Ilustração: Cassio Tisseo 

"Beneath the Remains": 30 anos do grande salto do Sepultura e do metal brasileiro

Conversamos com a banda e com outros músicos do Brasil e do mundo sobre a história e a importância deste verdadeiro clássico da música pesada.

por Luiz Mazetto; ilustrado por Cassio Tisseo
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17 Abril 2019, 2:44pm

Ilustração: Cassio Tisseo 

Quando Beneath the Remains foi lançado, em abril de 1989, talvez ainda não fosse possível ter uma dimensão real da sua importância. Gravado no final do ano anterior no Rio de Janeiro, o terceiro longa duração do Sepultura, e o segundo com a chamada “formação clássica”, com Max Cavalera, Iggor Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Júnior, é certamente um dos discos mais importantes do metal brasileiro. O álbum marcou uma série de “primeiras vezes” para a banda, e consequentemente impulsionou a música pesada feita por aqui para níveis até então nunca vistos.

Entre outras coisas, Beneath the Remains foi o primeiro disco do Sepultura a sair pela Roadrunner e o primeiro feito com um produtor especializado (Scott Burns), além de ter rendido o primeiro videoclipe (para “Inner Self”), e as primeiras turnês internacionais, na Europa, na América do Norte e no México – quando aconteceu o primeiro encontro do Sepultura com o Lemmy Kilmister, do Motörhead. Como se isso não fosse o bastante, Beneath the Remains também abriu as portas para a trinca Arise (1991), Chaos AD (1993) e Roots (1996), lançada nos anos seguintes, e para outros clássicos nacionais que saíram ainda em 1989, como Brasil, do Ratos de Porão, e Theatre of Fate, do Viper.

Para relembrar as histórias e a importância do álbum, incluindo a “polêmica” sobre a capa, que originalmente deveria ter sido um outro desenho de Michael Wheelan, as gravações de madrugada no Nas Nuvens, no RJ, a produção do Scott Burns e as primeiras turnês fora do Brasil, entre outras muitas coisas, conversamos com os quatro responsáveis por Beneath the Remains e também com músicos do Brasil e do mundo que foram marcados e/ou influenciados de alguma forma por essa verdadeira obra-prima do metal.

Evolução da banda na época

Max Cavalera (Soulfly, Cavalera Conspiracy, ex-Sepultura)*: Quando a gente fez esses discos ( Beneath the Remains e Arise), a gente tava só pensando em como que dava para tentar melhorar musicalmente e tocar melhor. Acho que o primeiro passo que a gente fez nesse lance foi o Schizophrenia (1987), que já mostrou uma musicalidade bem maior do que o Morbid Visions (1986) - apesar de eu ser bastante fã do Morbid Visions, que eu acho que é aqueles black metal cru, que eu acho bem legal e escuto até hoje. Mas a gente sentiu que a gente podia fazer mais, que dava para ir além. Então quando a gente recebeu o convite, e eu fui para os EUA e conseguimos o contrato (com a Roadrunner), aí a gente sentiu a seriedade da coisa e viu que tinha uma possibilidade disso aí ser de verdade, de a gente virar uma banda mesmo.

Andreas Kisser (Sepultura, De La Tierra): Quando eu entrei para a banda, em 1987, se você escutar o Bestial Devastation (1985) e o Morbid Visions e o Schizophrenia, eles são completamente diferentes. Eu trouxe muita influência do heavy metal tradicional, aquela coisa de querer fazer solo, de fazer umas partes um pouco mais trabalhadas, a guitarra limpa.

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A banda em 1989 na época do lançamento do álbum. Foto: Divulgação.

Paulo Junior (Sepultura): Acho que era a coisa que a gente queria fazer desde moleque. E o Schizophrenia foi um disco importante, né? Foi a parte que o Andreas entrou na banda, foi mais um autoconhecimento. E, apesar de a gente não ter tido muitas chances de tocar ao vivo, acho que projetou e inspirou o trabalho para o Beneath the Remains. E aí (com o Beneath) a gente já teve um contrato assinado, então a gente já teve um produtor com experiência maior para ajudar na parte de produção, timbre e finalização das composições. Então a coisa ficou mais séria, na verdade. Cada disco tem a sua importância, é um degrau que foi subido na carreira da banda.

