Notícias

Incêndio no Museu Nacional, 200 anos de história jogados fora

A instituição bicentenária ardeu em chamas na noite de domingo (2), em meio ao descaso público.

por Amanda Cavalcanti; fotos por Francisco Proner
03 Setembro 2018, 3:45pm

Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE

Fósseis de dinossauros, os maiores meteoritos já encontrados no Brasil, formações minerais raras, mamíferos extintos, fósseis de australopitecus e homo sapiens. Artefatos pré-colombianos, egípcios, greco-romanos, africanos, indígenas. Mapas históricos. O fóssil mais antigo da história do país. Um pedaço gigantesco da pesquisa paleontológica e arqueológica do Brasil. O maior museu da história nacional. O prédio onde foi assinada a nossa independência. Residência de um rei e dois imperadores. Mais de vinte milhões de peças.

Tudo isso ardeu em chamas na noite de domingo (2), quando um fogo destruiu boa parte do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo o G1 , o fogo surgiu por volta das 19h30 e foi controlado no fim da madrugada de segunda (3). A maior parte das obras do museu viraram cinzas. As causas do fogo ainda não são conhecidas, mas serão investigadas pela Polícia Civil, que abriu inquérito e repassará para que o caso seja conduzido pela Delegacia de Repressão a Crimes de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico.

Desde 2014, o museu tem sido afetado pela mesma crise financeira que atrapalha o funcionamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro e funciona com orçamento reduzido desde então — segundo uma reportagem do Bom dia Brasil de maio de 2018, a instituição deveria receber um repasse anual de R$550 mil da UFRJ. Devido ao teto dos gastos, porém, vinha recebendo apenas 60% desse valor, que não era o bastante para abastecer a pesquisa e manutenção das áreas de exposição.

As postagens dos governantes nas redes sociais falham em reconhecer a real perda que o incêndio no museu representou e sua responsabilidade no desastre. O presidente Michel Temer fez um tweet a respeito da tragédia e foi respondido por muitos usuários questionando-o a respeito da PEC dos gastos; o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, sugere em post no Facebook reconstruir o museu "das cinzas" com pinturas e fotos para manter a lembrança da "família imperial", sem sequer citar a perda de patrimônio científico e histórico.

O descaso público com a história e patrimônio do país é pavoroso. Não é a primeira vez nos últimos anos, afinal, que tal tragédia acontece com uma instituição cultural no Brasil. Em dezembro de 2015, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, também foi atingido por chamas em três de seus andares. O prédio ainda não foi reaberto. Além das tragédias irreparáveis, diversas instituições se encontram em situação de alto risco pela falta de verbas. O Museu do Ipiranga, também na capital paulistana foi fechado em 2017 para "reformas urgentes" e deve reabrir só em 2022. O Museu do Café, em Ribeirão Preto, Museu de História Natural, em Taubaté, MAM RJ, Museu do Catete, também no Rio, Museu Goeldi, em Belém — a lista é praticamente interminável.

Até quando nossa história e cultura continuará sendo esfarelada?

Mais fotos do desastre no Museu Nacional abaixo:

Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE
Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE

Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter , Instagram e YouTube .