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Este Artista Deseja Ser o Maior Traficante de Pintos do Mundo

Ele quer botar o pau na mesa de centro da sociedade.
05 Agosto 2014, 12:00pm

O artista Shoker se apresenta como um "dick dealer". Pelo que entendi, ele quer botar o pau na mesa de centro da sociedade. Até aqui, seus moldes de pirocas já personificaram uma centena de temas e figuras históricas, que vão de Nietzsche a referências bíblicas. Entrevistamos o sujeito para saber qual é a dele

"Tudo nesse mundo pode ser pintoficado a qualquer momento", decreta o artista paulistano Thiago dos Reis aka Shoker. Já faz um tempo que ele entrou numa brisa forte de usar moldes de pirocas como plataforma para suas ilustrações. Poderia ser darumas, bonecas russas, toy art, mas o cara acredita que a representação pictórica fálica é muito mais style. E ainda: que ela deveria ser agraciada, oficialmente, com uma categoria particular na história da arte, considerando que existem registros bem antigos e diversos de gente que experimentou fazer alguma coisa nesse sentido. Na real, aposto que vira e mexe deve ter alguém em algum curso de artes plásticas querendo chocar os professores ao inventar algum lance super vanguarda com pinto e coisa e tal. Mas como levar a ideia às últimas consequências depois de perceber que vai ser casca atingir o status de um Herman Makking?

Complicado. Já que os próprios exemplares do Shoker não mostram um refinamento que possamos assinalar como fine art. Digo, algo que os críticos de arte considerariam admirável. O que chama atenção mesmo nessa pira dele é sua curiosa imaginação, capaz de transformar qualquer personagem ou temática num bonequinho pintoficado, que ele vende pela internet a partir de R$ 200. Quando o maluco veio me mostrar as fotos dos trampos, dizendo que era "a cara da Vice", perguntei se ele não curtia fazer nada com buceta ou cu, e a resposta foi: "Faço umas bucetinhas, mas a pintoficação é o carro-chefe. É que com as rolas eu consigo me expressar melhor, essas birutices que chamam de criatividade." Então, tá.

De qualquer forma, o Shoker me garantiu que vai fabricar o dobro de caralhos expositivos para cada um que disser que isso não é uma das propostas mais interessantes jamais explorada, de modo apropriado, pela cultura pop. Para ele, ter uma pica toda ornamentada como bibelô em casa deveria ser algo tão aceitável quanto ostentar um pinguim em cima da geladeira. Desde que ele abandonou a confecção de sabonetes fálicos para assumir o mastro da arte fálica, já retratou mais de 100 temas ou figuras históricas.

No Butão, é absolutamente normal a venda e a apreciação de esculturas, chaveiros e outros mimos em formato de pênis. Isso porque o povo de lá acredita que, entre outras coisas, uma rola desenhada na parede de sua residência atrai boa sorte e espanta os espíritos do mal. Mas nós não estamos no Himalaia e, por essas bandas, as galerias e curadores de arte torcem o nariz para as divertidas jebas do mano – segundo o próprio. O que o deixa meio de saco cheio a ponto de planejar meter o louco na próxima Bienal: chegar lá sem ser convidado e fazer uma intervenção. Não sei se já estou estragando a ação do sujeito por dedurar aqui esse lance, mas acho que não pega nada, porque ele mesmo dá a letra nesta entrevista. Troquei uma ideia com o Thiago na pura curiosidade de saber qual é a dele. Acompanhe:

VICE: Há quanto tempo você vem trabalhando com esse tipo de arte, e como essa ideia surgiu?
Thiago dos Reis aka Shoker: Oficialmente, há quatro anos. Como surgiu: eu costumo dizer que foi um milagre de Natal, e foi tipo isso mesmo. Era dia 24 de dezembro, eu tinha queimado a largada feio (chapado antes de o feriado começar) e comecei a ver esses filmes bíblicos que passam em dezembro na TV aberta. No intervalo, trocando de canal, me deparo com um figura ensinando as donas de casa a fazerem sabonetes artesanais, em um desses programas podres da tarde. Eu me lembro nos mínimos detalhes. Ele falava pausadamente: "sabonete em formato e aroma de maçã, pera, morango...". Comecei a rir sozinho, virei a mesa, pulei da cadeira gritando: "sabonete do meu caralhooo, sabonete da minha rola". Na hora me veio a imagem de um exército de pintos de glicerina e uma chuva de dinheiro atrás deles. Corri à cozinha, onde minha mãe e um amigo estavam bebendo uns drinks, e lancei: "Eu vou ser o maior traficante de pinto do mundo". Daí, tarde demais. Comecei minha empreitada. Em uma questão de dias eu meti gesso na parada (na forma do sabonete) e fiz o primeiro falo, uma rola de gesso folheada a ouro. Depois virou um hábito pintoficar tudo ao meu redor.

