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Um especialista em seitas explica o que há de novo na área em 2018

Até venda de milagre pelo PayPal tem rolado.

por Julian Morgans; Traduzido por Marina Schnoor
29 Março 2018, 4:30pm

Fotos pelo autor.

Matéria originalmente publicada pela VICE Austrália.

Liz estava num shopping em sua cidade natal, Camberra, quando uma mulher com um grande sorriso perguntou se ela era modelo. Se sentindo lisonjeada, Liz parou para conversar e concordou em preencher um formulário para o que acreditou ser um inócuo grupo cristão. Três anos depois, ela estava no The Feed, programa do canal VICELAND, recontando como esse momento a levou a se juntar a uma seita.

“Não achei que estava me juntando a nada”, disse ao repórter Joel Tozer. “Eles disseram que estavam fazendo uma exposição de arte cristã. Mandaram algumas fotos por e-mail e parecia maravilhoso, incrível. Então concordei em me encontrar com eles para falar sobre a possibilidade de participar.”

Era a Missão Gospel Cristã, mais conhecida por seus nomes anteriores: Providência e Jesus Morning Star (JMS). O grupo começou em 1980, na Coreia do Sul, e acredita que seu fundador, Jung Myung-Seok, é a segunda vida de Jesus. Numa contradição gritante, Jung passou os últimos dez anos preso por estupro.

“Eles nos disseram que ele estava preso porque era perseguido e tinha sido acusado falsamente”, explicou Liz.

Oito meses depois de preencher aquele formulário, Liz se mudou para uma casa compartilhada de propriedade da JMS. Um ano depois, ela visitou Jung Myung-Seok na cadeia e ganhou um colar de pérolas que disseram que simbolizava uma vagina. “Jung é obcecado por mulheres e sexo”, contou. “Acho que ele quer que suas mulheres usem coisas que o simbolizem.”

Liz acabou hospitalizada com um transtorno alimentar. Enquanto se recuperava na casa da mãe, um especialista em seitas chamado Rick Ross foi contratado para tentar uma intervenção. Felizmente funcionou, e ela deixou o JMS em 2013. “O único jeito de descrever aquilo é estupro”, disse sobre a experiência de dois anos. “Mesmo não sendo físico – era um estupro mental, emocional e espiritual. Me senti violada.”

Agora, anos depois, Rick Ross acredita que o JMS é a seita mais perigosa da Austrália. “Jung Myung-Seok acabou de sair da prisão e ele não mudou, pelo que sei”, mencionou. “E, por alguma razão, seu grupo está fazendo esforços pesados de recrutamento na Austrália.”

Rick explicando seu trabalho no videogame Far Cry 5.

Me encontro com Ross num evento de mídia em Paris. Ele é um cara de aparência bem acadêmica, com óculos, blazer e um sotaque do Arizona. Ross vem extraindo pessoas de seitas há mais de 30 anos, e aborda o tema da doutrinação baseada em provas, enquanto ainda satisfaz minha fascinação com estranheza. E acho que é por isso que Ross já apareceu em vários documentários e agora ajudou na criação de um videogame.

Vamos pausar aqui. Voltamos para as seitas daqui a pouco, só quero contar a história de como vim a conhecer Ross.

Ele tinha acabado de fazer a consultoria para um videogame chamado Far Cry 5. Na ocasião, foi contratado pela desenvolvedora do jogo, a Ubisoft, para ajudar a equipe deles a criar uma seita fictícia. A seita que eles inventaram é uma variedade comum de cristãos fundamentalistas, alojados nas colinas de Montana e armados até os dentes. Os jogadores assumem o papel de um jovem policial local, escolhido para entrar lá de helicóptero e prender o líder do grupo, um plano que logo dá errado. E enquanto joga, você não consegue deixar de notar que o jogo dança com a história. Tem um pouco da visita desastrosa do congressista americano Leo Ryan a Jonestown em 1976. E muito do cerco do Ramo Davidiano em Waco, já em 1993.

