Fotos assombrosas revelam tretas do trabalho ao redor do mundo

A exposição multimídia 'Labor & Materials' incrimina nossa crescente dependência de computadores e tecnologia.

por Marina Garcia-Vasquez; Traduzido por Marina Schnoor
12 Março 2018, 10:00am

Zhang Huan, To Raise the Water Level in a Fishpond, 1997. Cortesia do artista e do 21c Museum Hotels.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Com imagens poderosas de trabalhadores ao redor do mundo, a exposição Labor & Materials, nos EUA, explora a evolução do trabalho e da indústria no século 21. Em obras indo de colagens a fotografias, a exposição examina como a escala e a velocidade da tecnologia impactam a produção de bens e serviços. O objetivo é levantar o véu sobre a desigualdade que existe ao redor do mundo na produção das conveniências modernas como espertofones e computadores.

A arte apresentada na exposição multimídia dá uma ideia das contradições da modernidade e sua eficiência esperada. E levanta a questão: “A que preço?”

Pieter Hugo, Abdulai Yahaya, Mercado Agbogbloshie. Acra, Gana, 2010.

Através de Labor & Materials, há uma visão íntima das condições de vida e trabalho capturadas por 15 fotógrafos internacionais. Entre os trabalhos diversos há imagens dos fotógrafos da África do Sul Pieter Hugo e Zanele Muholi, fotos que mostram a vida de trabalhadores que muitas vezes são obscurecidos e ignorados.

Além disso, as fotos de Alejandro Cartagena mostram a falta de transporte público apropriado em Monterrey, México, com suas fotos de cima de trabalhadores deitados na caçamba de caminhonetes. Pierre Gonnord focou suas lentes nos mineiros da região de Astúrias, Espanha. E o famoso fotógrafo de Pequim Zhang Huan capturou trabalhadores rurais numa abordagem poética do emprego e do número de corpos que movimentam a indústria.

Pierre Gonnord, Miroslaw, 2009.

Labor & Materials está em exposição no 21c Museum Hotel em Bentonville, Arkansas, EUA – lar do Walmart. O foco da exposição em indústrias de massa globais levanta questões sobre o futuro da mão de obra e implica nossos próprios hábitos de consumo. Por e-mail, perguntamos à curadora, Alice Gray Stites, sobre a visão e a atemporalidade da exposição.

VICE: Como você selecionou as fotografias para a exposição?
Alice Gray Stites: Os fotógrafos apresentados em Labor & Materials, como todos os outros artistas incluídos na exposição, foram selecionados porque se envolvem em abordar a evolução da indústria, tecnologia e condições de trabalho hoje, durante uma época de mudança global rápida e profunda.

Muitos dos trabalhos na exposição são icônicos. Você pode falar sobre as fotos de Zhang Huan e Zanele Muholi em particular?
Zhang Huan, que deixou sua cidade natal rural para estudar em Pequim, ganhou reconhecimento internacional por sua arte que conecta nossas noções de identidade contemporâneas com natureza, história, política e trabalho. Em To Raise the Water Level in a Fish Pond, os temas estão conectados intimamente com a paisagem, e envolvidos num trabalho efêmero – colocar seus corpos no tanque de peixes para aumentar o nível da água um metro – isso alude ao tempo e esforço necessário para realizar mudança significativa.

Em sua série Massa and Minah, Zanele Muholi volta sua câmera para ela mesma e a história de sua família: “O projeto é baseado na vida e história da minha mãe. Tirei coisas da minha própria memória e prestei uma homenagem ao seu trabalho doméstico para a mesma família por 42 anos. A série visa reconhecer todos os trabalhadores doméstico ao redor do mundo que continuam a trabalhar com dignidade, enquanto muitas vezes encaram abusos físicos, financeiros e emocionais em seus locais de trabalho.” A série de Muholi fala sobre o trabalho de sua mãe e de muitas mulheres negras que estavam e continuam presas num sistema que controla o trabalho das mulheres negras.

O que torna essa exposição tão oportuna?
A automação iminente da força de trabalho no mundo é um tópico cada vez mais discutido, além de preocupações com acesso a trabalho, bens e serviços durante uma época de desigualdade socioeconômica cada vez maior. A escala, escopo e velocidade da inovação tecnológica hoje anunciam mudanças sem precedentes e o quê, como, onde e por quem bens e serviços são produzidos e fornecidos. Economistas descrevem a explosão de novas plataformas e produtos emergindo na era digital – robôs e outras formas de trabalho automatizado, carros sem motorista, impressão tridimensional, a explosão dos pixels transmitidos pela internet, e a crescente rede global de comércio abastecida por navios de contêineres – como um ponto de inflexão: uma época na história humana em que como vivemos e trabalhamos está sendo profundamente transformado. Como esse ponto de inflexão se parece? Como a transformação do comércio e consumo afetam o acesso a bens e empregos, à informação e infraestrutura?

Zanele Muholi, Massa and Minah II, 2008.

Zanele Muholi, Massa e Minah I , 2008.

Alejandro Cartagena, Car Poolers #14, 2011–2012.
Alejandro Cartagena, Car Poolers #26, 2011–2012.
Purdy Eaton, American Habitat 2, 2009.
Purdy Eaton, American Habitat 2, 2009.

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