Essa sua relação com a estética fálica é antiga, então? Que papo é esse dos sabonetes pintoficados?
Sim, porra, desenhar caceta era comigo mesmo desde os tempos da escola. Foi a minha geração, que não tinha nada pra pichar na parede do banheiro e desenhava aqueles caralhinhos com uma gota, ou escrevia cu acentuado. Isso foi anos 90, não se vê mais esse tipo de coisa por aí. O lance do sabonete... Bem, eu acreditava que o vender em forma de pinto poderia me deixar rico sem ter muito trabalho – e manteria, assim, minha carteira de trabalho invicta de qualquer registro. Eu estava precisando de uma grana, e minha primeira inspiração foi esse lance do cara que ensinava a fazer sabonete em programa de tarde. Lembro de uma época em que eu morava no sofá da sala no apê de três amigos, estávamos no barato de sair e beber naquela noite. Mas estávamos os quatro muito duros. Era véspera da parada gay em SP, sugeri de a gente vender sabonete pela região da Paulista. Enchi a mochila de piroca e fomos. Estávamos já bem animados e abordávamos todo mundo que passava, madrugada adentro vendendo rola. Vimos todo tipo de reação que existe no ser humano, mas eu tenho poucas lembranças do evento. No outro dia notei que estávamos todos sem R$ 1 de novo. Vem fácil, vai fácil, esse tipo de coisa. Deixei de fazer os sabonetes por problemas administrativos. Gosto de pensar que essa coisa, que me sustentou por uns meses aí, evoluiu pra arte de pintura em rola de gesso. Preciso me concentrar no que estou fazendo pra sentir que estou fazendo direito.

Quer dizer que você era daqueles moleques, na escola, que tinham mania de desenhar pintos nas paredes e tal? No assento do busão, essas coisas... Sempre tem uma gurizada com essa noia, fala aí?
Como qualquer criança, eu desenhava também. Crianças fazem isso quase instintivamente, e gosto de imaginar o porquê disso. Acredito que em todo lugar que tiver um genital, vai haver uma reação irracional e geralmente ridícula, tanto de gente nova quanto de gente velha. Crianças estão muito mais suscetíveis e viajam com o humor que está intrinsecamente ligado a partes pudendas, às vezes sem nem considerar a dimensão sexual delas. Uma coisa que me lembro de ter feito na escola foi chamar o rabo do moleque que sentava na minha frente de "meu ganha-pão" (na carteira também) e dar uma péssima infância pra ele.

O molde que você usa, desde os tempos dos sabonetes, é sempre o mesmo? Se sim, de onde veio esse formato-padrão?
Sim, sempre os mesmos. Uso moldes de silicone. Tenho um mano que me fornece a parada.

Por que não investir em formatos e tamanhos diferentes? Tipo uma piroca gigante alada, outro que dá um nó no meio, umas coisas doidas assim?
É pra ir contra a maré da era da ostentação. Tudo hoje é cheio de personalização, do formato preferido do cliente, disso, daquilo e o caralho. Principalmente quando o assunto é pinto: o primeiro clichê que vem em mente quando a gente fala de piroca é que a sua — e só a sua— é a maior e mais grossa de todas. Como eu tratei de abstrair o dito cujo e colocá-lo no lugar da tela do artista, usá-lo em formato único já valeu como a primeira mensagem pro público. Encare a piroca do Shoker como um ser espiritual, como um arquétipo. Usar só esse arquétipo me limita, sem dúvida. Mas quero esgotar as possibilidades que tenho em mãos antes de partir pra outros formatos. Não descarto essa carta na manga, claro. Nunca fiz isso.

Quando você começou a criar essas picas, qual era a ideia que tinha ou tem em mente? Fazer algo bem humorado, engraçado, chocante, polêmico, comercial?
Tudo isso que você falou... cara, foi tudo uma mistura de ambição e prazer, eu não tenho profissão e nunca tive um emprego comum. Até porque eu não vou trabalhar, tô com 29 anos nas costas e não aguento mais ficar trabalhando. Meu trabalho é criar, pintar e dar vida ao meu universo. É o que eu tomei pra minha profissão.

Você vende essas paradas ou sua ideia é fazer intervenções urbanas com isso? As rolas são uma boa plataforma para qualquer tema? Digo, dá pra pintar de tudo nelas?
Vendo, troco e financio. Comigo o negócio sempre deu certo. Faço intervenções na rua, claro, mas elas sempre tiveram a intenção de divulgar minha arte e arrancar alguns sorrisos dos transeuntes, da maioria frita e algemada no seu mundo cotidiano. A última intervenção que fiz foi na Paulista, em época de feriado. Deu super certo, todo mundo gostou e pegou as picas pra eles numa questão de minutos. E sim, tudo nesse mundo pode ser pintoficado a qualquer momento.

Antes de te entrevistar fui naturalmente investigar sua fama e descobri que você organizava umas surubas. Que papo é esse, bicho, você é tipo um taradão do rolê? Isso tem alguma relação com a sua arte, ou não tem nada a ver?
Por muito tempo eu trabalhei com eventos. Eles iam desde shows de rock até orgias beneficentes (leve um quilo de alimento não-perecível e muito amor pra dar, esse tipo de coisa). O que você deve ter ouvido foi uma época em que me arrisquei no ramo do pornô caseiro. E sim, isso envolvia outras pessoas. Sempre tive o Rocco Siffredi como referência e herói de adolescência. Não posso falar mais do que isso, nem citar nomes, porque vou me sentir um alcaguete. Não quero saber de ninguém que eu conheça chorando debaixo do chuveiro no escuro por ter acabado namoro ou casamento por causa dessa entrevista.

