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Entretenimento

Brian Butler e Paz de La Huerta em "Babalon Working"

Entrevistamos Butler pra falar sobre o filme de sua performance inspirado em elementos da mágica enoquiana.

por Jonathan Smith
24 Setembro 2013, 12:00pm

Trailer de Babalon Working.

Quinta-feira passada, Brian Butler estreou seu novo filme, Babalon Working, no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles. O filme, que apresenta uma Paz de la Huerta sensualmente ondulante em meio ao que parece ser uma tremenda bad trip de ácido, é inspirado por elementos da mágica enoquiana. Desenvolvida por Edward Kelley e o Dr. John Dee em 1500, a mágica enoquiana foi usada numa série de rituais, popularmente chamados de Trabalhos de Babalon, por Jack Parsons e L. Ron Hubbard. As cerimônias produzem o que Parsons acreditava ser uma conjuração da “Mulher Escarlate”, uma figura que Aleister Crowley achava que ajudaria a provocar o Aeon de Hórus e o fim dos governantes falocratas e as religiões de todo o mundo. Babalon Working foi filmado na casa de Kelley em Praga, dando ao projeto uma sensação de intimidade e familiaridade com suas fontes de inspiração, algo que não poderia ser alcançado se tivesse sido filmado em qualquer outro lugar.

Após a exibição do filme, Brian apresentou seu novo trabalho, Transmigration, que utiliza ferramentas como um gerador de orgônio e uma máquina de raios violetas. Numa entrevista recente para a Image Noir, Brian disse que essa performance tem o objetivo de “produzir um estado da mente que transcenda o ciclo da vida e da morte”.

Eu queria saber mais sobre o filme e a performance, então, liguei para o Brian e a Paz, que foram legais a ponto de parar o carro na beira da estrada para responder às minhas perguntas.

VICE: Brian, você descreveu seu processo de trabalho como um espaço entre o sonho e o despertar. Você pode explicar isso um pouco melhor e como uma pessoa pode atingir esse estágio?
Brian Butler: Se você pensar num triângulo, ele representa o ápice entre as polaridades. Pode ser entre vida e morte, por exemplo. Eles chamam isso de “estado hipnagógico”, em que você se mantém consciente o suficiente para permanecer no controle, mas está num estado de sonho onde tudo é fluído, então, você pode ajustar as coisas e ir a lugares. De certa maneira, é meio como um plano astral. Quando estou intensamente envolvido em criar arte, dirigir um filme ou qualquer coisa assim, meu ego meio que desaparece e outra coisa surge, e estou somente naquele momento imediato. Não vou me lembrar de algo que disse dez segundos antes, por exemplo.

Paz de la Huerta: Trabalho da mesma maneira. Quando estou no set de filmagem, entre as tomadas ou algo do tipo, estou sempre dormindo. A transição do sono para o despertar é quando, pessoalmente, entro em contato com meu inconsciente, que é onde minha criatividade está. Temos maneiras diferentes de explicar isso, mas é daí que sai o melhor trabalho. Eu chamo isso “vamos nos perder”.

De acordo com o comunicado de imprensa, Babalon Working tenta “explorar as camadas de êxtase, loucura e criatividade que mediam a jornada do homem entre a vida e a morte”. Qual é o papel disso na vida cotidiana de vocês?
Brian: O quanto você deixar, sabe? É deixar seguir, ser livre. Isso retoma alguém como Antonin Artaud, que disse, basicamente, que quem vive o sonho que quer é considerado louco, sabe? É uma certa liberdade e você está perdendo condicionamento. Você está ultrapassando a mente racional, assim como o ambiente e as limitações ao seu redor. Todo mundo tem um jeito diferente de alcançar isso. Muitas pessoas fazem naturalmente, ou usam drogas, ou praticam ocultismo, ioga... Há muitos jeitos diferentes de chegar lá.

Paz: Quando trabalho, não é o resultado que importa; é o processo de estar presente e sua jornada. Como o Brian comentou, ele não vai se lembrar do que disse dez segundos atrás — comigo é do mesmo jeito. Memorizo o roteiro, sei todas as falas de cor e, depois, vou esquecê-las. Mas elas estão lá no inconsciente, o que me permite estar completamente presente. Assim, posso me perder e estar nesse espaço entre o sono e o despertar.


Still de Babalon Working.

