Torcedores palmeirenses e corintianos acusam SSP de negligência nas tretas do dia 3 de abril
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Torcedores palmeirenses e corintianos acusam SSP de negligência nas tretas do dia 3 de abril

Falta de policiamento, vazamento de informações e redução de contingente às vésperas de jogo inflamado. É claro que nada justifica a violência que resultou em morte, mas há muita coisa mal explicada na segurança do clássico 45 dias atrás.
18 Maio 2016, 7:00amUpdated on 18 Maio 2016, 4:06pm

Prisão em uma das brigas de 3 de abril. Foto: Divulgação

No domingo de 3 de abril, as torcidas de Corinthians e Palmeiras se enfrentaram em três pontos da capital e grande São Paulo horas antes do clássico pelo já longínquo Campeonato Paulista. Em Guarulhos, no metrô Brás e em São Miguel Paulista, brigas homéricas foram travadas e um idoso que nada tinha a ver com a história morreu baleado.

Como resultado, a descriminalização das organizadas deu muitos passos pra trás. A pedido do Ministério Público de São Paulo, decretou-se que os clássicos até o final do ano terão apenas uma torcida e também que as organizadas estão proibidas de frequentar as arquibancadas até segunda ordem. A medida anunciada pelo então Secretário de Segurança Pública Alexandre de Moraes — atual Ministro da Justiça no governo interino de Temer — e pelo promotor do MP-SP Paulo Castilho proíbe faixas, instrumentos e itens que identifiquem uma torcida.

É importante reiterar a grande parcela de culpa dos torcedores do Palmeiras e Corinthians que entraram em confronto, óbvio, mas há uma série de perguntas que permanecem sem respostas depois desses 45 dias. Para reforçar sua memória, na época, alguns protestos políticos foram feitos por torcidas organizadas como Torcida Jovem do Santos, Independente do São Paulo e os Gaviões da Fiel, maior uniformizada do Corinthians, contra Fernando Capez, Castilho e outros figurões. Mais engajados nas causas, os corintianos marcharam até a sede da Federação Paulista de Futebol, foram até a frente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, organizaram um protesto no Vale do Anhangabaú e, por consequência, passaram a sofrer repressões policiais depois dos jogos.

A tensão entre torcedores e autoridades já estava tensa. Para piorar, dois antes do jogo, houve o anúncio daprisão de um torcedor palmeirense, acusado de ter agredido o presidente dos Gaviões da Fiel e um secretário da entidade. Identificado como Deivison Correia, de 26 anos, também conhecido como Menor, foi preso por tráfico de drogas e seu confinamento foi anunciado em uma coletiva de imprensa na sexta-feira pré-jogo. Jornais e sites publicaram manchetes de que um membro da Mancha acusado de agredir outro da Gaviões havia sido preso.

Não precisa ser nenhum gênio para entender que tal panorama inflaria ainda mais os ânimos entre as organizadas. Para Margarete Barreto, titular da Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) e uma das responsáveis pela prisão do palmeirense, porém, o enredo seria outro – muito mais tranquilo, falou. "A gente acredita que a ação eficaz da polícia acabe afastando essas pessoas de novas práticas delituosas", comentou durante a coletiva.

Esta afirmação, porém, levanta dois pontos: ou a investigação foi muito inocente em prender um palmeirense acusado de atacar um corintiano às vésperas do clássico ou não se importou com esse detalhe. De qualquer forma, foi determinante para o que se sucedeu.

E aqui vale explicar outra minúcia muito importante: em jogos entre os grandes de São Paulo, costuma haver uma reunião preventiva na sede do 2º Batalhão do Choque, responsável pelos conflitos de torcidas. Nesta reunião temos, claro, os policiais e representantes das torcidas. Há também membros do Metrô, Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Companhia de Engenharia de Trafego (CET), São Paulo Transporte (SPTrans), além da promotoria pública, direito do consumidor, entre outros órgãos. Mesmo com todos presentes nas reuniões, o esquema de segurança parece, de acordo com os relatos, ter sido falho desde o princípio das ações.

