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Conheça o fotógrafo que fez as capas mais icônicas do rap

Falamos com Jonathan Mannion, o fotógrafo que imortalizou os rappes mais míticos da história da música através de páginas de revistas e capas de álbuns.

por Maxime Delcourt; Traduzido por Marina Schnoor
28 Junho 2018, 10:00am

Todas as fotos: Jonathan Mannion.

Para entender a marca que Jonathan Mannion deixou na história do hip hop, é só ver os rappers que ele retratou em mais de 20 anos de trabalho: Notorious B.I.G., Jay-Z, DMX, Outkast, Kanye West, Eminem, Mos Def, Drake e Rick Ross. Em outras palavras, com um currículo desses, o fotógrafo que mora em Nova York não está preocupado com competição. Com os anos, ele se tornou uma das maiores testemunhas da cena rap, juntando memórias, anedotas e histórias engraçadas. Mannion compartilhou alguns desses momentos e lembranças com a gente.

NOISEY: Você lembra o momento em que ficou claro que você podia ganhar a vida com a sua fotografia?
Jonathan Mannion: Primeiro, você tem que saber que venho de uma família com origens artísticas. Meus pais são pintores, e eu estudei arte no Kenyon College nos EUA. Foi só no último ano lá que comecei a me interessar seriamente por fotografia. Vi um projeto sobre o jogador de basquete Ch'e Smith, e a técnica realmente me interessou. O mais engraçado é que naquele mesmo ano, a faculdade deu a chance de fazer alguns cursos com Richard Avedon. Fiz os cursos e aprendi muito na época. Entendi que a coisa mais importante era a interação [entre o fotógrafo e] o tema. Também tive sorte: um mês e meio depois, consegui um trabalho no estúdio do Richard.

Foi ao lado dele que você pode trabalhar com rappers pela primeira vez?
Na verdade não. Eu era só um dos quatro assistentes dele na época. Quem me permitiu trabalhar com MCs foram Steven Klein e Ben Watts. Eles me fizeram perceber que eu deveria me concentrar no hip hop e documentar a cena.

Era fácil passar tempo com rappers quando você estava começando?
Sim. Sabe, eu passava muito tempo trabalhando, às vezes das 7 da manhã às 9 da noite. Quando terminávamos, eu os acompanhava até os clubes, onde conheci artistas como Notorious B.I.G. Era uma sonho para mim: eu queria muito ser parte desse movimentos musical, contribuir para seu desenvolvimento e documentar a história de todos esses artistas.

Jonathan Mannion.

Você se sentiu atraído para o retrato logo de cara?
Eu estava apaixonado pela interação humana envolvida nos retratos. Você precisa conversar muito com o tema; ter trocas, diálogos, etc. Sem esses passos, você só vai conseguir uma fotografia sem nenhum significado. Pelo menos é nisso que acredito, e é por isso que estou constantemente aprofundado em observações e discussões.

O que você gosta particularmente de capturar? Um clima? Um jeito de ser?
Basicamente, procuro por um momento onde o rapper está totalmente seguro de si; onde ele fecha os olhos e abre seu coração. Para mim, é nesse exato momento que posso tirar a foto mais bonita possível. Quero ver até onde consigo levar alguém, quão longe a pessoa está disposta a ir, seja em alegria ou introspecção. Disso, o objetivo muda constantemente — tudo depende do rapper sendo fotografado, o que ele está disposto [ou não] a me dar, e o diálogo que vamos estabelecer. Não sou conhecido por tirar fotos muito encenadas ou estranhas. Estou ali para capturar o momento.

Com os anos, você também fez muitas sessões de fotos para revistas. Você prefere isso a fotografar capas de discos?
Para mim, a coisa mais importante é criar fotos que marquem a carreira do artista e se encaixem em sua história. O formato, no final, não importa, apesar de você poder pensar que capas de discos têm mais chances de ser icônicas do que fotos de revistas. Pense em John Coltrane, ou na capa do disco Kaya de Bob Marley. Essas fotos são tão míticas quanto os próprios artistas. E é um presente para mim, para os artistas e para o público poder criar esses momentos com os artistas.

