O Skepta quer erradicar a hierarquia da celebridade com música, e tirar férias

Nos bastidores de um show beneficente em Londres, a i-D teve uma rara conversa olho-no-óculos-escuros com o homem que globalizou o grime.

por Frankie Dunn; Traduzido por Marina Schnoor
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23 agosto 2017, 5:05pm

Entrevista originalmente publicada na i-D UK.

Faz um tempo desde a última vez que conversamos com Skepta. Nos últimos anos, sua estrela ascendeu numa velocidade insana; Konnichiwa levou um disco de ouro, ele fez o documentário Skepta: Greatness Only para a Apple Music com a irmã Julie Adenuga, ele recebeu o Prêmio Mercury, ganhou seu próprio interlúdio na mixtape do Drake e deu uma festa de proporções épicas no Alexandra Palace, com participação de toda a cena grime e além. Redefinir a cena musical britânica e construir seu legado toma tempo, claro, então Skepta raramente dá entrevistas, mas nos bastidores de seu concerto beneficente no Islington Assembly Hall (que levantou mais de £30 mil para a organização Shelter) tivemos muita coisa para conversar. Atrás de óculos escuros redondos com grills dourados, Skepta nos contou por que a sociedade precisa superar o culto à celebridade, o que acontece quando você realiza seus sonhos de infância, e que ele está precisando muito de umas férias.

Oi, Skepta! Este evento é incrível. Por que você escolheu fazer parceria com a Shelter?
Eu sabia que eles faziam show beneficentes, então disse para o meu empresário entrar em contato.

E quais são suas experiências pessoais com não ter onde morar?
Já estive em vários lugares, moro em Londres! Quando você pensa como a vida pode ser ruim às vezes, procure suas bençãos. Acho que não depende só de gente na minha posição fazer essas coisas, depende de todos nós. Não importa o que eu estava fazendo esta semana, este evento estava sempre na minha cabeça.

Você estava ansioso para se apresentar?
Sim, eu amo. Adoro que minha música, mesmo se estou cansado, mesmo se não estou no clima, seja lá qual emoção estou sentindo, minha música faz tudo ficar bem, mesmo que só naquela hora. As pessoas no público vieram me assistir fazendo isso, e posso estar passando pelo que for. É uma benção fazer a música que amo.

Então você vê sua música como uma fuga?
Não agora. Eu não diria que é uma fuga agora porque, sabe, está tudo bem. Tudo está ótimo. Então não é uma fuga, é como uma festa, minha própria festa. Não importa o que aconteça na minha vida, posso dar uma festa e as pessoas vão vir curtir comigo, e gosto muito, muito disso. É muito louco, todo mundo que trabalha aqui estava me dizendo como estava empolgado com o show. O show foi organizado muito rápido. Não importa que os ingressos tenham esgotado, não importa se o show não estava lotado... coisas assim explicam tudo.

Conor H e Aaron Ferrucci abriram para você hoje.
Esses caras... Fiz o Levi's Music Project com eles. Fizemos um curso de música e depois todos eles se apresentaram no V&A. Quando nos conhecemos, lembro que eles ficaram me olhando e eu disse, não, não, caras, estamos num mesmo nível. Vamos fazer esse curso, fazer música e vamos fazer um show. Ver isso acontecer foi muito louco. Foi uma viagem de 360º. Bom, contei a eles que estava fazendo este evento e eles disseram que adorariam fazer o show de abertura. Eu tinha medo que isso fosse ser algo só com rappers, mas temos pianistas, guitarristas, baixistas, teclado, rappers, cantores, DJs, produtores, todo mundo.

Muito legal. Tem algum tipo de música que você escuta que acha que poderia surpreender as pessoas?
Escuto de tudo hoje em dia. Quando era jovem, eu ouvia as músicas e as julgava. Eu pensava "OK, não me pareço com esse cara, não me visto assim ou falo assim, então não gosto dessa música". Mas cresci, sou um ponto de interrogação fudido. Sou qualquer coisa. Eu costumava me voltar muito sobre apenas algumas coisas, mas agora tudo é uma gota no oceano.

