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Obra da série Criança Viada, de Bia Leite. Crédito: divulgação

"O MBL se acha no direito de dizer o que vamos ler, ouvir e assistir", diz curador da Queermuseu

Débora Lopes

Débora Lopes

Para Gaudêncio Fidelis, a interferência dos conservadores de direita na arte pode se tornar rotina.

Obra da série Criança Viada, de Bia Leite. Crédito: divulgação

Não durou nem um mês a exposição "Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira" no Santander Cultural, em Porto Alegre, que acabou sendo cancelada no último domingo (10). Em entrevista à VICE, o curador Gaudêncio Fidelis atrela a decisão da instituição ao Movimento Brasil Livre (MBL), que fez pressão nas redes sociais, afirmando que as obras promoviam temas como pedofilia, zoofilia e ofendiam os cristãos. "Essa situação é muito grave porque agora, então, o MBL se acha no direito de dizer o que vamos ler, o que vamos ouvir, que espetáculo vamos assistir", falou, por telefone, o curador, que soube do cancelamento pela internet e afirma ter sido comunicado pelo Santander posteriormente. "Confesso que tive uns cinco minutos de absoluto choque", mencionou. Com a repercussão do caso, Fidelis afirma ter recebido ameaças de morte.

"O MBL e, depois, todas as facções de extrema-direita e radicais conservadores que assumiram essa cruzada contra a exposição, agora ingressam no universo da arte de uma maneira muito precisa e concentrada. Pode virar uma rotina na nossa vida daqui pra frente", disse.

Cena de Interior II, de Adriana Varejão. Crédito: divulgação

Entre as 273 obras expostas de mais de 80 artistas, a série Criança Viada, de Bia Leite, foi uma das que mais incomodou o MBL e seu líder, Kim Kataguiri, que, agora, encabeça uma petição para que o Santander se desculpe e doe R$ 800 mil a instituições de caridade que cuidam de crianças vítimas de abuso sexual. "A obra dela é sobre bullying e sobre preconceito na infância. Ela não tem absolutamente nada a ver com pedofilia. A associação que eles [MBL] fizeram foi de imagens, porque é uma pintura que tem crianças", justifica Fidelis. Em 2016, Criança Viada já havia sido exposta na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Em nota, o Santander Cultural afirmou ter entendido que "algumas das obras da exposição 'Queermuseu' desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo".

Até mesmo Adriana Varejão, conceituada artista visual que já participou da Bienal de Veneza, expôs no MoMa e na Tate Modern, recebeu acusações de zoofilia com o quadro Cena de interior II. "É uma obra sobre a tragédia que foi criada no processo de colonização do Brasil", pontua o curador.

Parte da exposição Queermuseu. Foto: Santander Cultural/ divulgação/ Facebook

Queermuseu trazia fotografias, pinturas, colagens, esculturas e vídeos de nomes como Ligia Clark, Alair Gomes, Portinari, Alfredo Volpi e Leonilson. Entre elas, discutia-se identidade de gênero, preconceito e temáticas referentes ao universo LGBTQ.

"Eu defendo que héteros, gays, bissexuais sejam tratados da mesma maneira, com respeito pela sociedade e igualdade perante a lei. Isso não tem nada a ver com mostrar pedofilia, zoofilia e insultar cristãos", afirmou o líder do MBL e ex-colunista da Folha de São Paulo Kim Kataguiri, em vídeo. "Ele é um mentiroso. Ele não respeita", rebate Fidelis. "Eles [MBL] são agressivos, tiveram uma postura extremamente agressiva nesses dois dias e meio, gritando com as pessoas, dizendo coisas horríveis pras pessoas, fazendo filmagens de adolescentes, crianças, adultos, profissionais. Atacaram a mim como curador, a equipe do Santander, o pessoal do educativo."

Para o curador, até mesmo as obras foram colocadas em risco. "Eles não respeitam nada. Eles não tem nenhum respeito. Inclusive, o nível de agressão que eles estão perpetuando nas redes sociais, com ameaças de morte às pessoas que apoiam a exposição e a mim, não é respeito", finalizou.

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