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A vacina para herpes está próxima

Há tantas DSTs no mundo que os cientistas estão tendo que correr.
17 Agosto 2017, 5:55pm

São tempos confusos para os sexualmente ativos.

De um lado, temos testes de DST mais avançados do que nunca. Por outro lado, as taxas de infecções são as mais altas já registradas e continuam aumentando. Sabia que há uma "explosão absoluta" de sífilis congênita? Pois é, nada bom. E a gonorreia vinda de sua garganta resistente a medicamentos? Cacete, que medo.

"É certo que as DSTs não vão sumir", afirma Jonathan Zenilman, diretor do programa do Johns Hopkins Center para a Pesquisa em Pesquisa, Prevenção e Treinamento em DST. "Elas talvez sejam o maior problema no que diz respeito a doenças infecciosas para as pessoas em idade reprodutiva em termos de números, impacto e morbidade."

Contudo, por pior que seja essa situação, ainda há esperança. Zenilman, que acabou de participar do congresso mundial de ISTs e HIV, da Organização Mundial da Saúde (OMS), tem muito a comentar a respeito do trabalho que ele, seus parceiros e pesquisadores estão realizando no momento.

Zenilman conta que há muito interesse em géis vaginais que alteram o pH – não um microbicida (que mata patógenos ou age como barreira entre patógenos e células de proteção contra as DSTs), mas uma substância que altera o próprio pH da vagina, tornando-o mais ácido e, assim, criando um ambiente capaz de ajudar a prevenir as infecções. Ele explica que, em mulheres com vaginoses, as quais também são bastante resistentes a antibióticos – que divertido! –, o pH sobe, o que é visto como fator de risco para a aquisição de outras DSTs e do HIV. Esses géis poderiam diminuir o aumento do pH.

"Também existem muitos trabalhos interessantes sobre as vacinas", ele afirma. Seu melhor conselho a todos – seja homem ou mulher, gay ou hétero, sexualmente ativo ou ainda não – é fazer a vacina contra o HPV, pois sua versão mais atual, o Gardasil-9 é a mais eficaz de todas. Uma pesquisa nova sugere que ela pode prevenir praticamente todos os tipos de câncer cervical. Atualmente, empresa farmacêutica Genocea está na terceira fase de testes clínicos para a vacina da herpes, que, se aprovada, será o primeiro fármaco do tipo, que poderá também refrear a herpes ativa.

Ele explica que, após um surto de meningite na Nova Zelândia nos anos 2000, muitas pessoas tomaram uma vacina meningocócica muito específica. No mês passado, um estudo entre aqueles que a tomaram em comparação com os que não a tomaram, encontrou 30% menos de taxas de gonorreia, diferentemente do que no grupo que tomou a vacina. Como se sabe, a bactéria que causa a meningite meningocócica, a Neisseria meningitidis, está estreitamente relacionada com a Neisseria gonorrhoeae, que é – como você pôde adivinhar – a bactéria responsável pela gonorreia.

Não se trata de uma correlação certeira, mas é motivo para esperança – uma sugestão de que talvez haja uma vacina. Zenilman afirma que há um muito interesse no estudo pelas empresas farmacêuticas e que provavelmente será um grande avanço no foco.

Em todos os outros lugares, com relação às notícias de que talvez seja possível deter a gonorreia, um estudo da UCLA indica que algumas pessoas que contraíram DSTs poderiam ser tratadas com o antibiótico Cipro – ao menos em algumas populações.

Utilizar o Cipro para tratar a gonorreia não é encorajado desde 2007, quando o CDC parou de recomendá-lo por causa do aumento de sua resistência. Contudo, o coautor do estudo Jeffrey Klausner, professor de Medicina e Saúde Pública da UCLA – Faculdade de Medicina David Geffen, explica que 80% dos casos poderiam ser tratados com o fármaco – se pudermos identificar de antemão os pacientes para quem seria possível aplicá-lo. É aí que entram os testes de DNA. "Estamos empenhados em um teste clínico com o NIH para mostrar que o teste preverá a cura em 100% das vezes", Klausner explicou. Ele afirma que a universidade já está em 10% desses testes.

No momento, Klausner está em El Salvador, ajudando a construir uma infraestrutura para que o país combata as DSTs. E ele afirma que existe um desenvolvimento bastante promissor lá, pois o país dispõe de 14 clínicas especializada em tratamento para "populações-chave", incluindo homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo. É algo que gostaríamos de ver mais nos EUA, onde existem somente uns poucos centros especializados em áreas metropolitanas como LA, Chicago e Nova York. As únicas clínicas específicas para profissionais do sexo estão em São Francisco, me conta Klausner. "Nós sentimos que os países com clínicas especializadas avançarão muito mais rápido para o controle das ISTs e, em particular, aquelas resistentes aos medicamentos", ele explicou.

Quando se luta contra linhagens de STIs resistentes a medicamentos, a melhor forma de tratá-las é prevenir sua propagação em primeiro lugar, e Zenilman ressalta a importância da testagem apropriada, por profissionais que sabem o que fazem. Clínicas que atendem uma população específica são uma ótima maneira de garantir cuidados de alta qualidade.

Como as vacinas e os testes de DNA são muito promissoras, elas ainda estão em testes preliminares e longe de se tornarem um padrão. Zenilman explica que uma barreira é a incerteza da duração dos efeitos dessas vacinas pelos pesquisadores. (Ele compara a vacinação contra o sarampo quando crianças; sabemos que a vacina continua funcionando, mas não dispomos desses dados para as vacinas contra as DSTs, e dados de que não vamos dispor por um bom tempo.)

Além disso, ele acrescenta – especialmente nos EUA – aprovar essas vacinas será uma batalha bastante acirrada. Ainda existem noções equivocadas de que seu acesso incentivará as pessoas a fazer sexo mais cedo ou a ter atitudes arriscadas. "Enquanto isso, na realidade, a pesquisa é bastante clara: no que diz respeito à decisão de um adolescente fazer sexo ou não, estar ou não vacinado não está na lista de impeditivos", ele afirma.

Algo que sabemos com certeza, afirma Zenilman, é que o maior acesso à assistência médica pode diminuir a propagação das DSTs. Se as pessoas não tiverem acesso à saúde, elas menos chances de serem testadas. E se 20 milhões ou mais de pessoas forem, digamos, perder a cobertura por causa de reformas nas saúde norte-americana, isso terá consequências significativas no que diz respeito às DSTs.

"Acho que as coisas parecem boas. Trabalho nisso há muito tempo e vejo que as coisas estão muito mais promissoras do que há muito tempo", afirma Zeniman. "O ideal é que não fosse necessário trabalhar nisso."

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