "Bicharlyson" para agredir torcedores do time em que ele jogava. Mas o pior inimigo do jogador foi a imprensa. Diversos veículos sempre trataram com deboche sua suposta homossexualidade e foi um dos grandes agentes do discurso de ódio. Muitas das matérias sobre a carreira de Richarlyson são ilustradas com imagens que sugerem sua sexualidade de forma sensacionalista e desrespeitosa.

Dentro do clube em que atuou por mais tempo, o São Paulo, Richarlyson também sofreu policiamento e repressão. No final de 2009 o atleta, de férias, fez um aplique nos cabelos — situação que gerou matérias no mínimo questionáveis como esta do Globo Esporte — e foi pressionado pela diretoria do clube a desfazer o visual. Em uma coletiva de imprensa de 2009, quando ainda era atleta do tricolor paulista, Richarlyson falou sobre a pressão que sofria das arquibancadas: "Enquanto a manifestação vem em forma de grito ou de gesto, deixo pra lá", falou, em coletiva de imprensa. "Não tenho nem como avaliar o que eles buscam com esse grito. Tenho que dar satisfação ao presidente Juvenal, que paga o meu salário, ao técnico Ricardo Gomes, que me escala, e aos meus companheiros. Só depois vou pensar na torcida."

"Ô bicharada, filha da puta, não adianta inventar! A sua fama se consagrou, todo viado é tricolor!"

No começo de 2015, o volante, que falava em encerrar a carreira assim que fizera 33 anos, foi visto em uma quadra de vôlei no interior de São Paulo e novamente foi personagem de uma matéria do mesmo Globo Esporte que, em nome de uma abordagem descontraída, perseguiu o atleta e seus companheiros de time. A edição da reportagem, com sugestões sutis, mostra como Richarlyson é a maior vidraça do futebol brasileiro da última década. O bom rendimento que apresentava em campo não foi suficiente para alçar sua carreira profissional. Do São Paulo foi para o Atlético Mineiro, Vitória e começou a perder projeção nacional. Em 2008 chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira, mas sua ausência nos grandes clubes o tirou da vitrine. Não dá pra prever uma realidade alternativa, mas dá para, pelo menos, questionar um ponto: se Richarlyson não fosse tão vigiado, hostilizado e por vezes punido, sua carreira poderia ter ido além? Talvez.

Em 2012, especulações do mundo da bola levavam o atleta ao Palmeiras. A negociação que era dada como certa nos bastidores, no entanto, foi surpreendida com uma agressiva reação da torcida. Uma assustadora faixa em frente à Academia de Futebol do alviverde ostentava os seguintes dizeres: "A homofobia veste verde".

Para azar de todos, a homofobia veste todas as cores. "Ninguém quer assumir pra si essa ideia de não ser tão macho quanto os outros, quanto o cara que está provocando. Não se admite que alguém, seja um torcedor ou um jogador, expresse uma performance que não seja condizente com esse ideal de masculinidade e virilidade do futebol", explica Maurício Rodrigues, historiador e mestrando do Programa Mudança Social e Participação Política da USP. "A homofobia é potencializada pelo futebol, mas ela está na sociedade, em todos os espaços. Ela é aceita ali porque ela é aceita em geral", complementa Flávio de Campos.

A imprensa como combustível para o preconceito

O tema é tabu também entre os jornalistas na crônica esportiva. Não é comum vermos um comentarista levantar a bandeira contra a homofobia. A reação costuma ser quase sempre de deboche. "Não esqueça que no Brasil futebol é para homens, isso se torna ainda mais grave", afirma o jornalista Juca Kfouri. "Estamos falando de uma coisa complicada. Isso está na raiz do machismo brasileiro, desta coisa homofóbica que caracteriza a cultura do brasileiro. Antes da gente pensar em como a imprensa esportiva trata a sexualidade, precisamos pensar em como o nosso humor trata disso. É uma área de expressão artística e trata o homossexual como se fosse um ser, no mínimo, ridículo", completa. Procuramos também o ex-jogador e colunista Tostão, mas ele não se sentiu confortável com o tema e preferiu não se pronunciar.