Andreas Kisser: Foi daí que a gente começou realmente a aprender um com o outro. Porque eu era mais do heavy metal e comecei a aprender mais sobre o hardcore, sobre o punk, sobre o death metal, aquela coisa mais crua. O jeito que eles faziam música era uma coisa muito peculiar, muito única. Então eu aprendi muito com eles e eles aprenderam muito comigo.


Gravação no Nas Nuvens

Max Cavalera: Foi um disco gravado de noite no Nas Nuvens, que acho que era o melhor estúdio do Brasil, um dos mais famosos aqui - tantos discos bons foram feitos lá, Titãs, Legião, Paralamas. E a gente só tinha como gravar à noite, tinha uma banda de pop gravando de dia. Então as nossas sessões eram da meia-noite às sete da manhã. E eu nunca tinha feito um disco assim, noturno. Acho que tem um lance meio louco nessa gravação noturna e que acabou saindo no disco (risos). O disco acabou ficando até mais raivoso por causa disso, é um disco estranho, um disco noturno mesmo.

Paulo Junior: Esse era o horário que a gente conseguiu, porque o Nas Nuvens era um dos principais estúdios do Brasil na época. Foi o estúdio que o Scott Burns escolheu pela demanda do equipamento e tal. E esse horário que a gente fazia era a entressafra das gravações do Nas Nuvens. Então financeiramente falando também era o mais plausível na época. Foi toda uma combinação de valores. Tanto que depois, com o sucesso do Beneath, a gente conseguiu ir para o estúdio com o Scott Burns para fazer uma coisa com mais tempo, mais produzida, que acabou sendo o Arise.

Iggor Cavalera (Cavalera Conspiracy, Mixhell, Petbrick, ex-Sepultura): O Nas Nuvens era o estúdio do Liminha, do Mutantes. Então foi aquela coisa, a gente já tava num estúdio bem mais legal do que os que a gente gravava antes, que era em um estúdio onde meio que os caras gravavam sertanejo e querer distorcer tudo – e ficava uma merda, porque os caras queriam arrumar.

Andreas Kisser: E a gente escolheu também o Nas Nuvens porque a gente amava, eu pelo menos amo até hoje, o Cabeça Dinossauro (1986), do Titãs, produzido pelo Liminha, gravado lá. Então esse disco realmente...Ah, onde foi gravado? Foi lá? Então é lá é que a gente tem que ir.

Escolha pelo Scott Burns

Andreas Kisser: Outra possibilidade de produção foi o Jeff Waters, guitarrista do Annihilator, que também é produtor. A gente quase fechou com ele na época, ficou entre os dois. Mas o Scott era o cara que a gente mais queria, por causa do Morrisound, o Death, toda aquela cena da Flórida, que sempre influenciou muito o Sepultura – o Morbid Angel e tudo mais.

Iggor Cavalera: De repente podia ter sido legal pra caralho fazer com ele (Jeff Waters). Mas a nossa cabeça na época falou: “Não, mano, vamos fazer com o Scott Burns porque ele faz as bandas mais fodas”. E que também era o caminho mais rápido, vamos dizer assim, porque a gente não queria arriscar. Até porque, até então, a gente ainda estava em um grupo meio de risco da gravadora. Tipo, eles ainda não acreditavam 100% na gente. Ainda tava naquela: “Vai lá fazer o disco com os moleques e vê no que é que dá”. Depois do Beneath the Remains que eles conseguiram ver e falar: “Puta, não, não, realmente os caras sabem o que eles tão fazendo, vamos trazer eles pra cá pra fazer o Arise”.

