Uma Manifestação Quase Democrática no RJ

Nem o calor conseguiu impedir que os manifestantes voltassem às ruas do Rio de Janeiro para protestar contra o aumento das passagens (de novo) e a Copa do Mundo.

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11 fevereiro 2014, 8:00pm

Nem o escaldante verão carioca, que atingiu temperaturas recordes este ano, foi capaz de frear o fôlego das manifestações no RJ, que agora dividem a pauta entre o aumento das passagens (de novo) e um sentimento anti-Copa do Mundo. O ano começou com vários catracaços na estação de trens Central do Brasil e a eventual repressão por parte da PM. Com uma crescente onda de violência e assaltos por toda a cidade, e a ação de um grupo de justiceiros que torturaram e prenderam a um poste um menor infrator no Aterro do Flamengo, esses protestos acabaram não ocupando muito espaço na mídia, até o lamentável incidente do dia 6 de fevereiro, quando, segundo o que foi apurado até agora, um cinegrafista da Rede Bandeirantes foi atingido por um rojão arremessado no chão por um manifestante e teve sua morte cerebral declarada quatro dias depois.

O cinegrafista Santiago Andrade não foi a primeira vitima fatal desde que as manifestações estouraram no país desde junho do ano passado, mas alimentou editoriais inflamados de várias emissoras e associações da imprensa cobrando uma resposta rápida das autoridades. A própria presidente Dilma, que em ano eleitoral permanece mais evasiva do que nunca sobre assuntos polêmicos, se manifestou via Twitter exigindo o acompanhamento da Polícia Federal sobre o caso. Dois suspeitos já foram identificados; Fábio Raposo encontra-se preso por passar o rojão para Caio Silva de Souza, que teria acendido e arremessado o rojão de forma irresponsável no chão. Até o fechamento desta matéria, ele permanecia foragido. O que as várias notas e matérias defendendo a liberdade de imprensa e elogiando o trabalho e profissionalismo do colega esqueceram de mencionar é que a tragédia podia ter sido evitada ou minimizada se ele estivesse usando equipamentos de proteção, como faz a maioria dos jornalistas, sobretudo os das grandes emissoras e agências. Mas agora é tarde e nada vai trazer o colega de volta.

Um protesto já estava marcado para a segunda-feira. Horas antes, cinegrafistas e fotógrafos realizaram um ato no local da morte de Santiago. As grandes emissoras não enviaram ninguém para cobrir o ato contra o aumento das passagens, limitando-se a acompanhar do alto, por meio dos helicópteros. Ainda assim, a passeata atraiu alguns milhares de manifestantes (e um número esmagadoramente maior de policiais) que se concentraram às 17h em frente a Central do Brasil e marcharam pacificamente até a Av. Rio Branco e depois para a Primeiro de Março.

As escadarias da ALERJ já estavam ocupadas pela PM quando os manifestantes chegaram. O suntuoso prédio permanece sempre fortificado desde a tentativa de invasão do dia 17 de junho que terminou com um PM ferido e vários disparos de fuzil para cima dos manifestantes.

Após uma breve pausa para fotos nas escadarias, os manifestantes rumaram para a sede da FETRANSPOR (Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Rio de Janeiro) onde queimaram uma catraca e um punk doidão quase queimou o saco numa tentativa frustrada de pular a roleta.

Depois de uma meia hora por lá, os manifestantes voltaram para a Rio Branco e foram até a Cinelândia, onde ocuparam as escadarias da Câmara de Vereadores.