As piadolas sem graças e as tirações de sarro parecem migrar das arquibancadas para as mesas redondas dominicais, como nesta resenha do Sala de Redação da Rádio Gaúcha sobre a Poltrona 36. Os comentaristas riem do boato sobre dois zagueiros do Grêmio terem praticado sexo oral dentro do ônibus da equipe. Anos antes, no programa Mesa Redonda, da Gazeta, o comentarista Milton Neves, irritado, quis dar o troco em uma discussão acalorada e disse, em tom de ofensa, que "há um homossexual na mesa". Isso sem contar nos incontáveis casos de omissão da imprensa em casos claros de homofobia.

"A imprensa esconde a poltrona 36! O capone e o bilica fazem parte da tua vida, a geral só encocha, o chiqueiro vai cair!"

Uma dessas omissões ficou famosa em 2014. Durante uma partida pela Copa do Brasil na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, torcedores gremistas ofenderam o goleiro Aranha, na época jogando pelo Santos, com insultos racistas. O caso ganhou proporção nacional, uma das agressoras foi reconhecida, julgada e condenada, inclusive no tribunalzão do Facebook. No confronto seguinte entre as duas equipes no Rio Grande do Sul, o jogador foi novamente agredido, mas em vez de o atacarem por sua raça, questionaram sua sexualidade e no lugar de gritos de "macaco", rolaram gritos de "viado". A ação, entretanto, não virou manchete. "Tem exemplos costumeiros de omissões de jornalistas com reações homofóbicas das torcidas. A mais evidente é quando o time adversário vai bater o tiro de meta, a torcida grita 'bicha' e o comentarista passa como se isso não tivesse acontecido", diz Flavio de Campos. "Uma censura do narrador com relação a isso não seria só importante, mas seria obrigatório o posicionamento em situações em que ocorre homofobia. Essas matérias omissas ou homofóbicas reforçam essa construção de papéis que o futebol tem dessa identidade masculina, desde a infância até os mais velhos."

O professor atenta ao fato de que os atletas negros têm organizado contra o racismo, diferentemente do que acontece com a homofobia: "Temos séculos de luta dos movimentos negros na sociedade brasileira contra o manifestações racistas, sobretudo a partir da década de 40, mas não existe a mesma reação da sociedade contra a homofobia, que é vista como normal."


Ilustração: Verena Antunes/VICE

Muitas vezes a imprensa se presta também a fazer o serviço inverso, o de colocar panos quentes quando alguma coisa foge ao controle heteronormativo do futebol. Um caso famoso foi o do ex-atacante Ronaldo Nazário, que na época atuava pelo Milan, da Itália. Ele se envolveu em um escândalo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com duas travestis. O "incidente" rolou na madrugada do dia 28 de abril de 2008. Uma semana depois, o Fantástico, da Rede Globo, exibiu uma matéria de 15 minutos com o ex-craque para tentar passar um pano na "sujeira" feita. A entrevista feita pela jornalista Patricia Poeta abria com uma espécie de lista de predicados de Ronaldo, entre eles ser milionário, ter se relacionado com lindas mulheres e ser embaixador da Unicef. Na entrevista, claro, o ex-jogador nega qualquer relação com as travestis.

Ô, ô, ô, ô! Sheik, viado!

Outro que ganhou espaço para "se explicar" foi o atacante Emerson Sheik. Em agosto de 2013, o atacante, que jogava pelo Corinthians, postou em seu Instagram uma foto de um selinho em um amigo, Isaac Azar, dono do restaurante Paris 6. No dia seguinte, o atleta estava no programa Donos da Bola, da TV Bandeirantes, para se desculpar com quem se ofendeu e falar sobre a polêmica. Na mesma emissora, outro programa, o Jogo Aberto, tratou o tema com menos elegância. Ao som de "I Will Survive", da Gloria Gaynor, o ex-atacante Denilson comentou o caso em tom jocoso. Quase um ano depois, o atacante ainda enfrentava problemas com a "fama de homossexual". Num incidente com o zagueiro Lúcio, Sheik afirma que foi chamado de gay pelo adversário.