Segundo os torcedores – muitos não envolvidos nas brigas – houve negligência na segurança nos três principais pontos de conflitos entre as organizadas: Estação Brás do metrô, São Miguel Paulista e Guarulhos. O que evidencia ainda mais tais acusações é um documento entregue pela Mancha Alvi Verde que detalha os horários e endereços das concentrações dos palmeirenses. Coincidentemente, são os mesmos horários dos confrontos com os corintianos. "Acredito que essas informações foram passadas porque os horários batem certinho", afirma Janio Carvalho dos Santos, presidente de honra da torcida alviverde.

Cristiano de Moraes Souza, secretário dos Gaviões da Fiel, comenta que ninguém da sua torcida imaginava que se depararia com os rivais pelo caminho. "Inimaginavelmente alguém sabia que a Mancha Verde ia sair de lá, mas o Gaviões não sabia disso, pelo menos a diretoria não sabia disso", diz. "Não sabíamos dos horários da outra torcida. Isso não é uma prática que se usa no Batalhão. Cada torcida fala separadamente no final da reunião com o capitão e com os órgãos competentes, que são o metrô e a CPTM. A gente combina os horários só com eles. Não tínhamos conhecimento nem de lugar e muito menos dos horários que eles sairiam." Ao ser perguntado se a reunião foi diferente do que costuma acontecer, ele é enfático. "Foi uma reunião normal, como todo jogo tem."

Procuramos a Secretaria de Segurança Pública para nos informar os procedimentos da operação, mas tudo que recebemos foram comunicados burocráticos via e-mail, inseridos ao longo dos itens abaixo. Baseados em documentos e relatos de torcedores, separamos os detalhes dos três palcos das brigas e mostramos os indícios de que houve falha de segurança.

São Miguel Paulista

Ao recorrer ao Serviço Estadual de Informações ao Cidadão, obtivemos o Boletim de Ocorrência que registrou o confronto entre torcedores do Corinthians e Palmeiras em São Miguel Paulista, no extremo leste de São Paulo. A briga ocorreu por volta das 10 horas da manhã, o mesmo horário indicado para a concentração de associados no documento da Mancha Alvi Verde. "Normalmente em São Miguel Paulista [na base da polícia em frente à estação de trem] ficam uns 10 policiais, no domingo tinham dois", afirma Jânio.

Segundo o relato do B.O, trecho publicado abaixo, torcedores do Palmeiras estavam concentrados, de maneira pacífica, na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, quando "repentinamente" torcedores do Corinthians, armados com pedaços de pau, pedras e rojões, apareceram. Os torcedores do Palmeiras correram para a estação de trem e os policiais "partiram para o encalço dos suspeitos". Só então que perceberam um corpo de um senhor de aparentemente 60 anos já morto no local.

Foram apreendidos 40 cabos de madeira, rojões, pedaços de ferro e uma touca de cor preta. Não encontraram a arma de fogo responsável pelo disparo. Ainda de acordo com o documento, foi redigido um Termo Circunstanciado, por julgarem um crime de menor potencial ofensivo.

O que fica claro é que, mesmo sabendo da concentração de palmeirenses, o policiamento não foi reforçado. Foi reduzido. A Polícia Militar ignorou a turbulência que girava em torno da partida e, de certa forma, assistiu a um confronto de dezenas de pessoas que culminou num homicídio. Se tal ação não pode ser enquadrada como negligência, está difícil entender os parâmetros da omissão neste conflito.

Guarulhos
Na cidade vizinha a São Paulo a história não foi tão diferente – felizmente sem uma morte.

Segundo o Boletim de Ocorrência, também conseguido pela VICE por meio da Serviço Estadual de Informações ao Cidadão, por volta das 9h30 da manhã, meia hora antes do horário estipulado pela Mancha Alvi Verde para a concentração de seus torcedores, algumas pessoas avisaram o sentinela da base na Praça IV Centenário, no Jardim Santa Francisca, que uma briga generalizada acontecia perto da li na Rua Doutor Washington Luiz na esquina com a Rua José Bernardo de Medeiro.

A Guarda Civil Metropolitana conseguiu capturar 18 torcedores do Corinthians e sete palmeirenses. Um membro de cada torcida foi levado ao hospital. Os policiais atiraram com bala de borracha, mas não sabem precisar "quantos guardas municipais fizeram uso da arma calibre 12 e se a munição atingiu algum envolvido."

