Foto por Daryan Dornelles/Divulgação

Emicida e "Triunfo" são sinônimos

No aniversário de 10 anos da faixa que lançou o rapper ao mundo, ele fala sobre o impacto do som e as mudanças no rap desde então.

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18 Abril 2018, 6:00pm

Foto por Daryan Dornelles/Divulgação

Em 2008, o rap nacional não vivia o melhor de seus dias em sua cidade de origem. Entre o assassinato de Sabotage, que mudara o clima do gênero em todo o país desde 2003, o relativo silêncio dos Racionais e a repentina morte de DJ Primo, a produção se baseava completamente no que vinha do underground paulistano (por exemplo o Non Dvcor Dvco, do Kamau), o rap sentia falta de um grande hit ou uma grande figura a quem olhar.

Foi desse cenário de desânimo que surgiu "Triunfo", primeiro single de Leandro Roque de Oliveira, rapper já conhecido pelas consecutivas vitórias em Batalhas de Rimas no metrô Santa Cruz que veio a se identificar como Emicida. Contrariando todas as expectativas, a faixa começou a tocar nas rádios e ganhou um clipe que eu me lembro bem de assistir exaustivamente na MTV.

A formação da Laboratório Fantasma e conseguinte sucesso da mixtape Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe... foram só o começo pro rapper, que aos poucos, alguns outros discos e singles depois, se tornou o maior rapper do Brasil. "Triunfo" não foi só um começo para Emicida, mas foi também um recomeço, de alguma maneira, para todo o rap paulistano e nacional. Entrevistamos o rapper sobre a importância do som e a gravação do DVD em comemoração de sua primeira década de existência:

Noisey: O que você tinha em mente enquanto escrevia "Triunfo"?
Emicida: Eu tinha ao meu redor um desespero de sair da pobreza. O que me tornou workaholic foi isso, tratar da pobreza como um monstro que me persegue e que se eu moscar ele me alcança e game over. Isso é comum hoje entre a gente, imagina há 10 anos. Num Brasil que tava com uma curva positiva na autoestima, que precisava desenhar essa necessidade com uma linguagem que fosse característica da minha geração e que se fundisse com a alma da rua naquele período, "Triunfo" era um grito de vitória depois de vencer a batalha mais difícil de todas. Que era a batalha da sobrevivência, tanto pra mim quanto pra um movimento cultural que passava por uma fase estranha, com gente achando que o tempo do rap já tinha passado. "Triunfo" nasceu pra trazer a vida de novo.

Como rolou a gravação da faixa? De quem é a produção?
Felipe Vassão é o produtor, eu fui no máximo um palpiteiro luxuoso [risos]. Fiquei na orelha dele dando pitaco de coisas que iriam me ajudar a interpretar de uma forma melhor. Eu fui descarregar essa música num estúdio em que já havia trabalhado, lá em Pinheiros, e ele tava trabalhando lá, fazendo um freela. Deu uma espiada na sala e me flagrou descarregando um negócio meio J Dilla, sample de Pat Menethy Group se não me engano. Tava muito pra baixo, outra atmosfera. Ele pediu pra mexer, eu como já era fã dele aceitei na hora. Gravamos lá na produtora dele, na Loud.

"'Triunfo' era um grito de vitória depois de vencer a batalha mais difícil de todas, que era a batalha da sobrevivência."

De que maneira sua perspectiva do rap e de som no geral mudou nesses últimos 10 anos? E sua perspectiva social/política em relação ao que você diz na faixa?
Bom, pra começar, eu tenho uma noção de técnica infinitamente maior hoje do que naquela época. Estudei bastante e tive a oportunidade de ver caras grandes trabalhando, almas inspiradoras. A gente dividia uma temporada com o Bocato no Sarajevo, toda semana ele tava lá, e ver o que ele fazia com o trombone me fez entender que no meu caso o trombone era eu [risos]. Vê-lo improvisar me fez achar deus na música e deus anda em lugares como aquele mesmo, cheio de bêbados, personagens problemáticos e prostitutas no coração da Rua Augusta. No final a música é que nem a gente, atravessa uns infernos, sobrevive de um jeito improvável e cada vez que olhamos pra ela pensamos em como ela é especial por isso também. Os caras do projeto Nave foram ótimos professores, me emociono pensando neles, nunca poderei agradecer pelas aulas que me deram sobre tantas coisas. Amo eles, me fizeram achar o John Coltrane que existia em mim, me ensinaram que a gente é ferramenta em evolução constante, estudo, tentativa e erro. Luta e música sempre.

Sobre politica, hoje sou menos ingênuo. Não que naquela época fosse, mas tinha mais ilusões que hoje não tenho. Talvez ingenuidade nem seja a palavra certa. Mas o que mais fico observando é que naquela época tudo o que eu falava era somente emocional, era baseado no que eu sentia. Hoje tem as coisas que eu vivi e as coisas que estudei, mas tudo ainda vale menos do que o que meu coração me disse.

Você lembra da primeira vez que viu "Triunfo" na MTV/ouviu a faixa na rádio? Como você se sentiu?
A minha memória mais maluca de ouvir "Triunfo" pelo mundo é um dia em que peguei um busão e uma garota adolescente estava ouvindo "Triunfo" sem os fones de ouvido. Suas amigas da escola entraram no ônibus entraram e sentaram junto dela, voltaram a música, ficaram falando mil elogios sobre tudo, inclusive sobre “esse Emicida“. Eu fiquei emocionado no banco de trás, vendo elas ali se divertindo com meu som. Eu estava louco pra dizer que eu era o Emicida, mas achei que seria invasivo e fiquei olhando feliz pra elas apenas. Aquilo ali foi uma das coisas mais especiais que a música me fez viver. Ali a existência fez sentido pela primeira vez.

Como veio a ideia de fazer um DVD em comemoração aos 10 anos da faixa? E como você escolheu quem participaria dele?
Era um desejo antigo, fazer um DVD solo. Tem aquele com o Criolo, mas queria registrar nosso repertório mesmo. Vários lugares já filmaram nosso show, eu queria registrar um com a nossa perspectiva e o DVD vem pra isso.

Os camelôs fizeram uns quatro DVDs nossos também por conta, Emicida – o processador humano, Emicida isso, Emicida aquilo. O meu favorito até hoje é uma copilação das batalhas de freestyle que participei num só produto que tinha o símbolo do Mortal Kombat na capa pegando fogo e sob o nome de “Dragão Bolado - Emicida melhores batalhas”.

Até hoje, como é a reação da galera nos shows quando você toca "Triunfo"? Acha que é um som significativo pros seus fãs?
"Triunfo" é um clássico, não é um hit. Por exemplo, "Senhorita", na época, um pouco antes, era um hit. Tocou à exaustão e alcançou lugares que ninguém imaginava pro rap. "Triunfo" tocou menos, mas tocou onde precisava tocar.

Música feita de dentro pra dentro, e aos poucos ela foi expandindo o seu rolê até chegar no público de hoje. Sempre tem gente nova se conectando conosco, então sempre é a primeira vez que alguém ouve "Triunfo" e se impressiona com ela. Pros fãs, Emicida e "Triunfo" são sinônimos. Demorei pra perceber isso, mas hoje vejo que é isso mesmo. A personificação da vitória do desacreditado.

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