A torcida corintiana, pra variar, não reagiu bem ao beijo. O que parece é que o ato em si não importa muito, mas o medo da zoeiragem dos adversários pega mal. "As pessoas vão tomar isso como uma ofensa a si próprias. Quando alguém apresenta um comportamento que fere a construção da masculinidade, ele tá ferindo o grupo todo", diz o professor Flávio de Campos. No dia seguinte faixas fofas como "Aqui é lugar de homem", "Fora Sheik, viadinho", "Vai beijar a P.Q.P" e "Viado não" foram levadas ao Centro de Treinamento do clube. O atleta, inclusive, teve uma reunião à portas fechadas com membros de organizadas para — novamente — se explicar. Procuramos o atleta por vários dias, mas seu assessor de imprensa não respondeu a nenhuma de nossas mensagens ou ligações.


Ilustração: Verena Antunes/VICE

A curta ascensão das torcidas gays

Esse policiamento das torcidas, principalmente das organizadas — como o relatado no início do texto —, é a regra em qualquer cube de futebol brasileiro. Se é comum ter divergências entre cartolas e torcedores, a heteronormatividade os une.

Há, porém, uma falha na Matrix e ela se chama Coligay. A torcida gremista, fundada em abril de 1977 — período de Ditadura Militar —, foi a primeira torcida assumidamente homossexual do Brasil. "Eles eram de uma boate gay de Porto Alegre chamada Coliseu, eram gremistas e gostavam de ir aos jogos. Resolveram ir juntos e fazer uma festa", explica o jornalista Léo Gerchmann, autor do livro Coligay: Tricolor de todas as cores. Presidida por Wolmar Santos, a torcida ficou até 1983 com representatividade nas arquibancadas. Leo explica o processo: "Eles começaram a ir super caracterizados e não falaram nada com o Grêmio. Depois de já terem ido em alguns jogos, o Wolmar e uns companheiros da torcida foram até o presidente, que na época era o Helio Dourado, que diga-se de passagem é um cara politicamente muito conservador. O Hélio Dourado disse. 'Eles são grrrrremistas, isso que me importava, o que eles faziam depois não me interessa'". Outra torcida, a Fla-Gay, do Flamengo, tentou algo semelhante. Criada pelo lendário Clóvis Bornay, a entidade foi criada em 1979, mas foi perseguida e durou poucos meses nas arquibancadas.

O caminho de se assumir gay no estádio na década de 1970, como é de se imaginar, não era nada fácil, mas havia um ímpeto e até certa inconsequência em alguns grupos LGBTT. Hoje, num futuro quase distante, o caminho natural seria imaginar que esse processo está ainda mais facilitado. A realidade, porém, é outra. Há um número maior de torcidas que lutam contra a homofobia, mas elas, infelizmente, perderam — e muito — o espaço nas arquibancadas. "Infelizmente abrir uma faixa no estádio é uma coisa fora de questão no nosso contexto em Belo Horizonte e na torcida do Atlético. Nós não nos sentimos seguros", afirma Nathalia Duarte, fundadora da Galo Queer, do Atlético Mineiro, na ativa desde 2013.

"Na época que criamos a página fomos alvos de ameaças, xingamentos e, infelizmente, a gente ainda só atua por meio virtual", diz Nathalia. Ela ressalta a distância da diretoria do clube em relação à Galo Queer. "A gente tentou entrar em contato com a diretoria do Atlético e não nos responderam. Simplesmente ignoraram o movimento que estava acontecendo e isso é comum. É uma questão que não é encarada como parte do futebol."

