análise

Trump ignora supremacistas brancos muito antes de Charlottesville

Estaria o presidente dos EUA de boa com o racismo?
15 Agosto 2017, 4:34pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Semana passada, Sebastian Gorka, um assessor de segurança nacional da Casa Branca, apareceu na televisão e descartou a ideia de que atos de terrorismo podem ser cometidos por "lobos solitários".

"Nunca houve um ataque sério ou uma trama séria que não estivessem ligados ao ISIS ou a Al-Qaeda", disse Gorka, sob o argumento de que mesmo quando terroristas não são diretamente afiliados a grupos terroristas islâmicos, eles se ligam através de ideologia ou táticas que se espalham na internet. "O que temos que fazer agora não é apenas destruir organizações como o ISIS — o que estamos fazendo, eles serão aniquilados — mas também deslegitimar a ideologia [desses grupos]", disse ele. "Para que isso se torne tão hediondo e rejeitado como o fascismo e o nazismo hoje."

Gorka, que já foi ligado a grupos de extrema-direita em seu país natal, a Hungria, frequentemente é criticado por especialistas em segurança nacional por sua falta de credenciais confiáveis. Mas seu trabalho mais importante até agora parece ser defender Donald Trump na TV, e divulgar a linha de abordagem de terrorismo da Casa Branca. Que linha? Terrorismo é algo perpetrado por muçulmanos e, às vezes, pela esquerda radical. Mesmo com supremacistas brancos fazendo mais barulho e se tornando mais violentos — como a morte na manifestação Unite the Right em Charlottesville mostrou — a administração Trump parece comprometida a ignorá-los, tanto em palavras como ações.

Essa é a única interpretação possível dos sinais mandados pelo presidente e alguns de seus subordinados. Ano passado, como candidato e agora como presidente, Trump soou o alarme sobre qualquer ato público de violência cometido por muçulmanos, enquanto ignorava ou era lento em reagir a notícias sobre violência contra muçulmanos. De maneira muito embaraçosa, em junho, Trump chamou um tiroteio em Manila de "ato de terror", o que a polícia local contradisse. Na última terça-feira, na mesma entrevista para a MSNBC, Gorka disse que a Casa Branca não tinha comentado o atentado a uma mesquita em Minnesota por preocupações com "crimes de ódio falsos".

Então parece que cautela é exigida sempre que o terrorismo pode estar ligado à islamofobia da direita radical, mas não se parece que um muçulmano é responsável pelo ataque.

A resposta de Trump ao que aconteceu Charlottesville, quando ele condenou como uma "exibição flagrante de ódio, intolerância e violência de muitos lados", se encaixa muito bem nesse padrão. Apesar de a Casa Branca ter esclarecido sua denúncia com "é claro que isso inclui supremacistas brancos, a KKK, neonazistas e todo grupo extremista", a lentidão da resposta — e o fato de ela não ter vindo diretamente de Trump — fez o presidente parecer bastante de boa com racismo. (Alguns supremacistas brancos se sentiram encorajados pela falta de condenação de Trump.)

A reticência do presidente em denunciar rápida e claramente o nacionalismo branco levou a comparações com a longa recusa de Barack Obama em dizer as palavras "terrorismo islâmico radical". Apesar de ter sido criticado por conservadores (incluindo Trump), a posição de Obama tinha uma lógica pelo menos — ele acreditava que sublinhar o Islã, mesmo o Islã "radical", poderia elevar a intolerância contra muçulmanos e piorar as tensões.

Apesar de muitos na direita estarem dispostos a tolerar mensagens nazistas veladas, o limite é sempre a supremacia branca descarada.

Não há uma consequência negativa plausível em apontar os neonazis como culpados em Charlottesville. Apesar de muitos na direita estarem dispostos a tolerar mensagens nazistas veladas (poucos republicanos foram contra as alegações sobre o nascimento de Obama feitas por Trump, por exemplo), o limite é sempre a supremacia branca descarada. Ted Cruz, o conservador mais extravagante do GOP, chamou o ataque com carro que matou uma manifestante em Charlottesville de um "ato grotesco de terrorismo doméstico". O senador de Utah Orrin Hatch foi igualmente direto em atacar o nazismo. Então por que Trump não se juntou à retórica?

Uma explicação é que Trump é simplesmente ruim nesse negócio de soar como um presidente. Mas também pode ser porque a declaração inicial de Trump serviu a um propósito político deliberado. Se "muitos lados" são responsáveis pelo ódio e a violência, a solução é patriotismo, união, lei e ordem. Se o problema é que agora os racistas se sentem encorajados — bom, isso não é um problema que a Casa Branca parece disposta a abordar.

De 2008 a 2016, aconteceram 63 casos de terrorismo islâmico, 115 casos de terrorismo ligado a retórica da direita, e apenas 19 casos de terrorismo ligado à esquerda, segundo uma análise do Reveal e Investigative Fund. Ainda assim, em fevereiro, a administração Trump considerou mudar o foco do programa Contra Extremismo Violento do Departamento de Segurança Interna para se concentrar apenas em extremismo muçulmano e islâmico, não em ações da extrema-direita.

Medo de terrorismo islâmico também foi a razão dada para a "proibição de viagens" de Trump, que barra cidadãos de países de maioria muçulmana de entrar nos EUA. Em fevereiro, Trump disse ao Congresso que "segundo dados fornecidos pelo Departamento de Justiça, a maioria dos indivíduos condenados por terrorismo e acusações ligada a terrorismo depois do 11 de Setembro eram de fora do nosso país" — uma declaração que vai tão contra as estatísticas disponíveis sobre terrorismo que o jornalista de segurança nacional Benjamin Witter acredita que Trump mentiu descaradamente, e está processando o Departamento de Justiça para saber se esses "dados" existem mesmo.

Desde a eleição de Trump, supremacistas brancos e outros ligados à extrema-direita celebraram publicamente sua vitória e marcharam pelas ruas dos EUA.

A administração claramente acredita que extremismo islâmico é uma preocupação séria — tão séria que vem tomando medidas agressivas e possivelmente inconstitucionais para neutralizá-lo. Suplentes como Gorka vão à TV para atacar o "Islã radical". No Conselho de Segurança Nacional, um membro da equipe escreveu um memorando desvairado ligando a Irmandade Muçulmana ao "marxismo cultural" — e apesar de o autor do memorando ter sido demitido pelo consultor de segurança nacional H.R. McMaster, Trump teria ficado "furioso" com a demissão. Isso mostra quão profundas são as raízes da islamofobia na Casa Branca.

Desde a eleição de Trump, supremacistas brancos e outros ligados à extrema-direita celebraram publicamente sua vitória e marcharam pelas ruas de Berkeley a Charlottesville. Crimes de ódio decolaram nos dias após a eleição; alguns desses atos até foram cometidos em nome de Trump. O Departamento de Justiça está investigando o ataque com carro em Charlottesville, mas parece que há pouco esforço para conter essa grande onda de Ódio Branco — certamente nada na escala da campanha paranoica contra o Islã radical.

Charlottesville mostrou quão feias as margens das políticas de direita podem ser, e que alguns desses acólitos estão bastante dispostos a cometer violência. Mas a resposta de Trump (ou sua não-resposta) não é novidade. (Na manhã de domingo, Trump estava de volta tuitando sobre suas implicâncias casuais com acordos de comércio.) Se essa onda crescente de supremacia branca for contida e outro Charlottesville for evitado, não será graças à Casa Branca, nem ao homem no comando dos EUA.

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