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Conheça o Homem Misterioso que Canta o Rap da Música 'Black or White', do Michael Jackson

O homem que participou em uma das músicas mais famosas dos anos 90, misteriosamente creditado como "L.T.B.", nunca mais mandou uma canetada sequer após o hit.

por Jamie Lee Curtis Taete
07 Maio 2015, 8:30pm

Bill Bottrell em Berlim no ano passado. Foto cortesia de Bottrell.

Alguns anos atrás, eu estava ouvindo a música "Black or White", do Michael Jackson, na rádio do meu carro. Quando chegou o rap ("See, it's not about races, Just places, faces, where your blood comes from is where your space is"), saquei que eu não tinha a menor ideia de quem rimava ali. Depois de procurar no Google, vi que o trecho era creditado a alguém chamado L.T.B., que, de acordo com o que li na internet, não tinha feito nada antes nem depois de rimar aqueles versos.

Um amigo com quem falei sobre isso mandou um e-mail para o produtor da música, Bill Brottrell, que recebe o crédito da composição do rap, e pediu mais informações sobre L.T.B. Bottrell respondeu no mesmo dia e deu um e-mail que ele disse ser do rapper. Mandei uma mensagem para o tal endereço pedindo uma entrevista, mas nunca recebi resposta.

O mistério de L.T.B. ficou na minha mente nos anos seguintes, surgindo sempre que eu ouvia a música. Toda vez que isso cruzava meu caminho, eu entrava na internet e tentava descobrir quem era o rapper misterioso, mas nunca consegui encontrar nada. Apesar de ele ter cantado numa música que ficou no topo das paradas em mais de 20 países, com um clipe que bateu recordes ao ser assistido por mais de 500 milhões de pessoas em sua transmissão original em 1991, a presença na internet de L.T.B. se limita à lista de envolvidos em "Black and White" e a uma entrada não resolvida no Yahoo! Respostas perguntando quem ele é.

Aí, na semana passada, depois de ouvir a música de novo, pensei "foda-se" e entrei em contato com Bottrell novamente para perguntar sobre o rap. "Posso fazer isso", ele me respondeu por e-mail. "Não é uma história longa."

Quando falei com o produtor pelo telefone no dia seguinte, ele contou que era ele mesmo quem rimou ali, usando o nome L.T.B. como pseudônimo. Ele admitiu que tinha dado outro e-mail dele ao meu amigo para fingir ser outra pessoa e zoar com a gente. "Eu ia fazer uma brincadeira com vocês", ele explicou, mas desistiu quando achou que não daria certo. "Já tem muita gente que sabe disso e a piada não ia funcionar", ele completou.

O clipe de "Black or White". O rap, dublado por Macaulay Culkin, começa por volta de 4:35.

A história de como Bottrell se tornou, de certa maneira, um dos rappers mais populares dos anos 90 começou porque "Black or White", uma música que ele tinha coescrito e estava produzindo com Jackson, tinha um espaço vago no meio. "Depois dos primeiros dias de trabalho nisso, tínhamos o cerne da música, os versos, o coro e toda a parte do Michael", ele me contou. "Mas tínhamos esse grande vazio no meio, e isso ficou assim nas nossas mentes por vários meses."

A ideia do rap surgiu na cabeça de Bottrell numa manhã quando ele estava em casa com uma letra inspirada no tema que Jackson abordava na música. O produtor gravou o rap, numa versão que ele pretendia que servisse como temporária, e tocou o trecho para Jackson. "Ele adorou", me disse Bottrell.

O plano inicial de Bottrell era arranjar um rapper de verdade para gravar essa parte. Ele sugeriu a Jackson que eles usassem LL Cool J ou Heavy D, que estavam no estúdio trabalhando em outras faixas do disco.

Mas Jackson insistiu que eles usassem a gravação de Bottrell, algo com que o produtor não ficou inteiramente confortável. "Sabe, sou compositor e produtor", ele me falou. "Não sou rapper e não pretendia ser o cara branco que está rimando ali."

Jackson, no entanto, insistiu – possivelmente, acredita Bottrell, porque ele era um cara branco e não um rapper. "Eu ser branco e ter feito aquele rap meio que ecoava o conteúdo da música. Então, na mente dele, tudo se encaixava."

Logo, Bottrell aceitou, mesmo não estando completamente satisfeito, e por isso decidiu usar um pseudônimo. Ele usou L.T.B. como referência ao seriado Leave It to Beaver. "Era sobre um moleque suburbano branco, era uma piada comigo mesmo", ele explicou.

A fé de Jackson no rap dele se mostrou acertada. Depois que a música vendeu milhões de cópias e passou sete semanas no topo das paradas dos EUA, Bottrell contou que seu empresário começou a receber ligações pedindo que L.T.B. gravasse um disco próprio.

Eu podia estar confuso com o mistério do rap em "Black or White" há anos, mas Bottrell me disse que já tinha revelado publicamente que era L.T.B. antes. Isso aconteceu numa entrevista de 2001 para a Sound on Sound, uma publicação que se descreve como "a maior revista sobre tecnologia de gravação do mundo". Mas, segundo ele, a revelação passou despercebida por causa da natureza técnica da publicação. (Uma amostra: "Liguei uma guitarra Kramer American a um amplificador Mesa Boogie, microfonado com um Beyer M160, e consegui aquele som arenoso enquanto tocava junto com ele cantando".)

Não sou especialista em música, mas não consigo pensar num exemplo anterior de um grande astro pop tendo um rapper participando de um verso no meio de uma música (algo quase onipresente hoje: de "Umbrella", de Rihanna, a "Beautyand a Beat", de Justin Bieber). Perguntei a Bottrell se ele tinha sido a primeira pessoa a fazer isso. Ele respondeu que, apesar de nunca ter pensado muito no assunto, não conseguia se lembrar de nenhuma música em que isso tivesse sido feito antes.

O produtor também explicou que, quando a música foi lançada, ele teve de fazer uma versão editada cortando o trecho de rima, porque rádios comerciais tinham uma política de não tocar rap e não tocariam a música de outro jeito. "Acredito que esse disco abriu algumas portas", ele explicou. "Sempre é um processo, certo? Acho que isso mudou nos dois anos seguintes, muito rapidamente."

Quando sugeri que isso podia significar que Bottrell foi, sem perceber, um dos rappers mais influentes de todos os tempos, ele me cortou com uma risada. "Pare", ele afirmou. "Não. Nem diga uma coisa dessas."

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Tradução: Marina Schnoor

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