Viagem

O contraste entre Hollywood e os latinos marginalizados nos anos 60

George Rodriguez tinha uma vida dupla em LA, fotografando ativistas chicanos e músicos famosos como Eazy-E e Michael Jackson.

por Miss Rosen; Traduzido por Marina Schnoor
26 Abril 2018, 8:47pm

Polícia de Los Angeles prendendo um estudante chicano, Boyle Heights, 1970. (Capa de Double Vision) © George Rodriguez.

Los Angeles tem muitas facetas. Mas poucas pessoas viajam entre os reinos que foram separados na primeira metade do século 20, quando a Grande Imigração e a imigração mexicana pós-guerra mudaram a cara da cidade.

O fotógrafo George Rodriguez é um raro artista que prosperou entre a Los Angeles de Hollywood e a chicana por mais de meio século. Nascido em 1937, filho de pai imigrante mexicano e mãe mexicana-americana, Rodriguez passou a vida criando um trabalho que captura os muitos lados da vida em LA — de astros da música, TV e cinema a líderes e ativistas dos direitos civis, Trabalhadores Rurais Unidos e movimentos chicanos.

De um arquivo que inclui desde Cesar Chavez, Dolores Huerta e Brown Berets a Jimmi Hendrix, Michael Jackson e N.W.A., Rodrigues se juntou ao escritor Josh Kun para publicar sua primeira retrospectiva de carreira: Double Vision: The Photography of George Rodriguez (Hat & Beard Press, 10 de abril). Uma exposição com fotos de Double Vision estreia no Lodge em Los Angeles em 26 de maio. Falei com Rodriguez sobre criar arte na cidade lendária durante alguns de seus anos mais incendiários.

Esquerda: Los Angeles, 1992. Direita: Eazy-E, Burbank, anos 80. “Ele era um cara fofo mas muito sólido. Ele parecia muito poderoso. Sempre que o via, ele estava com uma garota diferente. Sempre que o N.W.A. vinha para o meu estúdio em Burbank, na frente da NBC, eles faziam passavam no Taco Bell.” © George Rodriguez

VICE: Como era a vida quando você era criança no sul de Los Angeles durante os anos 40 e 50?
George Rodriguez: Meu pai abriu uma loja de sapatos em Skid Row [no centro] em LA. Moramos lá até 1949 e aí mudamos para South Central. South Central era um lugar difícil para crescer — pode ser ainda pior hoje, mas isso me tornou forte.

Felizmente a escola na minha área, Fremont High School, tinha uma ótimo curso de fotografia. Comecei a fazer o curso quando precisei de um curso optativo, e um dos meus colegas de classe me disse para fazer fotografia porque era fácil, então fiz. A escola acabou criando um punhado de fotógrafos da revista LIFE — aquilo era o Santo Graal do fotojornalismo. Acho que isso me inspirou.

Arranjei um emprego depois da escola num laboratório de fotos. Precisávamos de dinheiro, então eu tinha que trabalhar. Foi assim que comecei a passar por diferentes laboratórios fotográficos na área de Hollywood.

East Los Angeles, anos 60. “Isso é de quando eu estava realmente procurando coisas. Eu estava fotografando o movimento e queria imagens dos bairros como contexto. White Fence é uma gangue de East LA. Quando passa de carro procurando por temas, você sabe que em alguns barrios você tem que fazer a foto direito da primeira vez porque não pode mais voltar. Esse muro foi pintado de branco logo depois.” © George Rodriguez

Você pode falar sobre o seu primeiro emprego como profissional?
Tive sorte de conseguir um emprego trabalhando para Sid Avery em 1957-58. Levei um amigo de carro para Hollywood para fazer uma entrevista para uma loja de câmeras. Estacionei em frente a um estúdio de fotos, o estúdio do Sid Avery. Vi alguém dentro do estúdio montando uma câmera num tripé, então entrei para ver o que o cara estava fazendo.

Começamos a conversar. Eu não conhecia Sid Avery, mas ele já tinha ouvido falar dos fotógrafos da Fremont. Ele me disse que estava contratando e que tinha um laboratório fotográfico, o que era ideal para mim. Fui assistente dele e era muito divertido; aprendi muito.

Sid fotografou pra LIFE, Saturday Evening Post, Collier's e Look. Lembro que uma vez fizemos uma sessão de fotos com Lucille Ball, era para a revista Family Circle, e um dos cílios postiços dela caiu na churrasqueira. Essas coisas queimam rápido.

E: Encino, 1971. “Esse era o quarto do Michael na sua casa em Encino. Eu estava fotografando para a Soul Illustrated. Ele tinha dois ratos, um chamado Ray e outro chamado Charles.” D: Frank Sinatra e Lucille Ball no Screen Producers Guild Awards, Beverly Hills, 1962. (Imagem de contracapa de Double Vision) © George Rodriguez

Você pode contar como eram as condições dos mexicanos-americanos na época?
Na área de Hollywood era difícil, porque você não tinha o luxo dos seus pais trabalharem na indústria do entretenimento. Hollywood era organizada por sindicatos quando eu estava tentando conseguir um trabalho nos anos 1950 — e quando você não era dessa linhagem do entretenimento, você trabalhava em áreas diferentes.

