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Drogas

Como os EUA convenceram o mundo a demonizar as drogas

A maior parte do mundo costumava tratar o vício em drogas como uma questão de saúde, não criminal. Aí os EUA mudaram tudo isso.

por JS Rafaeli; Traduzido por Marina Schnoor
20 Agosto 2018, 5:33pm

Foto: vexedart / Alamy Stock Photo.

Em Baltimore, um jovem negro é preso por posse de cannabis. Em Glasgow, Escócia, uma porta de apartamento é arrombada por um esquadrão antidrogas. No Afeganistão, uma plantação de papoulas é incinerada por um avião. No México, policiais corruptos trabalhando para cartéis de droga estão envolvidos em desaparecimentos e massacres.

A Guerra às Drogas geralmente é apresentada como um fenômeno global. Cada país tem suas próprias leis e autoridades sobre o assunto. Apesar de pequenas diferenças regionais, o mundo – dizem – sempre esteve unido em abordar os perigos do uso de drogas ilícitas através das forças da lei.

Isso é mentira.



Rastreando a história do que chamamos agora de Guerra às Drogas, você descobre que ela tem uma origem muito específica: os EUA. O desenvolvimento global da guerra às drogas é inseparável do desenvolvimento do imperialismo norte-americano e um produto direto desse imperialismo.

Antes do século 19, as drogas hoje ilegais eram usadas amplamente pelo mundo. Remédios derivados do ópio e cannabis eram usados para aliviar a dor, e menos amplamente para “recreação”. A própria Rainha Vitória gostava muito de ópio e cannabis, antes de ser apresentada à cocaína mais tarde na vida.

Aí vieram as ferrovias norte-americanas.

Milhares de trabalhadores chineses foram para os EUA no meio dos anos 1800 para construir a Central Pacific Railroad. Mas quando a ferrovia ficou pronta, eles foram imediatamente considerados uma ameaça aos trabalhadores brancos norte-americanos. Em 1882, o Congresso aprovou a Lei de Exclusão dos Chineses, a única lei norte-americana a conseguir banir imigração com base apenas em raça.

Pessoas fumando ópio na China, por volta de 1917 - 1923. Foto: CH Collection / Alamy Stock Photo

Um método para incentivar o sentimento anti-chinês era atacar a prática de fumar ópio. Apesar de morfina e láudano serem populares como medicamento nos EUA, o ópio chinês era visto como uma ameaça à moralidade cristã norte-americana, particularmente para as mulheres.

Em 1881, enquanto a Lei de Exclusão era debatida no Congresso, rumores começaram a circular a partir de São Francisco sobre casas de ópio onde “mulheres brancas e homens chineses se sentam lado a lado sob efeito dessa droga – uma visão humilhante para qualquer um com alguma masculinidade”.

Editoriais de jornal diziam que a ameaça do ópio chinês precisava ser exterminada antes que “acabe com nossa juventude, castrando a próxima geração, ou até destruindo completamente a população da nossa costa”, e que para os norte-americanos brancos, fumar ópio era “nem um pouco consistente com seus deveres como capitalistas ou cristãos”.

Crucial, no entanto, é que o primeiro regime de proibição não foi fundado nos EUA em si, mas em uma de suas primeiras colônias. Em 1898, os EUA conquistou as Filipinas na Guerra Hispano-Americana. Charles H. Brent, o bispo episcopal abertamente racista das Filipinas, desprezava usuários de ópio, e apelou para o presidente Roosevelt para proibir o hábito “maligno e imoral”. Em 1905, Brent conseguir instaurar o primeiro regime de proibição norte-americano – não nos EUA, mas nas Filipinas.

Sem surpresa, a proibição foi um fracasso. O bispo Brent então decidiu que o uso de ópio só podia ser culpa da explosão de comércio na China, e escreveu novamente para o presidente Roosevelt, dizendo que os EUA tinha o dever de “promover algum movimento que reúna os representantes de todos os países onde o tráfico e uso de ópio são a questão do momento”. Assim nascia a ideia de controlar internacionalmente o comércio de drogas.

No debate norte-americano, vício em drogas era enquadrado como uma infecção e contaminação da América branca por influência estrangeira. Agora, essa visão devia ser internacionalizada. Para proteger a pureza moral da América branca, o suprimento de drogas de outros países precisava ser cortado na fonte. Como o candidato Richard P. Hobson disse: “como invasões e pragas da história, o flagelo do vício em entorpecentes vem da Ásia”.

Um cartaz do filme de 1936 'The Cocaine Fiends'.