Idris vai fazer um pequeno discurso antes do seu show hoje. Você o convidou?
Não! Essa é a melhor parte, cara. Cheguei num estágio onde tudo é do jeito que eu tinha em mente: o jeito como eu queria o som, meus amigos, meu empresário, minha vida, onde moro, tudo. Antes, quando eu queria coisas, eu não me abria porque tinha medo de ofender as pessoas. Mas agora estou feliz porque as coisas são como eu vejo, porque vejo atores na mesma sala que artistas, vindo cumprimentar, sabe? Claro, cara! O que era aquela merda antes? O que era toda aquela segregação? O que era toda aquela falsidade? Minha música nova, "No Security", é sobre isso. Quero erradicar toda aquela merda, odeio. As pessoas nem me param mais na rua para tirar fotos. Sabe, é 2017. É muito louco o Idris estar aqui. Espero que a coisa vá mais longe e a gente se torne uma grande...

...família feliz?
Bom, nunca vai ser uma grande família feliz porque sempre vai haver inveja, que é uma característica humana muito ruim. Mas o que vai acontecer é um nível, certo? Vai haver um nível em que as pessoas que querem ter sucesso não verão o sucesso como algo que está longe delas. Eu sempre achei que tinha que ir a Radio 1 para ter uma playlist, para conhecer certas pessoas — achei que o sucesso estava lá, mas, na verdade, está dentro de mim. E só esteve dentro de mim quando certas pessoas famosas não agiam como famosas quando eu estava com elas. Então quanto mais pessoas estiverem nesse nível, todo mundo estará aberto a ter sucesso de dentro, e ter muito mais confiança para fazer coisas como se levantar e cantar, rimar ou dançar break, qualquer coisa. Há muito talento por aí mas isso está trancado fora da celebridade. É muito irritante para mim, porque estou aqui e entendo quem sou.

Como assim?
Eu entendo. Tive conversas com amigos, com quem sempre andei, e mesmo como eles falam sobre mim. Eu digo a eles: "Você pode fazer isso, você pode fazer aquilo", e eles dizem "você pode dizer isso, você é o Skepta". E eu digo "Uau... cresci com você. É assim que você me vê agora? Você sabe exatamente o que faço". Tem sempre essa coisa idiota de hierarquia de celebridade, mas tento sempre erradicar isso com música. Estou sempre tentando fazer todo mundo dizer o que sente.

Então, as coisas estão avançando rápido para você agora?
A vida está passando rápido. Rápido demais. Eu dei uma pausa agora pouco. Eu tive tempo de me levantar, sabe? Tive a chance de olhar o que fiz. Realmente olhar. Olhar para isso sem estar lá.

E você está feliz com o que conseguiu?
Muito, muito feliz; mas é estranho chegar a um ponto onde tudo que você disse que queria quando era criança, você fez. Não são coisas materiais, eram coisas que eu queria fazer pela minha cidade como músico. Adoro ver como as coisas são agora; artistas compartilhando palcos e colaborando, sabe? É lindo.

E agora que você conquistou tudo isso, o que você quer fazer?
Vou tentar tirar férias. Mesmo não tendo feito muita coisa ultimamente, tenho trabalhado sem parar. Vou para a cama, deito a cabeça no travesseiro e percebo "Ah, você não comeu nada hoje, cara. Você não colocou um croissant na boca". Levanto no outro dia e faço isso, faço aquilo, saio, vou para o estúdio, vou para não sei onde, vou para casa. E chego em casa e não comi nada, e provavelmente bebi alguma coisa. Preciso de férias mesmo, não férias onde continuo aqui. Preciso sair um pouco da sociedade. Ainda quero tudo isso, mas preciso de férias.

Talvez pedir pro Jamie te preparar uns pratos veganos...
Estou sofrendo com isso. Parei de comer carne, mas é difícil, essa coisa vegan, você não consegue fazer se não se dedicar. O Jamie pede várias coisas que entregam na casa dele, sabe? Eu como um sanduíche de queijo por dia, acho. Mas é legal. Tenho muitos amigos que cortaram a carne também, mas todo mundo já voltou. Eles voltaram para a carne como para uma série da Netflix.

O que você assiste na Netflix?
Faz tempo que não assisto nada, sabe. Mas tenho visto muita coisa no YouTube. Tenho assistido várias merdas.

O que você pode nos dizer sobre Drake e "Top Boy" ?
Na verdade, não sei nada do que está acontecendo! Descobri essa história pelo Twitter.

Por último, qual foi o último sonho que você lembra de ter tido?
Eu estava num prédio e devia fazer um show, mas tínhamos que esperar porque o exército tinha vindo para revistar todo mundo ou algo assim, então eu tinha que esperar para me apresentar. Lembro de olhar pela janela e ver um monte de tanques circulando.

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