Política

O profeta do fim da União Soviética é "comunista" para os fãs de Bolsonaro

Se Ronald Reagan estivesse vivo é capaz de que ele também fosse chamado de bolchevique.
10 Outubro 2018, 9:00pm

Parece que as eleições brasileiras fizeram mais uma vítima da Síndrome de “Todo Mundo que Não Gosto É Comunista”. Depois do historicamente antifascista Roger Waters ter revoltado os fãs da pista premium do seu show em São Paulo por chamar o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) de neofascista, agora é a vez de um dos grandes articuladores do mundo pós-soviético, o neoliberal de primeira ordem Francis Fukuyama, ser chamado de “comunista”.

A “acusação” veio depois que Fukuyama compartilhou em sua conta no Twitter um artigo de opinião do jornal The New York Times chamado Can Brazil’s Democracy Be Saved? (“A Democracia no Brasil Pode Ser Salva?”), assinado pelo cientista político canadense Robert Muggah, co-fundador do Instituto Igarapé. O texto, que contém críticas fortes ao PT e também ao MDB e ao PSDB, foca no encanto que Bolsonaro exerce sobre a classe média brasileira, chamando o deputado federal de “populista” e “autoritário”, mostrando como ele é um perigo para a continuidade da democracia brasileira.

Mas o eleitor de Bolsonaro, ah, não, para ele um ideólogo do ídolo do Partido Republicano dos EUA que não pague pau pro “mito” só pode ser comunista.

E não é de hoje que os fiéis de Bolsonaro usam esse termo para atacar Fukuyama:

Os ataques fizeram o próprio Fukuyama fazer um post irônico de volta, falando que “muitos brasileiros parecem achar que eu sou um comunista por estar preocupado com a ascensão de Bolsonaro. E vocês achando que os EUA estão polarizados...”.

Assim como no caso de Waters, um dos principais argumentos a respeito de Fukuyama é “você não sabe de nada o que está acontecendo, o PT vai transformar isso aqui numa Venezuela”.

Mas a ironia principal vem do currículo de Fukuyama, um notório anti-comunista. Ele foi um dos principais colaboradores na criação da Doutrina Reagan, a estratégia do ex-presidente norte-americano idolatrado pelos reacionários brasileiros por vencer de vez a Guerra Fria— uma doutrina que ecoa até hoje no discurso da direita. Ela consistia em fortalecer unidades de guerrilha anti-soviéticas em países de Terceiro Mundo, como o Afeganistão (a “Vietnã russo”), Angola, Etiópia e Irã. Um dos resultados da doutrina foi — além de colocar o Talibã no poder no Afeganistão — produzir o escândalo Irã-Contras, onde a CIA usou dinheiro de traficantes de cocaína da Nicarágua para mediar a compra de armas do Irã, apoiando assim a insurreição anti-socialista no país centro-americano.

Fukuyama acabou se tornando mundialmente conhecido após o fim da União Soviética ao publicar em 1989, logo após a queda do Muro de Berlim, o ensaio O Fim da História, que pregava que o futuro da humanidade já estava delineado, comandado por países com democracia liberais e economia de livre mercado. Em 2001, quando Osama bin Laden mostrou que na teoria a prática é outra, Fukuyama — sempre criticado pela esquerda altermundista dos anos 90/ 00 — fez campanha para que a administração Bush, além de tentar capturar Osama Bin Laden no Afeganistão, aproveitasse o momento para derrubar Saddam Hussein no Iraque.

A ironia agora é estar do outro lado do espelho, ao ter que enxergar com clareza os limites das suas teorias — e, pior ainda, ser chamado de comunista apenas por defender o que sempre defendeu, a democracia de mercado que inclusive é base do pensamento de muito liberal-conservador que votou 30 ou 17 nesta eleições. A procura por respostas simplificadíssimas e a histeria em transformar qualquer discordante em “inimigo” são alguns dos exemplos claros do desastre que seria uma presidência de Bolsonaro — afinal, como previa o The Clash em 1978, “se Adolf Hitler colasse aqui, mandariam buscá-lo de limusine”, ou, corrigindo para os padrões atuais, "se Ronald Reagan viesse ao Brasil, diriam que foi comprado pelo PT."

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