Comecei trabalhando na Columbia Pictures depois que um cara que trazia filmes para um dos laboratórios perguntou se eu queria montar o laboratório fotográfico deles e rodar filmes. Enquanto eu estava lá, meu chefe perguntou se eu podia fazer algumas impressões. Pedi que um amigo meu, que era mexicano-americano, trabalhasse comigo: ele revelava filmes e fazia impressões também. Um pessoal do sindicato percebeu e disse ao meu chefe que ele tinha que me demitir, porque não éramos do sindicato. O fato de ser chicano não ajudava também. Mas já tínhamos dias suficientes de trabalho, então eles tiveram que nos aceitar no sindicato.

Esquerda: Fernando Valenzuela, Dodger Stadium, Los Angeles, 1981. Direita: Rubén Navarro, o “Maravilla Kid”. The Forum, 1968. © George Rodriguez

Quando finalmente entrei pro sindicato, eu perguntava quantos latinos tinham sido aceitos ou promovidos, e a resposta era sempre “Nenhum”. Não sei como é isso agora, mas nos últimos 50 anos, a questão sempre surge em toda década: “Onde estão os latinos em Hollywood?”

Minha perspectiva das coisas sempre foi que sou apenas um fotógrafo. Não sou um fotógrafo mexicano ou chicano, e espero que as pessoas não entendam isso mal, porque tenho muito orgulho de quem sou. É assim que vejo as coisas.

Esquerda: Lincoln Heights, 1969. Direita: Cesar Chavez, Delano, 1969. © George Rodriguez

No livro você diz “Eu realmente estava vivendo duas vidas”. Você pode falar um pouco mais sobre isso?
Nunca pensei nisso. Simplesmente era minha vida. Enquanto trabalhei na Columbia, ativistas fizeram algumas passeatas em East Los Angeles. Aí eu pegava minha câmera e saía na minha hora de almoço — e como eu era o gerente, eu podia ir até East LA, fotografar o quanto pudesse e voltar pro trabalho.

As únicas vezes em que eu tinha consciência de ser chicano era quando trabalhava com outro chicano, o que era bem raro. Lembro de fazer fotos publicitárias para Mario Lopez quando ele tinha oito anos, e me identifiquei com os pais deles porque tínhamos muito em comum. Foi quando notei a diferença. Ou quando eu fotografava alguém como o Cheech Marin, do Cheech & Chong, ou Freddy Fender. Na televisão, parece que os latinos são invisíveis, mas se você mora em LA ou na Califórnia, você nos vê por todo lado.

Delano, 1969. © George Rodriguez

Como o Movimento Chicano influenciou seu senso de povo e cultura?
O Movimento Chicano era fascinante para mim. Quando as coisas começaram a acontecer, eu sabia que tinha que cobrir tudo, e foi o que fiz. Você faz o melhor que pode para pessoas que não podem estar ali, para dar uma ideia para elas do que estava acontecendo, mas mesmo com fotografia é difícil fazer isso.

Conhecer Cesar Chavez [foi como percebi] que o que estava acontecendo era realmente excepcional. As pessoas envolvidas eram amigos meus como Sal Castro, então eu tinha informação interna do que estava acontecendo, como a Marcha Moratorium. Sempre que ficava sabendo de alguma coisa, eu fazia todo o possível para estar lá. Eu sabia que pros chicanos não havia uma fórmula, então respeitava muito tudo que eles estavam fazendo. Parecia uma situação perigosa, não só fisicamente, mas as pessoas podiam ser presas por suas crenças.

Minha intenção original era fazer um livro sobre o Movimento Chicano e toda a experiência mexicana-americana. Por isso tenho tantas fotos daqueles momentos nos anos 60, 70 e 80. Nunca percebi que as pessoas rotulariam aquilo como direitos civis. Eu achava que era sobre os bairros e as pessoas. Quando rotulam o que aconteceu assim faz todo sentido, mas nunca vi dessa maneira.

Boyle Heights, 1968. “Um garoto levou um golpe na cabeça de um policial durante uma das marchas. Chamo essas imagens de 'excursão de campo da polícia'. Eram só garotos.” © George Rodriguez

Como foi passar por todo seu arquivo para escolher os trabalhos que entrariam no livro?
Percebi que era muita coisa para escolher, especialmente sobre história local. Nas minhas fotos, vejo políticos e pessoas crescendo, o começo de tudo, e isso agora veio e já passou.

Adorei o resultado final, e acho que o livro será muito educativo pras pessoas. Não percebi isso até começar a receber feedback. É quase como se eu tivesse feito a lição de casa para elas. Sempre fui muito protetor com as minhas imagens, então muito disso nunca tinha sido publicado. Foi quase como se eu estivesse vendo o trabalho de outra pessoa — e eu pensava “Uau, essa foto ficou muito boa!” [Risos]

Jim Morrison no Whisky A-Go-Go, Hollywood, 1966. © George Rodriguez

Você descobriu coisas que não tinha visto antes, ou viu seu trabalho de um jeito novo como resultado da experiência e idade?
Encontrei coisas que eu tinha esquecido. Eu costumava frequentar o Whiskey A-Go-Go, e uma noite fui lá fotografar uma capa de disco pro Van Morrison, e o Doors era a banda da casa. No último set, as duas bandas estavam no palco e os dois Morrisons, Jim e Van, cantaram “Gloria”.

Quando as coisas estão acontecendo você não aprecia tanto quanto depois, como conhecer pessoas como Cary Grant. Por isso tento me concentrar no que está acontecendo, porque amanhã você vai perceber que foi um momento incrível. [Risos]

Foi como quando Elvis Presley fez um especial de retorno. Eu estava no estúdio de gravação e aquilo era um momento histórico. Ou saindo com Cesar Chavez no auge do boicote à uva – você está exatamente onde queria estar. A fotografia te trouxe até ali.

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