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Como funciona o mercado brasileiro de ferramentas espiãs para celular

Com muita publicidade, vendedores comercializam produtos que passam conversas, dados e ligações de qualquer um em tempo real.

por Brunno Marchetti
20 Março 2017, 7:33pm

A esta altura do campeonato, você deve saber que sua privacidade é uma ilusão. O recente vazamento de informações sobre as ferramentas utilizadas pela CIAconfirmaram que, mesmo em dispositivos e sistemas considerados seguros, as comunicações e dados estão ao dispor de quem tem os programas potentes o bastante para para burlar a segurança.

Apesar da novidade do vazamento deste mês, desde que em 2013 Edward Snowdentornou públicas as informações do monitoramento feito pela NSA, é difícil não imaginar que governos e forças de segurança tenham formas de saber por onde você anda na internet. O engano é pensar que este tipo de monitoramento está apenas ao alcance das agências de inteligência de alto nível. O espião pode morar ao lado.

Conforme mostramos aqui, o acesso às ferramentas monitoras para celulares é fácil. Para usar este tipo de programa não é necessário ser especialista em redes ou ter conhecimento avançado em hacking. Com exceção ao momento da instalação do spyware, feita com celular em mãos, o monitoramento ocorre por meio de painéis de controle simples de ser operados.

Embora a maior fama do mercado fique com os malwares internacionais como mSpye HelloSpy, o Brasil também possui cenário próprio de desenvolvimento e venda destes programas. O gosto estético duvidoso dos sites e a falta de originalidade dos nomes — que quase sempre incluem a palavra "espião" ou "detetive" — pode não inspirar confiança a uma primeira olhada, mas entregam exatamente o que vendem: vigilância e controle de celulares alheios.

Os primeiros resultados de uma busca no Google por "espião de celular" trazem nomes de Bruno Espião e Celular Espião Divi. Ambas com sede em Minas Gerais, as empresas compartilham o mesmo programa de monitoramento, o Anjo Guardião. A licença de um ano do spyware, que permite espionar um aparelho, sai por R$ 469. O programa Brasil Detetive, que vende licenças de até 90 dias por R$ 800, também foi testado para o texto.

As funções variam de acordo com o serviço. Em todos, porém, as informações mais básicas já ficam ao dispor logo na primeira olhada no painel de controle. De partida são reveladas uma série de coisas sobre celular espionado: localização de GPS, memória utilizada no aparelho, aplicativos instalados, nome dos arquivos que estão salvos no celular, números discados, site acessados. Pouca coisa fica para a imaginação de quem está invadindo a sua privacidade.

Ao navegar um pouco mais pelos menus, dá para encontrar os arquivos de áudio com a gravação das conversas telefônicas e as fotos guardadas no aparelho. Caso a pessoa que monitora queira saber o que acontece em tempo real, ela pode enviar comandos via SMS para o aparelho que ativam o microfone ou as câmeras a qualquer momento. Nem mesmo aplicativos considerados um pouco mais seguros pelo uso de criptografia de ponta-a-ponta, como Whatsapp, estão a salvo dos olhos curiosos.

A satisfação com o spyware é atestada em diversos vídeos no YouTube. Neles, clientes aparentemente felizes repetem várias vezes o nome da empresa em troca de dias gratuitos de espionagem. Alguns mais despreocupados contam como usam este tipo de aplicativo em grampos ilegais. "Óbvio, aproveitei e coloquei o aplicativo no celular da minha esposa, fica a dica", afirmou um dos usuários do Celular Espião Divi. Outra usuária também fala em vídeo que usou o programa Bruno Espião e o recomenda. "Eu queria um aplicativo para espionar o meu namorado", conta.

Caso queira saber o que acontece em tempo real, o espião pode enviar comandos via SMS para ativar microfone e câmeras do alvo a qualquer momento.

O especialista e professor de Direito Digital do Mackenzie, Renato Leite Monteiro, explicou que a mera comercialização deste tipo de produto não é crime na lei brasileira. Usá-lo sem autorização, porém, é ilegal, sim. "A criação da tecnologia em si não é ilegal, da mesma forma que uma fábrica de armas não é ilegal. O problema está na forma como é aplicada."

