Educação Ocupada

Por dentro da ocupação da maior escola pública do Paraná

Estudantes do CEP criaram uma ocupação modelo para outras escolas no estado, com direito a revista de quem entra no local. A justiça, porém, pediu a reintegração de posse.

por Cristiano Castilho, Fotos por Isabella Lanave / Coletiv
31 Outubro 2016, 1:22pm

A fachada do CEP, em Curitiba. Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

O maior colégio público do Paraná está ocupado há 27 dias — e resistindo. O Colégio Estadual do Paraná, o CEP, carrega consigo parte do tradicionalismo de uma escola por onde passaram o ex-presidente Jânio Quadros, o poeta Paulo Leminski, e os ex-governadores Jaime Lerner e Roberto Requião. São 4.700 alunos e mais 400 funcionários, formando uma pequena cidade.

A nova ordem estabelecida na escola após quase um mês de "resistência", como dizem os alunos, tem servido de modelo para as outras 850 escolas e 14 universidades ocupadas — os números são do movimento Ocupa Paraná (a Secretaria de Estado da Educação local diz que são 491).

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A motivação do movimento, como se sabe, tem ponta dupla: a Medida Provisória (MP) 746, que prevê a reforma do ensino médio; e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que pretende congelar os gastos do governo federal pelos próximos 20 anos.

NOVA ORDEM

A "primavera secundarista" no CEP começou após uma assembleia ocorrida ao fim de uma aula noturna. Na manhã seguinte, a cozinha, a enfermaria e os dormitórios já estavam montados. Os banheiros, por sua vez, tornaram-se unissex, explica O. E. B., secundarista de 15 anos e um dos organizadores do movimento. Pelos corredores, cartazes antimachistas e anti-homofóbicos se misturam a outros, com orientações sobre procedimentos e rotinas a serem obedecidos pelos que escolheram dormir num colchão de ar, no chão da área administrativa do lugar em que estudam. Por lá, são regras: não depredar o patrimônio público, não consumir álcool e drogas e respeitar as decisões da maioria, também.

Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

É tudo impressionantemente organizado. Quem está de rosto coberto trabalha na segurança — o CEP tem 24 portas e portões. Quem carrega pulseira verde no pulso é responsável pela alimentação. Vermelho para comunicação. Lilás tem livre acesso. Rosa com listras é agenda. Branco com uma cruz, saúde.

São regras da ocupação: não depredar o patrimônio público, não consumir álcool e drogas e respeitar as decisões da maioria, também.

O que ecoa nos pátios e corredores é a reafirmação de que o movimento é apartidário e acima de tudo "horizontal", sem hierarquia. "É um anarquismo lindo. Uma aula de cidadania", diz O. E. B. As atividades e assembleias acontecem na área externa do CEP. Membros do Antifa, grupo antifascista, também endossam a mensagem de um movimento apartidário, transportando mantimentos e realizando palestras. "Todos sabem por que estamos aqui. A MP é deplorável. Nós a estudamos bastante e vimos o quão prejudicial ela será para o futuro da educação. Mas não é só isso, é muito mais."

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As aulas, por sua vez, ainda acontecem. Não mais entre um sinal e outro. Mas com palestras sobre filosofia, história, matemática, biologia, questões de gênero e oficinas de yoga, forró e circo. Professores voluntários perfazem o corpo docente improvisado.

Armário onde ficam guardados os mantimentos. Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

Na cozinha da escola, um armário de porta dupla guarda os mantimentos, recebidos através de doações de anônimos, de sindicatos e de professores que apoiam a causa. Há geladeira com frutas, leite sem lactose e um micro-ondas. O almoço daquela quinta-feira foi frango com polenta — a opção vegetariana está disponível diariamente. O "rolê da comida", como anuncia o cartaz, obedece à seguinte ordem: café da manhã às 8h; almoço das 11h às 13h; café da tarde às 18h; janta às 22h. O lixo é separado religiosamente.

Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

No caminho para a piscina olímpica, também não frequentada, a estudante D. C. lavava o que pareciam ser panos de chão numa torneira que serve de bebedouro. "Faz-tudo" foi como a definiram. "Fico até quando precisar ficar. Só vou sair para prestar vestibular", diz a secundarista de 17 anos — a primeira fase do processo seletivo da Universidade Federal aconteceu no domingo (23). D. pretende cursar Artes Visuais.

Num banco de madeira no meio do pátio, um grupo de estudantes, alunos do 3º ano, trocam ideias falando sobre as motivações para a ocupação, a atual situação do país e do estado, o governo Michel Temer, o risco de que a MP, caso aprovada, afete suas vidas diretamente. "Minha mãe não tinha ideia do que acontecia aqui até eu explicar para ela", diz uma das secundaristas.

Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

A ocupação também foi responsável por hastear bandeira branca pondo fim à rixa histórica que há entre alunos do CEP e do vizinho Colégio Tiradentes, igualmente ocupado. "Isso não existe mais. Estamos unidos pela mesma causa", conta uma estudante ouvida pela reportagem.

Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

Drogas e álcool, contam os estudantes da ocupação, são expressamente proibidos. A revista, realizada em todos que ingressam no CEP, é mais rígida do que em muitas baladas de Curitiba. Os estudantes envolvidos com a organização da ocupação criaram uma base de regras sobre o tema, repassada aos outros 850 colégios ocupados. "É uma postura muito clara e que está sendo respeitada. Mas é impossível controlar todo mundo. E são adolescentes, é bom lembrar disso", diz G. B., secundarista de 16 anos, aluno do CEP e integrante do movimento.

REINTEGRAÇÃO DE POSSE

A Justiça estadual do Paraná, porém, determinou na última quinta-feira (27) a reintegração de posse de 25 colégios estaduais, entre eles o CEP. A decisão é da juíza Patrícia de Almeida Gomes Bergonse, da 5ª Vara da Fazenda Pública, e atende pedido da Procuradoria Geral do Estado (PGE). No documento, a PGE classifica os estudantes como "invasores" e diz que "eles confundem o exercício do direito de reunião e livre manifestação com atitude reprovável de impedir outros discentes de ingressarem nos colégios para efetivação do direito social à educação."

Ocupe. Lute. Resista. Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

Os invasores confundem o exercício do direito de reunião e livre manifestação com atitude reprovável de impedir outros discentes de ingressarem nos colégios para efetivação do direito social à educação.

Na sexta, dia 28, o Governo do Estado do Paraná, por meio da PGE, em parceria com o Ministério Público e a Defensoria Pública, propôs um acordo segundo o qual a ordem de desocupação do CEP seria retirada, em troca da desocupação das outras 24 escolas. O acordo foi rejeitado pelos alunos do CEP, que se "solidarizam com as reivindicações de outros colégios" e "não querem protagonismo" no movimento.

Fotos por Isabella Lanave / R.U.A. Foto Coletivo

A Secretaria de Estado da Segurança Pública (SESP), por sua vez, recebeu a solicitação e quer, primeiramente, "esgotar todas as possibilidades de diálogo antes da ação da Polícia Militar. "Caso seja preciso, a PM irá traçar um plano de desocupação. Ministério Público e Conselhos Tutelares serão envolvidos para que o processo seja tranquilo e transparente", diz Karlos Kolbach, assessor da SESP.

Havia uma perspectiva de que o CEP fosse desocupado até a tarde do último sábado (29), mas, em publicação no Facebook, o movimento informou que, após assembleia, a desocupação foi adiada. A ocupação ainda resiste.

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