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Ninguém lembra da vez que a Folha lançou um single do Nirvana

Bruno Romani

Bruno Romani

Num domingo de 1992, os leitores do antenado jornalão receberam um inusitado vinil com o segundo single — "Come as You Are" — de um disco de rock que bombava na gringa, o 'Nevermind'.

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Ganhar brinde é sempre uma maravilha, mas ele sempre vem acompanhado de um rastro de pequenas dúvidas. Quando a benevolência parte de uma grande empresa, só dá para concluir que ou estão loteando a sua alma e os seus dados, ou o mimo tem qualidade mais duvidosa do que cigarro que cruza ilegalmente a fronteira Paraguai-Brasil. Porém, vez ou outra, aquela bugiganga pode se tornar um objeto raro, de valor muito superior ao original.

Em 1992, o jornal Folha de S.Paulo presenteou os seus assinantes com um disco de uma banda até então desconhecida. Num domingo daquele ano, os fiéis leitores receberam junto com a edição do diário um vinil de um tal de Nirvana. E, veja bem, não era o Nevermind, disco lançado em setembro do ano anterior, que já estava bombando na gringa. Era “Come As You Are”, segundo single daquele álbum. O presentinho foi feito em vinil. EM VINIL.

Desnecessário dizer que o simples fato de ser em vinil, que vive uma era de oba-oba, já é suficiente para valorizar o disquinho. Mas também o fato de ser um single brasileiro que alterou a capa original do trabalho aumenta ainda mais sua aura de raridade. A capa desse Come as You Are acrescenta a marca da Folha de S.Paulo à arte original, que estampa espermatozóides e tons de roxo. Assim, esse trampo só pode ser encontrada no Brasa (e nem mencionamos que era bem pouco comum nos anos 1990 bandas gringas lançarem qualquer tipo de single por aqui).

Durante o fim daquela década, algumas dessas unidades foram parar em sebos a preços baixíssimos — conhecemos um truta que pagou R$ 2 em uma delas num extinto sebo de São José dos Campos (97 km de São Paulo). Hoje em dia, porém, essa amostra grátis passou a ser procurada por colecionadores e fãs da banda, o que inflacionou bem o ítem. No eBay, ele pode ser encontrado por até US$ 150. No Mercado Livre, sai um pouco mais barato: R$ 150.

OUVE ISSO AÍ

Naquela época, a ideia de presentear assinantes de jornal com um disco era diferente do que acontece hoje em dia, quando publicações impressas fazem promoções com artistas já consagrados para aumentar as vendas. Com o Nirvana, o objetivo não foi alavancar o número de assinaturas, e sim tentar promover um artista que não emplacava nas nossas rádios. Sim, o Nirvana estava longe de ser um sucesso por aqui.

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"Com toda a aura histórica que o Nevermind tem, a verdade é que ele foi lançado e não vendeu nada nos primeiros meses aqui no Brasil. O meu trabalho era para que a coisa saísse das 20 mil cópias", conta Roberto Verta, gerente de marketing da BMG no Brasil na época. Ele foi a pessoa responsável por toda a divulgação da banda no país. "As 20 mil cópias que foram vendidas logo de cara foi em função da repercussão na imprensa internacional de rock". Só os ratos de loja topavam a sonzeira de Cobain.

O ex-executivo lembra que demorou quase um ano após o lançamento de Nevermind para que as rádios brasileiras tocassem qualquer material do álbum. Foi só por volta de julho de 1992 que Verta convenceu a Transamérica a rolar "Come as You Are". Sim, "Smells Like Teen Spirit" passou batida pelo nosso dial.

Assim, a ideia da gravadora era conectar a banda a um público mais jovem, descolado e formador de opinião, embora pareça bizarro um jornalão distribuindo disco de banda de rock. Ao contrário do que acontece hoje em dia, tempos nos quais o público alvo dos diários são os tiozinhos de 50 a 55 anos prontos para escrever textão no Face, a Folha tinha uma conexão com esse o público descrito acima por meio dos leitores da Ilustrada, o seu caderno de cultura. Ganhar a chancela do jornal, poderia alavancar a turma de Seattle, que já bombava lá fora. Outros tempos, de fato.

A escolha por distribuir o segundo single do Nevermind e não o primeiro também seguiu uma lógica que unisse todas as tribos. A dinâmica morde e assopra de "Smells Like Teen Spirit", que intercalava momentos explosivos e melódicos, não funcionava para o público brasileiro. "Come As You Are", que era mais linear, era vista pelo braço brasileiro da gravadora como uma música com mais apelo popular.

O curioso é que o single de "Come As You Are" carrega também a música mais anticomercial do Nirvana. "Endless, Nameless" é uma destruição de estúdio registrada em tempo real, que, para os desavisados, não passa de barulheira e microfonia com respiros melódicos. Durante o registro da porra toda, Kurt Cobain quebrou a única guitarra para canhotos disponível no estúdio, como lembra a Rolling Stone.