Sobre trabalhar Scott Burns

Andreas Kisser: O Scott Burns veio para o Brasil e a gente teve uma química absurda, imediata. Ele chegou aqui de chinelo, já ganhou o apelido de “Tião”, era algo como “esse cara é mais brasileiro do que a gente”.

Iggor Cavalera: O Scott Burns trouxe um boombox, que era pra gente ir ouvindo as fitas que a gente ia gravando no estúdio. E aí no segundo dia já roubaram o negócio dentro do quarto dele no hotel.

Andreas Kisser: Ah, e ele trouxe um cabeçote da Mesa Boogie, que era a grande arma que a gente tinha. Porque aqui no Brasil não existia isso aí. Ele também trouxe as fitas, que era uma coisa que custava muito caro.

A polêmica com a capa

Andreas Kisser: A capa não era pra ter sido aquela, apesar de eu amar a capa agora. A gente se acostuma com isso, obviamente. E a gente foi obrigado a escolher a capa entre outros desenhos que o Michael Wheelan tinha mandado. Porque a primeira capa que a gente realmente tinha escolhido para ser o Beneath the Remains é a capa que eventualmente foi a capa do Cause of Death (1990), do Obituary.

Iggor Cavalera: A bronca foi do lance dos caras (da gravadora) terem decidido da cabeça deles de inverter as bolas ali. Mas arte por arte mesmo, hoje eu gosto mais do Beneath the Remains do que a que seria originalmente, que era o Cause of Death, do Obituary. Porque eu acho que até a coisa de ela ser um pouco mais estranha, aquele lance da caveira ser um pouco fora do centro e ficar um monte de espaço preto, hoje eu acho isso muito mais legal do que aquela coisa que todo mundo fazia igual, tudo centralizado. Mas a bronca mesmo não foi do desenho em si, mas mais dos caras simplesmente falarem: “Ah não, a gente deu essa aqui para os caras”. E, querendo ou não, o meu irmão que descobriu o Michael Wheelan, em um livro em um shopping, e fez a Roadrunner ir atrás do cara. Então por esse lado foi meio foda. Mas de desenho em si, eu acho os dois legais pra caralho.

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A capa do álbum Cause of Death do Obituary.

Andreas: Com o Arise, acho que a gente conseguiu fazer realmente o disco que a gente queria, com o livreto, com as fotos que a gente quis, com as letras. A capa foi exclusiva pra gente, o Michael Wheelan fez uma capa. E a gente conquistou tudo isso através do Beneath the Remains.

Videoclipe de “Inner Self”

Andreas Kisser: E teve também o primeiro clipe, da “Inner Self”. E isso foi muito interessante também porque a gravadora ficou surpresa com a reação que o Beneath the Remains teve – o disco vendeu pra caralho muito rápido. Aí a gente tava no Brasil e de emergência eles falaram: “Ah, a gente precisa de um videoclipe”. E a gente: “Ah, caralho, que foda, do caralho. Mas como é que a gente vai fazer isso? (risos)”. Aí nós achamos uns amigos aqui e fizemos o clipe. E se você ver o clipe da “Inner Self”, ele não tem nada a ver com nada, mas tem tudo a ver com tudo. Porque a gente tava mostrando o Brasil, mostrando São Paulo, atravessando a Avenida Paulista, mostrando a galera do skate, que ficava com a gente, jogar futebol, que a gente curtia. E um show que a gente fez no Projeto SP, um puta showzaço, praticamente o show de lançamento do Beneath the Remains aqui no Brasil, que foi um dos maiores shows que a gente fez na nossa história até aquele momento.

Gastão Moreira (Kazagastão, ex-MTV): Assisti ao vídeo numa feira que a MTV fez um mês antes de entrar no ar e fiquei arrepiado. Tecnicamente o clipe é tosco, mas é um registro muito importante de um Sepultura que iria tornar-se gigante pouco tempo depois. O vídeo tornou “Inner Self” um clássico e foi tocado à exaustão no meu querido Fúria Metal, tornando o metal brasileiro motivo de orgulho nacional.