Flávio de Campos concorda que, de fato, na internet o anonimato e a integridade física dos torcedores é garantida. Mas ressalta o absurdo da situação. "O mais hipócrita disso tudo é que LGBTTs estão na torcida e estão entre os atletas, mas eles têm que manter uma espécie de sigilo, um segredo, em relação a isso", argumenta.

Além da Galo Queer, torcidas como Palmeiras Livre, Bambi Tricolor, EC Bahia Livre, Furacão - Sem Homofobia, Coxa - sem Homofobia e Queerlorado discutem e jogam holofote no preconceito, mas nenhuma delas busca espaço dentro dos estádios e esse é o grande alvo de críticas a esses movimentos. "O papel que elas exerceram foi de uma desestabilização do status dentro do futebol. Isso foi bem representativo, mas é importante que esse movimento não pare", afirma Luiza dos Anjos, doutoranda em Ciências do Movimento Humano da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "Não vejo atuação delas hoje, elas não são uma alternativa às torcidas tradicionais, atuam mais como comunidades virtuais que discutem sexismo, machismo e homofobia dentro do futebol."

O jornalista Léo Gerchmann concorda com a pesquisadora e acredita que hoje o caminho de ocupação nas arquibancadas seria mais fácil do que há 40 anos. "É claro que é difícil, mas uma coisa é tu sentar a bunda na arquibancada e outra coisa é tu ficar na internet. É completamente diferente. Eu discordo da menina da Galo Queer neste ponto", afirma. "Eu imagino a Coligay no estádio e imagino a torcida do Grêmio a protegendo."


Ilustração: Verena Antunes/VICE

Lésbicas como fetiche e a violência simbólica

A falta de representatividade, no entanto, não se restringe aos gays. Além de excluir os homossexuais pelo estereótipo de "afeminados", o esporte "de macho" também exclui as mulheres. No Brasil, elas só conquistaram direito aos gramados em 1979. Esse histórico, segundo Luiza dos Anjos, criou no imaginário popular a ideia de que mulher não gosta de futebol e, quando gosta, só pode ser lésbica. "Isso cria preconceito contra mulheres futebolísticas porque a homossexualidade é vista como algo negativo, mesmo para as mulheres, então acaba se tachando o futebol como uma coisa só de lésbicas, que não se deveria incentivar entre elas", explica a pesquisadora.

A sexualidade das jogadoras não costuma ser alvo de chacota na mídia como acontece com os homens, mas na arquibancada é outra história. As lésbicas são aceitas na torcida a partir do momento em que elas se apresentam de forma estereotipada e comportam feito "macho". "A mulher lésbica mais masculinizada, que está em sintonia com essa ideia de força, de fortalecimento masculino é aceita na arquibancada. Algumas mulheres que vão para o estádio têm um aspecto que as distinguem, elas não afetam a masculinidade predominante da torcida É palatável, incomoda menos, elas não estão atacando a virilidade", afirma o professor Flávio.

"Ôôôôôôôôôô, BICHA!"

Fora do estádio, as lésbicas são parte do imaginário de fantasia sexual masculino. No mundo do futebol, todas as mulheres cisgênero (aquelas que se identificam com o gênero ao qual foram designadas ao nascer) são objetificadas. "É 'socialmente aceito' desvalorizar a mulher no universo do futebol, deixar um jogador mostrar uma performance de garanhão posando numa foto com mulheres de biquíni", diz o historiador Maurício Rodrigues. Nas torcidas queer, no entanto, elas são maioria. "Dentro do estádio o lugar da mulher é restrito e há várias violências simbólicas", explica Nathalia Duarte, da Galo Queer.

A homofobia no futebol brasileiro está longe de ter solução. Há, porém, alguns caminhos para ao menos dar visibilidade ao tema. "Isso tem que ser falado. A discussão não pode ser episódica, tem que ser lembrado que tudo isso faz parte de uma sociedade que mata gays na rua, isso faz parte de um sistema muito mais amplo", diz a doutoranda Luiza. Ela acredita que, por meio da educação e de campanhas de conscientização, podemos caminhar para um futuro mais igualitário. Para ela, a punição também é necessária.

