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Por que Milhões de Homens Estão Perdendo os Amigos aos 20 e Poucos Anos

Pedimos para seis homens em diferentes estágios da vida discutirem seus relacionamentos para conseguir entender como 12% dos homens acima dos 18 anos no Reino Unido não têm nenhum amigo.

por Kevin EG Perry
23 Novembro 2015, 6:39pm

Dan Evans

Homens geralmente pensam em si mesmos como lobos solitários. Um lobo solitário sendo ambicioso no trabalho. Um lobo solitário no Tinder. Um lobo solitário jogando Fallout 4 sozinho e comendo lasanha de micro-ondas. Conforme ficamos mais velhos e a vida vai jogando mais merda na nossa cara, você começa a se perguntar se há uma razão para a maioria dos lobos caçarem em bando.

Geralmente, somos animais extremamente sociáveis na escola e na universidade, mas, quando as pressões do trabalho começam a bater, rostos que antes eram familiares começam a desaparecer, o que nos faz perceber como estamos sozinhos neste mundo.

Neste mês, uma pesquisa realizada pela Movember Foundation descobriu que 12% dos homens acima dos 18 anos no Reino Unido não têm um amigo próximo com quem discutir problemas sérios da vida. Isso dá 2,5 milhões de homens só na Inglaterra. Mais de um quarto dos pesquisados disseram que falam com seus amigos menos de uma vez por mês, enquanto 9% contaram que não lembravam a última vez que tinham feito contato com os amigos.

Isso pode virar um problema sério mais tarde na vida. Pesquisas da Organização Mundial de Saúde mostraram que a falta de amigos próximos tem um impacto significativo na saúde dos homens a longo prazo, nos deixando sob risco de depressão, ansiedade e suicídio.

Sarah Coghlan, chefe do Movember UK, me disse: "Muitos homens com quem falamos não percebiam quão superficiais seus relacionamentos tinham se tornado até enfrentarem um desafio significativo na vida, como um falecimento, fim de uma relação, paternidade ou desemprego – e é exatamente aí que melhores amigos são mais necessários".

Entretanto, o que acontece com nossas amizades quando ficamos mais velhos? Aqui, seis homens em diferentes estágios da vida discutem seus relacionamentos com os amigos.

Matt, 19 anos

"Fiz o primeiro ano da faculdade, mas foi um ano difícil em termos de relacionamento; então, acabei desistindo. Tenho feito trabalhos temporários desde então. Porém, enquanto essa coisa do relacionamento estava acontecendo, falei sobre isso com meus amigos, com quem frequentei a escola, em vez dos meus novos amigos de faculdade, só porque os conhecia melhor. Tenho sorte de estar num grupo social de umas sete ou oito pessoas – principalmente caras, mas também algumas garotas. Fizemos o segundo grau juntos, embora conheça alguns deles desde o primário. Sou bastante aberto com todos eles; logo, conversávamos sobre tudo. Eles também já comentaram coisas bem pessoais comigo. Eu preferia falar com amigos do que com minha família, porque estávamos passando por coisas parecidas na época; assim, nos identificávamos mais. Tenho amigos e conhecidos do trabalho e de esportes, mas meus amigos da escola passaram no teste do tempo. Passamos por muitas coisas juntos."

Tom, 21 anos

"Comecei a trabalhar direto depois da escola. Talvez eu tivesse feito mais amigos se tivesse entrado numa faculdade, mas o estilo de vida dos universitários tem muito a ver com encher a cara e experimentar drogas, o que eu não faço. Eu ia acabar ficando de fora, pois essas coisas nunca me atraíram. Fiz uns seis ou sete amigos próximos; além disso, também moro com alguns novos amigos, o que é muito divertido. Trabalho quatro ou cinco dias por semana; então, tento ver meus amigos quando eles estão livres. Noventa por cento dos meus amigos frequentam shows de hardcore; assim, sempre os encontro no mosh pit. Fiz a maioria dos meus amigos nos últimos três anos. Quando tinha 16, eu não tinha nenhum amigo. Isso mudou porque ganhei mais confiança para falar com as pessoas. Eu não conseguia conversar direito quando era adolescente; eu tinha medo. Hoje, tenho amigos que sinto que posso procurar para tudo. Fiquei na casa de alguns deles quando estava procurando um lugar para morar, e compartilhamos coisas profundas. Eles são mais minha família que minha família de verdade."

"A maioria das pessoas com quem saio são do trabalho, o que é meio deprimente."