Primeira turnê internacional, com o Sodom na Europa, e recepção fora do país

Andreas Kisser: Foi maravilhoso, né mano? A gente tava realmente preparado, ensaiava todos os dias. A gente chegava lá para tocar e destruía. A gente tava muito com sangue nos olhos. Fomos sem equipe, usamos os roadies do Sodom.

Paulo Junior: Foi superlegal. Era o sonho de qualquer moleque que tocava heavy metal naquela época ter a possibilidade de sair para fazer uma turnê. Além de ter esse lado de estar superfeliz e supercurioso, a gente também teve a preocupação de ter uma... Nós fizemos uma sequência de shows muito grande. Então a gente não sabia realmente como seria, como aconteceria isso. E acabou sendo muito mais proveitoso do que a gente imaginava. Você fazer uma sequência de shows, isso te ajuda bastante. Então esse foi um desafio que a gente tirou de letra. E acabamos realmente vendo que isso era algo que beneficiava o artista, no contexto geral da coisa. Você tinha que estar na estrada, independente do que você faz. Se você é músico, você tem que estar mostrando o seu trabalho ao vivo, isso que é a parte mais interessante e mais bacana.

Andreas Kisser: Então eles (Sodom) realmente estavam em um momento especial da carreira e a gente meio que entrou de gaiato. Na Alemanha realmente eles eram muito grandes – na Alemanha, na Áustria, os países de língua alemã. Mas fora da Alemanha a gente engoliu os caras, principalmente no Marquee, em Londres, e na França, no Gibus. A gente tocava e, sem exagero, 80% da galera ia embora, e eles tocavam pra 20% da galera.

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Foto: Divulgação.

Iggor Cavalera: Tinha uma empolgação (dentro da banda), mas a gente não tinha ideia (da proporção que o disco teria). Tinha essa empolgação que a gente sabia que ia sair fora, que o disco ia ser lançado nos lugares. Até então, a gente só tinha uma versão pirata do Schizophrenia que tinha rolado, que alguém pirateou na Alemanha e nos EUA – o que foi legal por um lado, mas não era aquela coisa oficial. Então a gente tinha, sei lá, um pouco de esperança. Mas aí, a partir do momento que a gente tocou fora, que eu lembro que o primeiro show abrindo para o Sodom foi em Viena. E eu lembro que a gente tocou as músicas e os moleques pirando em tudo que a gente tocou. E a gente tinha até uma ideia de que ninguém quer ouvir a banda de abertura, tipo os caras vão lá só pra ver o headliner, não importa o que você tocar aqui. E foi meio ao contrário esse lance com o Sodom. Às vezes, tinha muito mais gente para ver a gente do que o Sodom. A partir dali, a gente falou: “Puta mano, esse disco realmente tá foda”. Mas antes disso era muito mais um lance da nossa cabeça, de ficar fantasiando com esperança, mas a gente não tinha noção.

Andreas Kisser: E isso mostrou pra gente que...É muito motivante você ver esse apoio de gente que você nunca viu na vida, com camiseta do Beneath the Remains, cantando as letras da “Inner Self”, vindo da Hungria, do outro lado do Muro de Berlim, porque o muro ainda não tinha caído. A gente tava lá em setembro de 1989, eu acho. Nós inclusive tocamos em Berlim e fizemos uma foto com o muro de pé. Então uns caras da Hungria, da Polônia vindo para ver show era muito legal, era muito raro. E isso me causou um impacto muito forte, de ver realmente que a música tem um poder absurdo de penetração, de chegar em lugares que você nunca imaginou.