Você se considera um artista de vanguarda ou conceitual? Há um discurso por trás da sua proposta ou é tudo uma grande tiração de onda?
Não saí do meio artístico, das academias. E sempre tive problemas com hierarquia, então nem considero essas categorias que você mencionou. Eu acredito em espontaneidade, por isso não comecei a minha arte a partir de um discurso previamente articulado, mas o contrário: tive uma brisa, comecei a fazer, tirar uns trocos, meus amigos gostaram da ideia e hoje é o que eu faço. Sou péssimo com papinho de artista e não tenho um livro de estética ou teoria de arte na minha casa. Acredito que tem gente boa em fazer arte, outras boas em falar sobre arte, que assim seja.

Mas você chegou a estudar alguma coisa de arte? Qual é a sua formação, referências, influências nesse sentido?
Eu cheguei a fazer curso superior de design por ter, desde sempre, interesse em ilustração e artes visuais. Mas eu percebi muito cedo que não tinha nada para aprender com aquela gente. Era tudo um lance voltado para o mercado, e minha ideia de mercadoria, oferta e demanda parece ser diferente das pessoas que estavam lá pra me ensinar alguma coisa. Minhas referências são gente que eu conheço e que também cria sua própria arte e música. Sempre ouvi música e meu primeiro contato com diferentes estéticas foi através desse meio. Outros assuntos que me inspiram são utilizados diretamente nos meus pintos: underground, ciganagem, gângsteres, política atual.

Você já tentou ou pretende tentar expor sua arte em galerias/bienais da vida? Já imaginou uma residência, com direito a instalações e tudo mais, em torno do seu trabalho? Existe essa ambição?
Existe certa ambição em chegar a esse nível da arte institucionalizada. Meu objetivo é ter estrutura para poder desenvolver cada vez mais o que eu curto fazer. "Money is power", disse o Scarface, e o tipo de poder que eu almejo no momento é uma plataforma pra divulgar melhor meus trabalhos. Vou participar da 31ª. Bienal de Artes de São Paulo no dia 6 de setembro. Não vou convidar ninguém, até porque não fui convidado para participar. Mas vou enfiar pinto naquele lugar de qualquer forma. Sinceramente, me desmotivei de tentar contato com as galerias de arte de São Paulo. As de fora no fundo parecem mais abertas pra propostas e linguagens diferentes. A experiência que tive foi: se eles não gostam do seu trabalho, não te dão resposta; ou, quando respondem, dizem que o público deles não está pronto para o seu tipo de arte. Acho que pela minha criação mesmo estou acostumado com gente mais direta e menos pau no cu. E pelo contato que eu tenho com gente que frequenta essas galerias — gente que inclusive me colocou em contato com elas —, eles adoram pinto e subversão.

Por que seu codinome artístico é Shoker?
Minha mãe me deu um nome de apóstolo, Thiago. Mas desde os 14 anos o meu apelido é Shoker. Me chamaram disso – e ficou, saca, só isso.

Você pensa num público-alvo quando está criando? Acredita que um homem com uma heterossexualidade a zelar teria a capacidade de apreciar o que você faz com naturalidade a ponto de ter um desses bibelôs em casa?
O macho padrão está entrando em extinção, até que enfim. O público não é a primeira coisa em que eu penso; geralmente eu me ocupo dessa questão quando minhas obras já estão prontas e mostro para amigos, peço sugestões e tal. Como eu disse em outra questão, pensamos em vender as rolas de glicerina na região da Paulista quando elas já estavam todas feitas e embaladas. Eu gosto da espontaneidade da coisa, e interagir com as pessoas para quem eu tô vendendo quase sempre me surpreende. Por exemplo, há uma recepção legal do público feminino (mesmo mulheres mais velhas e acompanhadas curtem as pirocas, pegam nelas e dão risada). Muitos héteros, sejam amigos meus ou completos desconhecidos, gostam do que eu faço e acompanham meu canal de divulgação na internet. Acho que ficou claro, mesmo pros mais tapados, que cara que encana com pinto tem medo de gostar. Eu encaro o público, portanto, sem grandes expectativas. Aprovando ou não o que faço, eu vou continuar fazendo.

Quem tiver interesse no seu trabalho, pode pedir um modelo sob encomenda? Tipo, a pessoa diz o tema que ela quer e você customiza?
Geralmente é via Facebook que desenrolo as encomendas, não curto telefone. A pessoa pode me pedir um modelo sob encomenda também... se eu curtir a brisa, ela tem um preço; se não, ela tem outro. Gosto mais da liberdade de expressar alguma ideia com a coisa toda do que fazer lembranças sexuais pra casais, saca?!