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Welzijn

Cogumelos dão um sono muito esquisito

É comum ver criaturas luminosas nadarem diante dos próprios olhos.

por Suzannah Weiss; Traduzido por Amanda Guizzo Zampieri
12 Abril 2018, 8:04pm

Crédito: Jovo Jovanovic / Stocksy

Depois de uma noite de trufas mágicas em Amsterdã, na Holanda, deitei na cama e fechei os olhos. Um carro de néon com bonecos de desenhos animados, escadas, armas e outros objetos esquisitos pendurados nas rodas apareceram dentro dos meus olhos. Eu me perdi nas cores; rolei e me transformei em todos os objetos. Quando olhei para o relógio e vi que eram oito da manhã, eu não sabia se tinha realmente dormido ou se só fiquei deitada olhando para as formas e padrões esquisitos.

Os psicodélicos proporcionaram a várias pessoas um sono pós-viagem estranho pra caralho. “Mesmo quando fecho meus olhos e sinto a viagem de ácido pelo meu corpo, minha mente ainda está trabalhando em um nível de atividade bastante elevado”, afirma Tom, 29 anos, profissional de RP de Nova York, nos EUA, que prefere utilizar somente seu primeiro nome para que seus clientes não saibam sobre seu uso de drogas. “Porém, não é um estado ansioso, tipo quando tento dormir depois de tomar muito café. Demora demais para chegar no estado de sono profundo.”

“O sono demora pra chegar”, afirma Daniel Saynt, 35 anos, empresário de Nova York, sobre as horas logo após a viagem de ácido. “Sento em um quarto escuro, mas ainda vejo luz. Fecho meus olhos e vejo flashes de eletricidade. Sinto como se criaturas luminosas das profundezas do oceano estivessem nadando em meus olhos. Elas aparecem borradas na minha visão, mas posso vê-las circulando no escuro, mesmo com os olhos fechados.”

Isso ocorre por causa do efeito no neurotransmissor serotonina que os psicodélicos tentam interromper no sono, afirma W. Christopher Winter, presidente da Charlottesville Neurologia e Medicina do Sono, e autor de The Sleep Solution. A serotonina está envolvida em várias reações neuroquímicas que avisam nosso cérebro a mudar de um estágio do sono ao próximo, explica. Assim, alterar a atividade da serotonina pode não levar ao sono REM (sigla para Rapid Eye Movement), o estágio mais avançado do sono em que ocorrem os sonhos.

Pesquisas mostram que as pessoas que fazem uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (SSRIs) utilizados para tratar depressão e ansiedade passavam menos tempo no sono REM. Esses medicamentos podem impedir os neurônios de absorver a serotonina, então ela fica pelo cérebro por mais tempo. Os psicodélicos podem ter o mesmo resultado ao aumentar a liberação de serotonina, o que leva à euforia.

Como resultado, muitas pessoas acordam, após o uso de psicodélicos, sentindo-se como se não tivessem dormido. “Como a estrutura do sono é interrompida, você até dormiu, mas não descansou”, explica James Giordano, professor de neurologia e bioquímica no Centro Médico da Universidade de Georgetown. Ele afirma que isso acontece porque as funções químicas e metabólicas restauradas pelo sono não conseguem ser restauradas sem um sono REM.

Acima disso, os efeitos alucinógenos dos psicodélicos podem, aparentemente, continuar ativos quando se deita para dormir. “Algumas pessoas ainda demorarão para dormir e as alucinações continuarão não como um sonho, mas como fenômeno alucinógeno”, afirma Giordano. “Ou ele irá para o conteúdo dos sonhos, porque não existe uma ativação forte de mecanismos serotoninérgicos no cérebro, que processem as informações visuais. Essas partes visuais permanecem ativas, então o conteúdo visual tende a ser preservado.”

Isso costuma resultar em sonhos que parecem acontecer no local onde se pega no sono. Giordano me informa que não é incomum que alguém diga coisas como: “Eu estava acordado na sala assistindo TV; em seguida, estou sonhando que estou na minha sala, e que existem pinguins saindo da TV e elefantes conversando comigo”.

Outras vezes, sonhos que dão a entender que ocorrem no local onde você está são o resultado da paralisia do sono – quando você está consciente de seu entorno, mas não consegue se mover e vê coisas que não estão lá.

A MDMA em particular pode induzir isso, por meio da interferência com os neurotransmissores dopamina e norepinefrina, ambos envolvidos na sensação de estar acordado. Se um pesadelo ocorrer nesse estado, as pessoas poderão relatar terrores, Giordano afirma. Uma descarga de norepinefrina leva a ansiedade, e aumento das frequências cardíaca e respiratória pode causá-los.

Às vezes, contudo, pessoas com “sonhos” estranhos induzidos por psicodélicos nem mesmo estão sonhando – elas estão confundindo suas alucinações com um sonho. “O que muitos relatam é tipo ‘tive uma experiência psicodélica que foi parar no meu sonho’”, Giordano afirma. “Elas podem até sentir como se estivessem dormindo, mas na verdade não estão.”

Teoricamente, receber doses recomendadas de suplementos como melatonina (liberada pelo cérebro à noite para deixar você cansado), triptofano (aminoácido envolvido na produção de serotonina) ou hidroxitriprofano (5-HTP, um precursor da serotonina) pode ajudar a deixar o sono menos atormentador. Contudo, por causa de diferenças individuais, é imprevisível saber quais funcionarão melhor, se é que funcionarão. “Depende de como os indivíduos metabolizam as coisas e qual é a perturbação”, ele acrescenta. “O sono é neuroquimicamente complicado. Quando você desequilibra a química cerebral, leva um tempo até que as coisas se reequilibrem.”

Como a serotonina está envolvida na produção de melatonina, o uso excessivo, e durante muito tempo, de psicodélicos – especialmente o MDMA – pode dificultar o dormir à noite e o acordar pela manhã. “Eles podem começar a confundir o indivíduo, e a fazê-lo pensar que a noite é dia e vice-versa.” Então, se um amigo seu estrangeiro estiver pensando em usar psicodélicos, fale para usar uma dose baixa de cada vez e espere entre 10 e 14 dias entre as doses para minimizar os efeitos negativos.

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