Primeira turnê nos Estados Unidos

Andreas Kisser: O Beneath the Remains também levou a gente para os EUA. A gente ficou na Europa e foi direto para os EUA. Acho que ficamos uns quatro meses fora do Brasil na nossa primeira turnê internacional. Foram praticamente dois meses na Europa e mais dois nos EUA. Pô, o Metallica foi assistir a gente, conhecemos o pessoal do Exodus. Lá na Bay Area foi todo mundo, todas as bandas – Death Angel, Vio-lence, Exodus, o pessoal do Testament, foi todo mundo lá. Era incrível de ver, a curiosidade que o Sepultura criava na galera. Porque não tinha internet, né? A galera escutava história, não sabia nem falar Sepultura direito, falava “Sepaultura”, tipo “como é que são os caras?” (risos). E a foto do Beneath the Remains atrás é mais obscura ainda, porque é uma coisa escura, que você nem vê quem é quem na banda. Mas criou uma aura de misticismo que foi muito positiva pra gente, a galera ficou curiosa pra ver isso de perto. Então era sensacional, poder conhecer os nossos ídolos e eles querendo conhecer a gente. Puta mano, coisa mais linda do mundo.

Primeiro show no México

Iggor Cavalera: A história desse show acho que é uma das coisas mais cabulosas do mundo. Era a primeira vez tocando no México, na turnê do Beneath mesmo, e a banda de abertura estourou o PA. A gente tava no camarim, o lugar lotado, e o cara entrou e falou: “Ó, o PA foi pro saco”. Aí a gente falou: “Puuuta, e agora?”. Aí o cara falou: “Ahh, sei lá, não tem como trocar isso aí, se vocês quiserem cancelar, tudo bem”. E eu lembro que eu olhei pro meu irmão e falei: “Ah, vamos tentar fazer, né?”. Aí eu lembro que a gente plugou lá as paradas, plugou o vocal em mais uns amplificadores e fez sem PA. Então, além daquele show ser uma puta maluquice, não tem PA naquele show, é só o som do palco com os moleques cantando. E é aquele tipo de coisa que a gente poderia ter perdido se a gente falasse algo como: “Não, vamos cancelar, porque não vai ser o show perfeito e não sei o que”. O que teria sido uma cagada mortal, porque foi um dos shows mais legais. Principalmente porque alguém filmou, porque naquela época quase ninguém filmava. Então não era um lance comum. E esse show foi meio isso, quase que não rolou.

Primeira vez que ouviu o disco

Pedro Poney (Violator, Abismo): A primeira vez que eu ouvi o Beneath the Remains deve ter sido ali pelo fim dos anos 1990, mais ou menos, que era uma época que eu e eu meus amigos – que viríamos a formar o Violator – estávamos descobrindo essa coisa que era o thrash metal. Naquela época, em um mundo de transição entre off-line e on-line, as coisas ainda se perdiam na nossa cultura. E o thrash metal era uma cultura perdida naquele momento, no fim dos anos 1990. Era uma palavra esquecida até assim, o thrash. E aí a gente tava nessa redescoberta dos primeiros discos do Kreator. E o Beneath the Remains foi logo um dos primeiros discos que apareceram. E foi muito marcante, porque eu acho que nunca tinha ouvido nada tão rápido, tão violento, com uma energia tão concentrada. Eu nunca mais fui capaz de escutar o Sepultura da mesma forma.

Spencer Hazard (Full of Hell): Na verdade, cheguei tarde ao Beneath the Remains. Já era fã do Chaos AD e do Arise, mas nunca tinha realmente feito meu caminho em direção até ele até bem depois. E agora é o meu disco favorito da banda. Adoro como é um álbum muito cru, mas ao mesmo tempo tão “cativante”. Uma mistura perfeita dos seus trabalhos anteriores e para onde eles iriam seguir com o Arise.

Impacto do disco

Gastão Moreira: O Beneath the Remains consolida uma evolução que começou com a entrada de Andreas Kisser no álbum anterior, Schizophrenia. A inocência dos primeiros discos é trocada por disciplina e profissionalismo. Confesso que não gosto muito da produção do Scott que deixou a desejar no peso das guitarras.

Boka (Ratos de Porão): Acho que o maior impacto pra mim foi quando saiu o Schizophrenia. Não dava pra acreditar que era uma banda nacional. Um passo à frente em todos os sentidos. O Beneath já foi aquela confirmação de expectativa, de a gente pensar e dizer: “essa banda é a melhor, sem sombra de duvidas”.