Segundo explicou, a lei de interceptação telefônica e telemática prevê que este monitoramento só pode acontecer no curso de um processo ou investigação criminal e para alguns tipos de crimes. Isso tudo com a autorização judicial prévia, o que, claro, não inclui namorados ciumentos ou empregadores desconfiados. A pena para quem comete este tipo de crime pode chegar a até quatro anos de prisão.

Com exceção dos casos autorizados pela Justiça, o único monitoramento permitido sem conhecimento prévio é entre pais e filhos. "É o que a gente chama de poder pátrio: os pais podem monitorar o que os seus filhos estão fazendo sem problema algum", diz Leite Monteiro. O fato de alguns sites oferecer este serviço incentivando o monitoramento ilegal de forma tão explícita, afirma o advogado, pode configurar algum tipo de ilícito.

Os criadores dos serviços, porém, parecem estar cientes de possíveis problemas com a Justiça. Embora a publicidade oferte a possibilidade de "viajar tranquilo", os termos de serviços do programa deixam claro que não pode ser usado sem autorização prévia do espionado e que a empresa se reserva ao direito de encerrar a relação comercial caso o software seja utilizado ilegalmente.

Natural do Rio Grande do Norte, Maciel está neste mercado há três anos. Conforme contou ao Motherboard, o interesse pela tecnologia nasceu após ter um aparelho celular roubado. "Comprei um sistema simples de rastreamento e fiz um vídeo falado a respeito. Muitas pessoas entraram em contato para comprar um aplicativo igual. Foi aí que vi que existia mercado para este tipo de produto", comentou.

Assim como o Brasil Detetive, a maioria dos programas de monitoramento vendidos no Brasil estão disponíveis apenas para dispositivos Android, o mais utilizado no país. Segundo o último levantamento da consultoria Kantar Worldpanel, cerca de 93% dos celulares vendidos no país possuem o sistema operacional da Google. Para Maciel, o fato se deve mais às barreiras técnicas. "Os outros sistema são mais fechados, a programação para iOS necessita que o jailbreak tenha sido feito, pois sem isso o aplicativo funcionaria com quase nenhuma função", completou.

Para Márcio Moretto, professor de Sistemas de Informação da EACH-USP, este fato não significa que o sistema operacional da Apple seja mais seguro. Para ele, isso indica que esta vigilância externa provavelmente não é levada em consideração no modelo de ameaças do Android, já que "não é esperado que uma pessoa com acesso físico ao aparelho e que conheça suas senhas queira instalar algo que a prejudique".

Na instalação também são utilizadas configurações para evitar que sejam removidos dos aparelhos, conforme explicou Moretto. "Com permissão de super-usuário é possível instalar uma aplicativo de forma que ele não seja desinstalado caso sejam recuperadas as configurações de fábrica do aparelho."

E como sabe se está sendo espionado ou não? Ainda que os arquivos dos programas de vigilância fiquem ocultos nos menus do aparelho, é possível identificá-los com uma olhada pouco mais cuidadosa. Para evitar a descoberta de um programa estranho rodando no aparelho, estes spywares são instalados com nomes como "Sistema" ou "System core". Segundo Moretto, outra forma de saber se o monitoramento está acontecendo é verificar as conexões do celular usando algum monitor de tráfego, como o OS Monitor. "Esse tipo de aplicação deve enviar muita informação pela internet e isso será relativamente simples de verificar com esse tipo de monitoramento", conta.

O pesquisador observa que este tipo de programa é bastante problemático, em especial devido à publicidade feita por parte dos vendedores. "O público-alvo são pessoas que pretendem monitorar pessoas próximas, as propagandas falam em filhas e esposas. Consigo imaginar muitas situações, e quase todas elas de cunho doméstico, de abuso de poder que levem a vigilância por parte de pessoas que confiamos nossas senhas", completou.

Para ele a forma mais eficiente de se proteger deste tipo de invasão de privacidade é ter o aparelho protegido por senha e, principalmente, não compartilhá-la com ninguém, nem mesmo as pessoas mais próximas.

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