Foram encontradas 18 barras de ferro, três pedaços de madeira, 18 morteiros e cinco rojões. "Todo(s) o(s) autor(es)/vitima(s) foi(ram) formalmente ouvido(s) e liberado(s) depois que assinou(aram) um termo onde se compromete(m) a comparecer no Jecrim (Juizado Especial Criminal) todas as vezes que for(em) notificado(s)", diz a nota.

Aqui, novamente, vemos uma concentração de cerca de uma centena de pessoas em conflito, e as autoridades locais simplesmente não perceberam a movimentação. Os policiais tinham acesso ao endereço de onde partiriam os torcedores palmeirenses, sabiam de seu trajeto e simplesmente não havia nenhuma patrulha junto da organizada.

Brás
Geralmente a torcida, seja qual for, sai do vagão do trem na estação Brás e é escoltada pela tropa de choque da Polícia Ferroviária com uma média de 20 a 30 oficiais e todos os aparatos comuns nessas ocasiões: escudo, capacete, bala de borracha, bomba. Eles são conduzidos até a divisa da CPTM com o metrô, ainda dentro da estação. Antes da catraca do metrô, um grupo de seguranças da instituição barram a organizada até que o o veículo esteja parado e com as portas abertas na plataforma. Os dois últimos vagões costumam ser destinados só para os torcedores. Dentro do metrô, eles continuam acompanhados pelos seguranças. No terminal Barra Funda há outra equipe que os leva até a catraca e lá tem o policiamento normal dos arredores dos estádios.

Segundo a Mancha Alvi Verde, no dia 3 de abril ao desembarcarem na estação Brás do trem não havia o policiamento comum dos dias de jogos."Não tinha a segurança da CPTM, não tinham os seguranças do metrô, não tinha ninguém", diz Jânio. Os torcedores do Palmeiras subiram para a plataforma e aguardaram, como de costume, nos últimos vagões. No sentido contrário, dentro do trem que parava na estação, torcedores do Corinthians também desceram. "Já aconteceu algumas vezes de ter torcedor do outro lado e nessas situações o metrô segue direto com os torcedores que estão dentro do trem porque tem torcedor ali e é o melhor a fazer para evitar conflito", complementa o palmeirense. Segundo a organizada, quando a composição parou, as portas foram abertas e o maquinista abandonou o local. A assessoria de imprensa do metrô não respondeu às nossas indagações e afirmou que "as informações sobre estratégias de segurança pública e apuração de ocorrências devem ser obtidas com a Segurança Pública".

Em nota e sem um porta voz – que é um modo muito sacal de comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo dialogar com a imprensa – a instituição informou que "a PM emprega um grande contingente policial em toda a cidade durante os clássicos de futebol na Capital. O foco principal é nos grandes corredores, estações de trem, metrô, terminais de ônibus, entre outros pontos de interesse". Na mesma nota, continuou: "A SSP informa que foram detidas 60 pessoas nas quatro ocorrências de confronto de torcedores neste domingo (3). Dentre elas, 43 foram identificados no cadastro da Federação Paulista de Futebol de torcidas organizadas. Essa lista foi enviada para Federação. As imagens dos fatos estão sendo analisadas para identificar todos os envolvidos. Além disso, o serviço de inteligência da PM monitora redes sociais e informações para o planejamento operacional, junto com os dados das reuniões preparatórias realizadas com os clubes e representantes de torcidas".

Ao ser questionada sobre a legalidade do documento apresentado pela torcida Mancha Alvi Verde, sobre a coincidência dos horários do ofício com as brigas, sobre o possível vazamento por parte da polícia das informações sigilosas, sobre a falta de policiamento no ponto de encontro dos palmeirenses em Guarulhos e sobre a redução do contingente na base policial de São Miguel Paulista, a SSP simplesmente não se pronunciou. Tal medida mostra a falta de transparência sobre os acontecimentos do dia 3, o que dificulta, claro, ouvir todos os lados envolvidos e tentar apurar uma história que está, no mínimo, mal contada.