O trabalho de Ross era guiar a equipe de desenvolvimento para criar uma seita baseadas em precedentes, fazendo com que o jogo fosse assustador. “Então os caras da Ubisoft me perguntavam coisas como: 'Uma seita já fez algo assim?' e me davam o exemplo de algo que eles estavam considerando, e eu dizia 'Sim, mas na verdade tem exemplos bem piores que esse' – e foi assim que ajudei.”

Então me encontrei com Ross no evento de mídia de Far Cry 5 em Paris, que vi como uma oportunidade de descobrir como as seitas estão recrutando e operando em 2018.

“Uma seita agora pode existir inteiramente na internet”, disparou. “Tem uma mulher chamada Sherry Daniels que comanda uma coisa chamada Escola do Milagre. Sherry vende milagres pelo PayPal e agora eles têm muito dinheiro. Em uma reclamação que recebi, alguém acabou gastando $25 mil em apenas alguns meses, só para Sherry a puxar para um mundo mágico onde a pessoa era retirada da realidade. E coisas assim são tão destrutivas quando seitas mais tradicionais.”

Sendo assim, Ross afirma que seitas em 2018 são mais difíceis de reconhecer. Por outro lado, a internet empodera os seguidores com muito mais informação. “Estou recebendo mais e-mails de pessoas dizendo 'Ei, eu estava num grupo e estava participando das reuniões deles, então joguei o nome deles no Google é claro que eles estavam na sua base de dados. E eu decidi 'ah, foda-se esses caras'.”

Mas o fator constante, diz Ross, independente do grupo ser novo ou velho, é que eles são construídos e gravitam ao redor um indivíduo. Esse é o caso do JMS na Coreia, e era o caso do Ramo Davidiano no Texas, e de Jonestown na Guiana. Essas organizações são criadas em torno da ideia de que seu líder tem uma ligação direta com Deus, e portanto, tudo que ele diz é sagrado. “Mas o que é interessante é que alguns desses gurus são fraudes e sabem disso”, pontua Ross. “Mas em muitos casos, os líderes desses grupos acreditam mesmo que têm alguma coisa de deus.”

Ross diz que trabalhou duro com a equipe da Ubisoft, criando um líder de seita e antagonista crível para Far Cry 5. O resultado foi um personagem chamado Joseph Seed, que – entre acreditar em suas próprias fantasias e querer fazer do mundo um lugar melhor – atinge um tipo de mal muito familiar e humano. “Assisti alguns trechos dos clipes promocionais do personagem e é incrível como eles acertaram esse tipo de psicologia”.

Pergunto a Ross o que ele aprendeu sobre seguidores de seita depois de mais de 30 anos, e ele nem hesita. “A mente humana é muito mais frágil do que queremos admitir”, crava. “Qualquer um pode se juntar a uma seita destrutiva nas circunstâncias e no timing certo.”

Ele me conta que pessoas vulneráveis nem percebem sua própria arrogância. “É como dizer: 'Nunca vou ter uma DST'. As pessoas acham que são o super-homem, então não reconhecem os sintomas quando as coisas começam a dar errado. Elas têm tanta certeza de que 'isso nunca vai acontecer comigo' que não percebem o que está acontecendo.”

“Mas você pensa que está vencendo?”, pergunto. “Especialmente quando a ideia das seitas está tão incorporada na cultura popular – as seitas encontram mais dificuldade para funcionarem?”, indago.

Ross me diz que essa é uma coisa difícil de medir, mas um jeito de ver isso é como as seitas contra-atacam – através de processos e ameaças em geral. “E agora, eu diria que o nível de resistência é bem alto.”

Ele me conta que foi processado cinco vezes por cinco grupos diferentes, um deles gastando $3,8 milhões no processo. Mas seu exemplo favorito é o grupo que passou meses coletando seu lixo para encontrar algum podre para usar contra ele. “A pessoa responsável pelo lixo do meu apartamento estava vendendo ele para a seita, e descobri isso num Tribunal Federal. Isso ter acontecido me diz que o nível de resistência deles é alto. Então devo estar fazendo algo certo.”

Far Cry 5 foi lançado no dia 27 de março. Siga o Julian Morgans no Twitter. Nota: o autor fez essa entrevista para o lançamento de Far Cry 5.

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