Em 1909, os EUA conseguiu convocar a primeira Comissão Internacional sobre Ópio em Xangai. Representando os EUA estavam o bispo Brent e o médico Hamilton Wright, que se tornaria uma das principais forças do movimento proibicionista norte-americano. No século seguinte, quase toda grande conferência ou comissão internacional sobre controle de drogas foi formada através de pressão e influência dos EUA.

De maneira interessante, apesar do que aprendemos sobre “relações especiais”, o país que ofereceu a resistência mais consistente e organizada ao impulso norte-americano para a proibição das drogas foi o Reino Unido. De novo e de novo, a Grã-Bretanha frustrava diplomaticamente as tentativas norte-americanas de impôr regimes de proibição e de estabelecer protocolos internacionais.

Isso, em parte, porque os britânicos estavam operando lucrativos monopólios de ópio em suas próprias colônias, mas também porque ressentiam “os tons de idealismo e virtude superior” dos norte-americanos. O Reino Unido tinha seu próprio sistema para lidar com o vício em drogas – tratar isso como uma questão médica em vez de criminal – e, por muito tempo, resistiu à histeria moralizante da abordagem norte-americana.

Mas era difícil para os EUA empurrar a proibição das drogas para o resto do mundo sem reforçá-la dentro de suas próprias fronteiras. Wright começou então uma nova campanha para a proibição total das drogas dentro dos EUA – mais uma vez construída quase que inteiramente em preconceito racial.

Mas dessa vez, uma nova droga emergiu para capturar a febril imaginação norte-americana, com uma nova minoria racial para perseguir. A droga era a cocaína, e a minoria era os afro-americanos. Em 1910, Wright submeteu um relatório ao Senado, dizendo que “esse novo vício, o vício em cocaína... tem sido um incentivo potente para levar os negros humildes de todo o país à criminalidade”.

O que se seguiu foi uma explosão de manchetes ligando os negros ao uso de cocaína e crimes. O New York Times publicou uma matéria típica sob a manchete “NEGROS VICIADOS EM COCAÍNA – A NOVA AMEAÇA DO SUL”. A matéria conta a história de um “um negro até então inofensivo”, que teria cheirado cocaína e entrado em frenesi. O chefe da polícia teria sido obrigado a atirar nele várias vezes para conseguir derrubá-lo. A cocaína, como a matéria implicava, estava transformando homens negros em brutos super-humanos. Como o médico citado na matéria dizia “um crioulo da cocaína certamente é difícil de matar”.

Essa histeria levou ao Harrison Narcotics Tax Act de 1914, instituindo a proibição das drogas nos EUA. Nos 50 anos seguintes, os EUA buscaria agressivamente internacionalizar sua forma de proibição.

H.L. Sharman, chefe do Controle de Narcóticos do Canadá, discutindo o controle de maconha com Harry J. Anslinger, comissário da Bureau de Narcóticos, e o secretário-assistente do Tesouro Stephen B. Gibbons. Foto: Granger Historical Picture Archive / Alamy Stock Photo

Harry J. Anslinger foi nomeado chefe da Bureau de Narcóticos dos EUA em 1930. A proibição do álcool estava prestes a ser repelida, e esse posto num pequeno departamento parecia um beco sem saída. Mas Anslinger embarcou numa campanha de manipulação política e da mídia para tornar a proibição de drogas uma chave da polícia doméstica e exterior dos EUA. E ele continuou como chefe da FBN por 32 anos, servindo sob cinco presidentes e mantendo seu cargo por mais tempo que qualquer outro funcionário público exceto Herbert Hoover.

Anslinger foi, de muitas maneiras, o arquiteto da Guerra às Drogas moderna – e o arquétipo norte-americano do guerreiro moralizador quando o assunto era drogas. Anslinger era implacável em sua cruzada, muitas vezes recorrendo a métodos nada éticos e, às vezes, ilegais – particularmente para monitorar e perseguir artistas, cientistas e intelectuais que via como ameaça.

Ele também gostava de usar raça como isca. Para incentivar a histeria na imprensa, Anslinger jogava incessantemente com o medo e o preconceito raciais, ligando a cannabis aos hispânicos, a cocaína aos afro-americanos e a heroína aos chineses.

Os chineses, ele alertava, “gostam dos charmes das garotas caucasianas”, usando o ópio para forçá-las a uma “depravação sexual indescritível”. O aumento do vício em cocaína, ele insistia, era de “praticamente 100% entre os negros”, que faziam amizade com mulheres brancas, “conseguindo sua simpatia com histórias de perseguição racial. Resultado: gravidez”.

Anslinger não estava contente em realizar sua cruzada apenas dentro dos EUA. Durante os anos 1930, ele fez lobby no governo norte-americano para pressionar o resto do mundo a adotar a abordagem proibicionista.