Ilustração: Verena Antunes/VICE

Em 2014, o presidente do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS), Paulo Iotti, entrou numa briga judicial para tentar punir os homofóbicos da torcida do Corinthians. Em um dos jogos do Campeonato Paulista, ele contou pelo menos 12 vezes em que a torcida gritou "bicha" na hora em que um jogador adversário ia bater o tiro de meta. O mesmo aconteceu em jogos do Grêmio, do São Paulo e, como um vírus, a homofobia se espalhou para os estádios de todo Brasil. Ele fez uma denúncia ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), mas o tribunal a rejeitou. "Eles alegaram que era um grito mal-educado, criticável, mas que na visão deles não configuraria discriminação, o que é um absurdo", relata Paulo.

Ele recorreu à decisão e agora pretende acionar a Defensoria Pública para entrar com um pedido de indenização à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por danos morais coletivos. "O STJD acha que precisava estar explícito no Código de Justiça Desportiva que não pode haver discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero, mas o Código proíbe gritos discriminatórios em geral e a Constituição Federal proíbe discriminações em geral", argumenta o advogado. "Você está usando a homossexualidade como ofensa, está chamando alguém de homossexual visando diminui-lo em razão disso, então obviamente é um grito discriminatório, é um grito preconceituoso, seja ou não o atleta homossexual", completa.

Na semana passada membros da mesma Gaviões da Fiel que puniu um de seus associados por ser gay, começou uma campanha para acabar com o grito de "bicha" dentro de seu estádio. Em 2014, uma medida parecida parecida foi tomada pela organizada e o Corinthians divulgou um manifesto pelo fim da homofobia, mas segundo Paulo Iotti, a iniciativa do clube foi tomada mais para evitar uma punição do que para erradicar a homofobia. "Foi uma boa iniciativa, mas eles só fizeram isso, porque o Grêmio tinha acabado de ter sido expulso da Copa do Brasil pelo grito de 'macaco' dos torcedores, então o time ficou preocupado. Mas não deixa de ser uma iniciativa positiva, os clubes têm que fazer isso, mostrar que o futebol é um ambiente inclusivo pra homossexuais", afirma.

Ilustração: Verena Antunes/VICE

A mudança só poderá vir das arquibancadas

O medo e a truculência são os motores que mantêm a roda da homofobia girando. Gay assumido, militante e corintiano roxo, Paulo diz que jamais pisaria na arquibancada com seu namorado para torcer pelo seu time. "O estádio é um lugar extremamente perigoso pra homossexuais. Muito em função das torcidas organizadas que são homofóbicas. Não é culpa só das torcidas, mas da cultura do futebol que é homofóbica", explica.



"Ô ô ô ô. A Coligay voltoooou!"

Um norte para a solução deste problema poderia vir de dentro dos clubes. Algo que nascesse nas entidades e fizesse com que os próprios torcedores se policiassem para controlar a situação. Uma iniciativa de dentro para fora combinada com o engajamento dos atletas pode ser uma saída, mesmo que utópica. "Sei que é uma coisa quase ilusória, sonhadora, mas o dia em que uma torcida grande bancar isso e começar a coibir práticas homofóbicas, a gente muda o jogo. A gente precisa de uma torcida forte que diga que isso é uma cretinice", diz o professor Flávio.

Talvez, num futuro próximo, nossos filhos e netos assistam pela TV às mesas redondas mais conscientes e menos preconceituosas. Talvez um dia eles possam ir ao estádio sem ter que se preocupar com trejeitos, brincos, piercings e outros pormenores. Talvez ainda estejamos vivos para ver jogadores de futebol assumindo sua orientação sexual publicamente e fazendo campanha conta a homofobia no esporte. Assim como o Paulo, temos convicção de que, ao contrário do que se pensa, gays gostam sim de futebol.

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