Para mim, o filme parece estar em algum lugar entre a releitura da história de Parsons e Hubbard e talvez vocês também estivessem tentando realizar partes do ritual novamente, certo?
Brian: Bom, é mais do que isso. Não foi uma reconstituição, exceto por eu estar usando o manto do grande adepto do AA, que é a ordem do Aleister Crowley. Mas mágica enoquiana e os Trabalhos de Babalon precedem Crowley e Parsons em centenas de anos. Os Trabalhos Enoquianos aconteceram em Praga em 1500. Parsons publicou a operação que realizou com Hubbard; ele é conhecido por isso, mas isso é uma coisa universal. Como os Trabalhos de Ísis, ou Osíris. Fui definitivamente influenciado por essas pessoas e conheço muito bem o trabalho delas, mas isso é certamente minha visão pessoal. Eu estava tentando dar um passo além, indo até a verdadeira fonte de onde tudo começou. Não é um documentário ou uma cinebiografia, é um tipo de filme metafórico, mágico e simbolista em que cada pessoa vai achar seu próprio significado.

Você acha que o envolvimento de L. Ron Hubbard com os Trabalhos de Babalon teve algo a ver com sua vida futura e o curso que ela acabou tomando?
Brain: Ah, com certeza. Ele realmente aprendeu muitos segredos com Jack Parsons, e Parsons estava em comunicação direta com Aleister Crowley. Eles estavam fazendo operações mágicas secretas de alto nível envolvendo o sistema enoquiano. Hubbard escolheu algumas dessas técnicas e, de algum jeito, passou à frente de todo mundo — pelo menos em termos financeiros e de sucesso. [Risos] Parsons explodiu num acidente e Crowley morreu falido. O que importa mais? Um legado eterno? É difícil julgar o que é sucesso e o que é fracasso, mas, definitivamente, ele estava fazendo algo certo, apesar de as pessoas serem muito polarizadas quando se trata de Hubbard e a Cientologia.


Still de Babalon Working.

Paz, você disse que trabalhar nesse filme com o Brian a ajudou a se recuperar de um acidente que sofrido quando filmou no Canadá alguns anos atrás. Como foi isso?
Paz: Estive numa batalha hercúlea por minha vida por aproximadamente dois anos e cheguei a um ponto onde precisava enfrentar quaisquer que fossem os demônios que estavam dentro de mim. Você não pode fugir deles, você tem que enfrentá-los. O Brian me ajudou a fazer isso e fizemos um tipo de exorcismo — bom, não “um tipo de exorcismo” — um exorcismo, e acredito que isso salvou minha vida.

Houve algum momento que foi como uma epifania para você? Ou foi mesmo toda a experiência de trabalhar com o Brian?
Paz: Não consigo explicar, sabe. Alguns momentos foram inexplicáveis e sinto que me aprofundar muito neles poderia tirar o poder positivo que eles tiveram em minha vida.

Brian: Isso não está realmente ligado às palavras. Para mim, uma comunicação real com um ator ou artista é não verbal. É uma questão de estar em sincronia e entrar no mesmo estado.

Paz: Acho que vamos continuar trabalhando juntos até o final dos tempos. Agora que sinto que meu corpo, o recipiente de minha alma, foi curado completamente, ainda temos muito trabalho a fazer — um trabalho que é eterno.


Paz de la Huerta.

Brian, você diz que há uma conexão entre eletricidade e o entendimento da maneira como a morte trabalha. Em Transmigration, você usa um gerador de orgônio, luzes estroboscópicas e ondas sonoras. O que você espera conseguir com isso?
Brian: Nessa performance em particular, uso mais tecnologia. É menos pagão do que usar um manto na floresta ou algo assim. Estou usando certos conceitos de Wilhelm Reich, como o orgônio, que não é necessariamente elétrico, mas científico — é uma maneira de aproveitar energia. Também uso algumas coisas inventadas por Tesla, como a máquina de raio violeta. Então, é como integrar tecnologia e acessar esses estados. Assim, um público que pode não ter experiência com isso pode — com a frequência sonora e a frequência de luzes certas — ser transportado temporariamente para o mesmo lugar. É a mesma coisa que o estado de sonho entre o sono e o despertar. Você pode chamar isso de morte, mas não significa morrer por decadência. É mais como a morte de seu ego, de tudo o que você pensou que era, deixar isso ir e estar num estado onde você pode transcender quaisquer limitações que achava que existiam.

Você usa um gerador de orgônio também, certo? Você pode explicar como isso funciona? Ele coleta orgônio e o permite direcionar para outras coisas?
Brian: É. Estou desenvolvendo um dispositivo porque a energia orgônica é indutiva por natureza, então, isso atrai energia. Uma caixa acumuladora de orgônio é um dispositivo onde alguém se senta e provoca o acúmulo de energia — e meu dispositivo vai dentro dela. Estou meio que revertendo a polaridade, projetando essa força orgônica para a sala, então, a sala toda se torna uma câmara orgônica.


Still de Babalon Working.

Isso tem algum efeito físico no público ou nas pessoas na sala?
Brian: Espero que sim. Deve ter um efeito positivo. A energia orgônica é basicamente a energia da vida, ou o chi... Há vários nomes diferentes para isso. O fogo, a criatividade, a centelha... A energia da vida, sabe?

Assista a Babalon Working:

@Jonathan_Smth

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