Além dos dois sons de estúdio, o disco leva versões ao vivo de "Drain You" e de "School" gravadas num show em Seattle em outubro de 1991.

Barulheira à parte, a estratégia, porém, parece ter ajudo na divulgação do Nirvana. Quando Verta saiu da BMG, em 1997, Nevermind já tinha ultrapassado as 180 mil cópias vendidas no país. E a banda, claro, já era um monstro por aqui.

NÚMEROS

No Discogs, o disco da Folha aparece com tiragem de apenas 200 unidades, o que certamente contribui para aumentar o seu valor. Mas, isso pode ser papo de vendedor.

Embora não se recorde do número de unidades impressas, Verta diz que não faz sentido que um projeto que tinha como objetivo promover um artista tenha tiragem tão baixa. Ele fala que ao tocar no assunto, o número "4 mil" vem a memória, mas não garante que essa tenha sido a tiragem do disco.

O fato é que fizemos contato com a Sony Music, que hoje detém os arquivos da extinta BMG. A gravadora não soube informar o número, embora não tenha demonstrado muito interesse em falar sobre o assunto. A Sonopress, que fazia prensagem de discos e que pode ter trabalhado no projeto, diz que não possui registros anteriores a 2001.

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Já o ano de lançamento informado pelo Discogs parece estar mais em sintonia com a realidade. Segundo Verta, as ações promocionais começaram depois que Nevermind teve partida mais lenta que arrancada de balsa. Já em 1993, qualquer ação de marketing relacionada ao disco já não faziam sentido, pois desde o começo daquele ano já circulavam os rumores de que a banda trabalhava no seu sucessor, In Utero. Portanto, 1992 deve ser mesmo o ano real de lançamento.

Fizemos uma busca no Acervo Folha entre setembro de 1991 (mês de lançamento do Nevermind) e janeiro de 1993 (período da passagem da banda pelo Brasil) e não encontramos nenhuma comunicação do jornal sobre o mimo. Olhamos todos os Primeiro Caderno e todas Ilustrada. Foi cansativo. E foi uma baita decepção.

OBSCURO NA FOLHA

Na Folha, o projeto parece também não ter ficado na memória. Conversamos com pelo menos dez pessoas, entre jornalistas, diretores e funcionários, que trampavam no jornal na época. Quase ninguém se recordava do disco do Nirvana. Na real, apenas um deles afirmou que se lembrava do projeto, mas fez algumas explicações que podem ajudar a entender a ausência de registros por parte do jornal.

Hoje aposentado, Luis Carlos Alba, 61, trampou como encarregado de fotografia e montagem de fotolito até 1996. Ele afirma que Come as You Are foi encartado em uma capa falsa do jornal. Assim, os leitores teriam a capa original do jornal e uma outra apenas levando o disco. Isso explica a ausência de registros no acervo Folha, que guarda apenas as capas originais do diário.

Ele conta que ficou responsável por vigiar os discos durante o processo de encarte e espera para distribuição. Diz que era comum que "biqueiros", os caras que trampavam ajudando a encartar os discos, e outros curiosos levassem para casa discos e outros mimos oferecidos pela Folha. Nesse esquema, segundo ele, os discos eram contados e não poderiam ser extraviados.

A preparação dos discos junto ao jornal foi feita nos fundos do andar térreo da sede da Folha na alameda Barão de Limeira. O local, que têm saída para a rua Barão de Campinas, é um pouco mais escondido, e evita olhos mais curiosos. Ainda assim, ele garante que foram contratados biqueiros para encadernar o disco, pois a quantidade de unidades era grande (o que também desmente a ideia de uma tiragem de 200 unidades).

Apesar de assumir o papel de vigia, Alba não perdeu a chance. "Eu levei um para casa, mas eu só tinha toca-fitas, e nunca toquei ele. Eu trouxe porque era bonito, era uma coisa nova." E parece que ficou nisso mesmo. Ele não sabe o paradeiro atual do disco.

Você, caro hipster, deve estar se perguntando como alguém jogaria fora um disco de vinil, objeto tão valioso. Bom, a provável explicação é que a decisão de imprimir o single em vinil foi econômica. Verta lembra que, embora consolidado fora do país e já com bom avanço no Brasil, o CD ainda era um formato caro. O vinil, ao contrário, era baratão. As fábricas abundavam e muita gente tinha aparelhos de som. Ou seja, a ideia da gravadora foi presentear com algo bem descartável e eficiente.

Ninguém imaginava que 25 anos depois o single se tornaria ítem de colecionador. Então, parça, fica aqui um final de reportagem com mensagem amiga: fique de olho no próximo brinde que você levar para casa!