Aí veio a Segunda Guerra Mundial. Todos os países emergiram da guerra significativamente mais pobres, menos um: os EUA. Anslinger e seus subordinados não perderam tempo para usar a nova hegemonia norte-americana para obrigar outras nações da ONU a adotar o modelo proibicionista. Eles garantiram que aquela versão do Harrison Act entrasse para as leis dos países ocupados do Eixo, e o próprio Anslinger foi apontado como representante norte-americano da Comissão de Entorpecentes da recém-formada Nações Unidas.

Cada aspecto das relações internacionais, da proteção militar a acordos comerciais e programas de ajuda humanitária, se tornaram um incentivo ou ameaça para coagir outros países a adotar o modelo norte-americano. Charles Siragusa, um agente de alto escalão da FBN, deixou essas táticas de bullying explícitas: “Na maioria das vezes descobri que mencionar casualmente a possibilidade de acabar com nossos programas de ajuda, nas horas certas, resulta na permissão de má vontade para nossas operações quase que imediatamente”.

Os outros países estavam conscientes dessa armação e ressentiam serem obrigados a adotar normas norte-americanas para satisfazer argumentos raciais internos dos EUA. O delegado britânico da CE reclamou que, se não fosse “pelo problema branco de drogas nos EUA”, outras nações poderiam investir em suas próprias políticas de drogas. Outro representante inglês expressou frustração de que o presidente da CE, “Anslinger... continua a confundir sua posição como presidente e representante dos EUA”.

Uma "cozinha" de cocaína na selva boliviana. Foto: Jeff Rotman / Alamy Stock Photo

Depois do final da guerra em 1945, levou 16 anos de bullying norte-americano nos bastidores, mas o sonho do bispo Brent de uma proibição internacional das drogas ilícitas se realizou. A Convenção Única de Entorpecentes de 1961 foi aprovada, visando colocar todo um emaranhado de tratados e convenções de drogas anteriores na linha. Isso foi resultado de uma resolução pensada e patrocinada pelos EUA. Era uma política norte-americana, servindo interesses norte-americanos – e todas as marcas registradas do proibicionismo norte-americano estavam enraizadas em seu cerne.

A Convenção de 1961 é a única da história da ONU a usar a palavra “mal”, afirmando que “o vício em drogas narcóticas constitui um sério mal para o indivíduo, e está repleto de perigos sociais e econômicos para a humanidade”.

Tortura, apartheid e guerra nuclear não são descritos nesses termos. Genocídio é referido nos documentos da ONU como um “flagelo odioso” ou “ato bárbaro”, mas nunca como um “mal”. Que a ONU, fundada das cinzas da guerra mundial e do Holocausto, ache que o vício em drogas é o único fenômeno digno dessa palavra, mostra o tamanho da pressão moralizante norte-americana.

A Convenção Única estabeleceu o padrão internacional de colocar as drogas em diferentes “escalas” para determinar seus níveis de perigo, punições para comercializá-las, e potenciais benefícios delas para a medicina e a ciência. Essa Convenção formou a base para as legislações individuais de cada país sobre as drogas. Quando outras nações consideravam se desviar do modelo norte-americano, as sanções automáticas escritas na Convenção Única as mantinham na linha.

Um inventário completo de como os EUA militarizou a guerra às drogas no mundo, desde que a Convenção Única foi assinada em 1961, levaria vários livros para explorar. De patrocinar esquadrões da morte na América Latina, ao DEA realizando missões estilo Forças Especiais no Afeganistão, até o método de ser elegível ou não para ajuda dos EUA e tratados de comércio baseados em cooperação na erradicação das drogas e atividades de interdição, a Guerra às Drogas funciona consistentemente como um braço do exército norte-americano e de sua hegemonia econômica.

Governos por todo o mundo – mesmo no Reino Unido, que antes resistiu à abordagem proibicionista e ofereceu um modelo alternativo – dizem que o certo a fazer é continuar “lutando a guerra às drogas”. Quando dizem isso, você não pode esquecer que eles estão aplicando uma política norte-americana que foi forçada ao resto do mundo. Uma política, no geral, derivada de algumas das tendências mais feias e vergonhosas da história dos EUA. A Guerra às Drogas não é um conflito global – é um conflito norte-americano que foi globalizado. Devemos examinar seus fracassos e pensar duas vezes sobre se devemos continuar nessa guerra.

Esta matéria contém trechos do livro Drug Wars, publicado pela Ebury Press.
Matéria publicada originalmente pela VICE Reino Unido.

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