Então, apareceu um drone filmando a galera. Uns manifestantes acharam que o equipamento era de alguma emissora e tentaram jogar garrafas d’água de plástico nele. Então, o dono do drone o desceu e foi cercado por alguns manifestantes exaltados em busca de respostas. Resultado: o cara é dono de um estande que vende eletrônicos no camelódromo da Uruguaiana e resolveu testar o brinquedo. No meio do bate-boca, algum idiota jogou um cabeção de nego no meio da rua, mas mesmo assim, a PM e a Choque que acompanhavam a manifestação de uma distância razoável não se manifestaram. Com a opinião pública contrária aos manifestantes por conta da morte do cinegrafista da Band, a PM não seria burra o suficiente para atacar manifestantes e desencadear algum incidente que pudesse virar o jogo. Só que não.

Depois de uma meia hora parados nas escadas, um grupo de uns quinze black blocs com a cara coberta resolveu puxar uma marcha em direção à Central do Brasil. Rapidamente, a Choque bloqueou o caminho e um oficial exigiu que eles mostrassem os rostos. Um moleque, que estava na frente e era negro, foi algemado e preso na hora, por, supostamente, se recusar a mostrar o rosto. Um manifestante questionou a necessidade do uso de algema e o oficial respondeu com uma pergunta: “Você é advogado?”. Diante a negativa, respondeu: “Tá mascarado, tem que algemar”.

Logo, a Choque começou a cercar a praça e revistar pessoas. Por acaso, quase todas as pessoas que vi sendo revistadas tinham algo em comum: eram jovens e negros. Dezenas de policias fechavam um círculo em volta das revistas, evitando a aproximação de outros manifestantes e, sobretudo, da imprensa. Uma hora, alguém jogou uma garrafa d’água de plástico na Choque, que revidou atirando balas de borracha e iniciando uma perseguição em direção ao Passeio. O comandante pediu para que os PMs voltassem, mas alguns não quiseram saber e continuaram a perseguição, disparando e dando cacetadas em quem aparecesse pela frente. Um fotógrafo foi atropelado pela Choque e quebrou uma lente. Vários moleques, todos negros, foram revistados. Nenhum PM da Choque usava identificação.

Quando a coisa acalmou, os manifestantes remanescentes formaram uma marcha que voltou pela contramão da Rio Branco rumo à Central do Brasil. Vários menores moradores de rua acompanhavam a marcha, alguns deles hipnotizados com o drone. Já na Av. Presidente Vargas, outro morador de rua, negro, começou a bater numa grade de ferro. Foi perseguido e encurralado pela PM, e só não levou mais cacetadas porque as câmeras começaram a aparecer. Ele acabou liberado. Quando, finalmente, chegamos à Central do Brasil, guardas ferroviários, temerosos de um novo catracaço, correram para soar um alarme e fechar todos os acessos à estação. Trabalhadores que voltavam para casa tiveram que esperar por mais de uma hora até a estação ser reaberta. Vários camelôs e ambulantes se somaram à manifestação naquele momento. Mas não fazia mais sentido ficar por lá e, aos poucos, a manifestação foi se dissipando, e a Choque foi embora.

Como sempre, houve provocações dos dois lados, mas, desta vez, nenhum grande incidente. Em outras manifestações, por muito menos do que uma simples provocação ou garrafinha de plástico arremessada eu vi a Choque disparar inúmeros artefatos sobre a população. Já vi chuvas de bombas de gás lacrimogêneo, que custam mais do que um salário mínimo cada, serem disparadas a esmo, mesmo depois de as vias estarem liberadas. Já vi policiais dispararem balas de borracha dentro de apartamentos de pessoas que os xingavam lá de cima. Ontem, salvo alguns poucos tiros, eles ficaram mais no cassetete mesmo, como nos velhos tempos. Vi vários PMs mais esquentadinhos sendo acalmados ou repreendidos por oficiais e, no final das contas, o protesto rolou como mais ou menos manda a democracia. Mais ou menos, tá?

Não havia rojões ou molotovs em manifestações antes das chuvas de bomba. Na minha análise e observação, a escalada de violência por parte dos manifestantes apenas se deu como resposta à escalada de material bélico e os dedos nervosos da PM. A pergunta que fica é: por que eles não agem sempre assim?

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