Stefan, 24 anos

"Me formei em junho passado depois de fazer mestrado. Para ser honesto, sinto que só me dava realmente bem com as pessoas na faculdade. Os outros eram parte do grupo com o qual eu saía com frequência para beber, porém não eram pessoas com quem eu discutiria decisões da minha vida. Desde que comecei a trabalhar neste ano, a maioria das pessoas com quem saio são do trabalho, o que é meio deprimente. Eles são gente boa, mas a única coisa que temos em comum é que trabalhamos no mesmo lugar. Tenho três amigos que vejo regularmente e alguns outros com quem converso no WhatsApp, embora nunca os veja pessoalmente. Conforme o tempo foi passando, acho que parei de ser legal e amigável com pessoas com quem não me dou tão bem assim. Na escola, eu tentava fazer parte de vários grupos, mas agora só saio com esses três caras que conheço da minha cidade ou saio para reuniões sociais obrigatórias com pessoas que têm filhos. No entanto, acho que isso é bom – encontrei as pessoas com as quais vou continuar me dando bem por um longo tempo, em vez de tentar manter relacionamentos com pessoas de quem não gosto realmente. Se eu tivesse um problema sério, eu provavelmente falaria sobre isso com a minha namorada – a menos que a questão fosse sobre ela. Tenho um amigo que conheço desde os três anos, e ainda saímos sempre que ele está em Londres. Ele é o amigo que eu procuraria para coisas como essas."

Ben, 26 anos

"Ainda tenho três ou quatro amigos da universidade, mas eu era uma pessoa diferente naquela época. Eu era mais autodestrutivo. Não sou mais amigo da maioria das pessoas daquela época, porque não fiz o tipo de amigo que eu gostaria de ter agora. Não quero mais fazer as coisas idiotas que eu costumava fazer. Meus amigos da escola são os mais próximos, porém não os vejo mais tanto – o que é meio paradoxal, acho. Eu os vejo umas cinco semanas por ano, geralmente em despedidas de solteiro ou casamentos. Sei que eles vão me apoiar. Alguns deles passaram por maus bocados, e, depois que falamos sobre essas coisas, acho que não temos mais nada a dizer uns para os outros. Só que é difícil ter tempo para ver os amigos. Sinto que as semanas seguem muito uma rotina. Se encontro minha namorada uma ou duas noites por semana e tento me exercitar dois dias por semana, então sexta é meio que uma loteria... quando vou ter tempo de fazer outras coisas? Não dá tempo. Tenho uma videoconferência do trabalho hoje à noite, e isso não é incomum. Ou seja, é difícil ter tempo e energia para planejar coisas com os amigos. É triste. É meio deprimente pensar nisso."

"Meu melhor amigo é provavelmente a pessoa mais emocionalmente atrofiada que conheço."

Colin, 28 anos

"Tenho um grupo principal de amigos do meu primeiro ano de faculdade com quem ainda mantenho contato, apesar de alguns terem mudado para o exterior. Meu melhor amigo da faculdade foi à Nova Zelândia atrás de uma garota, embora eu ainda consiga falar com ele todo dia. A parte estranha do meu grupo de amigos é que um deles é minha ex-namorada. Se tento introduzir uma garota nova nesse ambiente, finjo que está tudo normal até receber um monte de mensagens escrotas. Fora esse pequeno problema, tento sair com eles o máximo possível. Na faculdade, nosso tempo juntos era resultado de ressacas pesadas causadas por bebidas vagabundas. Os dois anos depois da universidade foram cheios de sintomas de síndrome de abstinência por não haver mais momentos assim, apesar de agora eu estar bem com isso. Se tenho um problema sério, tenho algumas pessoas com as quais posso falar sobre assuntos diferentes. Um dos meus melhores amigos é provavelmente a pessoa mais emocionalmente atrofiada que conheço; logo, tento não discutir nada profundo com ele. Por outro lado, ele é uma das pessoas mais engraçadas que conheço; então, fujo alegremente dos meus problemas na companhia dele."

Michael, 30 anos

"Não fiz faculdade, mas comecei a trabalhar num ambiente no qual conheci um grupo de pessoas com a mesma idade que eu – e ainda estou em contato com alguns deles. Lá pelos 25 anos, eu estava sempre saindo com meus amigos nos finais de semana – nos encontrávamos o tempo todo. Naquele ponto, parecia que a festa nunca terminaria. Entretanto, no final da faixa dos 20 anos, as coisas começaram a mudar. As pessoas vivem suas vidas mais individualmente agora e se concentram em construir uma carreira e um futuro. Ninguém mais tem tempo para se divertir. Acho que foi a idade que mudou isso – e entendo. Ainda vejo um punhado de amigos próximos, mas, se quisesse falar sobre um problema sério ou uma questão profunda, acho que eu procuraria minha namorada. Eu gostaria de passar mais tempo com meus antigos amigos de novo, porém hoje tendo a achar que, se eu não estou ocupado, eles vão estar. É difícil achar tempo."

Tradução: Marina Schnoor.

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