Na sua carreira, você teve a chance de fotografar Aaliyah. O que você pode contar sobre ela?
Só tive uma oportunidade de trabalhar com ela, mas foi algo muito diferente do que eu já tinha experimentado. Trabalhei com Jay-Z, DMX, Nelly e Ja Rule, e minha abordagem era inevitavelmente mais crua. Aí, tive a chance de fazer algo com que sempre sonhei: retratar uma mulher sublime. E fiquei feliz em fazer isso pela primeira vez com alguém tão simpática e gentil como a Aaliyah. Ela era muito atenciosa, todo mundo da entourage dela era muito atenciosa com ela, nunca encontrei isso de novo com outro artista. Fiquei muito triste quando ela morreu um pouco depois da nossa sessão. Ninguém esperava que aquela fosse a última sessão de fotos dela na época...

Li que sua capa favorita é a de Reasonable Doubt do Jay-Z. Por quê?
Porque foi o momento mais incrível da minha carreira. Nunca vou esquecer. Na verdade, era 1996, eu tinha 24 anos, e aquela capa marcou o começo da minha carreira profissional. Eu já tinha fotografado caras conhecidos antes, como D'Angelo, Puff Daddy e Biggie, mas foi nessa que realmente tive a chance de criar algo diferente. O disco dele falava sobre o Brooklyn, sobre Nova York e estilo, e eu queria traduzir isso visualmente num único retrato. Foi basicamente minha primeira capa de disco. Acabei fotografando outras sete para o Jay-Z, mas aquela definiu meu estilo, minha identidade.

Ele não achou ruim quando você fotografou Nas alguns anos depois? Pensando na rusga deles que continuou por algum tempo, é um tanto surpreendente...
Não acho que havia tanto ódio entre eles; era só competição. Como acontece sempre no hip hop: Esse gênero musical sempre juntou artistas que querem mostrar o quanto são bons. Aqui foi a mesma coisa. Quando trabalhei na arte de capa de God's Son, não tive a impressão que era parte do clã Nas e tinha traído Jay-Z. Em qualquer caso, esses caras sabem a diferença entre as duas coisas, especialmente porque eu já tinha trabalhado com Nas antes da capa de God's Son. Para essa capa, ele também deixou de lado o aspecto “bling” do hip hop. Então pude me concentrar inteiramente nele e entender quem ele era.

A capa de Flesh of My Flesh, Blood of My Blood é igualmente louca. Como você teve a ideia de cobrir o DMX com sangue?
Por um tempo achei — e espero estar certo — que DMX era o rapper mais honesto e real. Ele certamente é imprevisível e implacável, mas ninguém pode tirar sua autenticidade. Eu queria construir sobre essa imagem, apesar de não ter nenhuma informação sobre o álbum além do título. Tiramos algumas fotos no primeiro dia, mas ele estava cansado. Então nos encontramos no dia seguinte e uma discussão realmente floresceu entre a gente. A parte mais engraçada é que ele deu uma entrevista um pouco depois dizendo que a capa foi ideia dele. Foi como se ele tivesse entendido que era uma coisa boa aparecer com todo aquele sangue nele.

Hoje, sendo um veterano da cena, como você se sente fotografando a nova geração de rappers?
Adoro a energia desses caras. Muitas vezes eles estão excitados com a ideia de trabalhar comigo porque represento a história do hip hop, mas já cruzei com caras que não sabem nada sobre o começo da década, e acho isso muito bom. Isso dá a eles um lado selvagem, imprevisível — algo que permite que eles chutem portas e sejam ouvidos. É quase um novo movimento, explodindo com energia. Não tem, por exemplo, quase nada em comum entre Kendrick Lamar, J. Cole, Danny Brown ou Travis Scott. E mesmo assim, todos eles são marcantes.

Por último, tem algum rapper que você gostaria de ter fotografado mas nunca teve chance?
Sem hesitação, eu diria 2Pac. Ele se foi muito cedo. Mas tive a chance de fotografar a mãe dele, Afeni Shakur, que me disse que o filho dela teria adorado minha personalidade. Você pode imaginar como esse comentário me deixou feliz.

Matéria originalmente publicada pela i-D França.

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