Músicas favoritas

Nate Newton (Converge): Costumo ouvir o disco inteiro, de cabo a rabo, mas as músicas que sempre costumava colocar nas mixtapes são “Primitive Future” e “Stronger Than Hate”.

Spencer Hazard (Full of Hell): A “Stronger Than Hate” é não apenas a minha música favorita do disco, mas a minha faixa favorita do Sepultura no geral.

Iggor Cavalera: Acho que, para mim, a “Mass Hypnosis” ainda é a mais legal de tocar ao vivo. Ela tem um puta som, de trabalho de bateria também, acho que ficou bem legal. E voltar a estar tocando isso foi legal pra caralho.

Legado do Beneath the Remains

Andreas Kisser: O Beneath the Remains realmente foi uma porta para o mundo, a primeira vez que a gente saiu do Brasil para tocar e representar o Sepultura, a nossa música, através do Beneath the Remains, que foi realmente muito bem aceito pela galera imediatamente. Tanto é que depois a Roadrunner depois relançou o disco com um pôster da banda, com as letras, do jeito que a gente queria realmente fazer em princípio.

Paulo Junior: Acho que o Beneath foi a abertura das portas. Porque levou a gente a ter a possibilidade de fazer uma primeira turnê internacional, de conhecer lugares fora do país e nos preparar para os anos que viriam na sequência. Acho que foi um marco na carreira internacional da banda.

Boka: Foi um divisor de águas, né? Acho que mostrou a banda em excelente forma, meio que um auge. Talvez seja o melhor disco do estilo que saiu. Qualidade impecável. Colocou o metal nacional como algo de total relevância na época e historicamente.

Nate Newton: Acho que ainda se mantém (depois de todo esse tempo). Há um lugar especial no meu coração para a produção de metal/crossover/hardcore daquela época – apesar de algumas vezes ouvir esses discos e pensar como eles soariam com o tratamento e as ferramentas que estão disponíveis hoje. Houve muito tempo para aprender como gravar esse tipo de som desde então. Quando o Beneath the Remains saiu, tudo ainda era muito novo. Acho que o Beneath marcou o início dessa progressão e deixou claro que essa era uma banda para você prestar atenção.

Gastão Moreira: O Beneath the Remains encontra um Sepultura mais maduro em todos sentidos. Nesse disco eles abriram caminho para o som poderoso executado nos sucessores de Beneath. As composições são mais elaboradas, a voz do Max está mais consistente e o Iggor revela-se um baterista diferenciado.

Spencer Hazard: Como disse anteriormente, penso que é o melhor disco deles, mas talvez mais um favorito das pessoas no underground. Penso que deveria ser tratado com mais respeito no mainstream, juntamente com o Roots ou o Chaos.

Pedro Poney: A impressão que eu tenho é que o disco continua sendo um passo fundamental de internacionalização do metal brasileiro. Acho que, se eu posso dizer hoje pela perspectiva de uma banda que tem viajado pelo mundo, o Beneath the Remains é uma pedra fundamental na nossa construção da internacionalização do metal brasileiro. Então acho que todas as bandas, desde as bandas que tavam junto com eles na época até as bandas que vem hoje, tem que reconhecer isso. Acho que todos nós que nos sentimos parte dessa comunidade, dessa comunidade de contracultura, temos que agradecer e reconhecer o Beneath the Remains como uma pedra fundamental no processo de colocar a nossa cultura cada vez mais próxima do mundo. E é assim que funciona, o heavy metal tem que ser um negócio sem fronteiras.

*As declarações de Max Cavalera contidas aqui foram publicadas originalmente em novembro de 2018 em outra reportagem da VICE Brasil, também feita por este que vos escreve, quando o músico estava no país para uma tour focada no Beneath the Remains e no Arise, que inclusive acaba de ganhar novas datas para junho – saque o cartaz abaixo.

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